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02 Junho 2017

“Assim como no romance de Huxley, o neoliberalismo instala o ideal de felicidade por meio do disciplinamento, concebendo uma sociedade medicalizada, fundada em um suposto funcionamento normal e regimentado que homogeneiza”, escreve a psicanalista Nora Merlin, da Universidade de Buenos Aires, autora da obra “Populismo y psicoanálisis”.

Para a psicanalista, “a boa notícia é que a angústia, esse afeto tão humano e inevitável, resiste ao medicamento e não se deixa domesticar em um diagnóstico estigmatizante. A singularidade da angústia impede que qualquer “Soma” consiga o objetivo colonizador de realizar uma cultura identificada com a máquina, com um funcionamento normal, adaptado ao mundo do poder”.

O artigo é publicado por Página/12, 01-06-2017. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

Um mundo feliz, o romance do escritor britânico Aldous Huxley [Admirável Mundo Novo], publicado em 1932, narra a realização de um experimento que consistia em produzir uma organização social feliz, por meio da medicalização e a hipnopédia. Aqueles que dirigem a pesquisa, administram, calculam e controlam procedimentos químicos sobre cultivos humanos que são produzidos em garrafas. Em seguida, doutrinam por meio da “hipnopédia”, método de manipulação baseado na repetição de frases curtas, que são gravadas no cérebro das crianças ao nascer e enquanto dormem, para que as pessoas acreditem em certas “verdades”. Fabricava-se um narcótico chamado Soma, droga que era fornecida aos deprimidos para que saírem da realidade e “curar” suas penas. O Estado era o encarregado de repartir desta substância, uma espécie de elixir da felicidade, com a finalidade de controlar as emoções e manter as pessoas felizes, fator necessário para não colocar em perigo a estabilidade da Metrópoles (nome da cidade).

Para o melhor funcionamento do sistema, os seres humanos se dividiam em castas: Alfas, Betas, Gamas, Deltas e Épsilons. Os Alfas eram inteligentes, altos e musculosos; os Épsilons baixos, tolos e feios. Esse mundo decidiu que aqueles que eram das castas inferiores seriam cultivados por lotes de cópias exatas, continuando sendo tolos e inferiores durante a vida, para o qual eram acrescentadas certas substâncias no tubo de ensaio, condenando estes seres inferiores a um destino “natural” e inamovível.

Este notável texto, que se inscreveu em inícios do século XX como literatura de ficção científica, levou seu autor a afirmar, alguns anos depois, que muitas de suas imaginadas truculências haviam se tornado duras realidades, com uma rapidez que ele não tinha imaginado. Sustentamos que essa ficção apresenta surpreendente semelhança com a subjetividade produzida pelo neoliberalismo, na qual a medicalização da sociedade é um de seus determinantes principais.

O neoliberalismo é um dispositivo biopolítico que avança ilimitadamente sobre a cultura e a transforma em um mercado no qual tudo tem um preço. Organizada pelos imperativos de consumo, a cultura neoliberal precisa produzir uma subjetividade narcotizada, que se satisfaz consumindo, almejando uma felicidade consistente em aumentar constantemente sua riqueza e ter um êxito que sempre irá resultar insuficiente. As pessoas são consideradas só enquanto consumidoras ou como recursos humanos aos quais é necessário avaliar, decidir para que servem e no que podem se converter. O social se demonstra atravessado pela falsa premissa da meritocracia e a ingênua crença do empresário de si mesmo, adestrado em livros de autoajuda e couchings, acobertando, assim, a realidade inamovível dos privilégios e os destinos de exclusão que se apresentam como “naturais”.

No neoliberalismo, a quantificação e o dígito são ideais orientadores que funcionam como garantias do ser, referenciados nas escalas de valores que são estabelecidos pelos departamentos de venda das empresas. Eles impõem os critérios de normalidade, saúde e doença, os valores compartilhados, hábitos e os sentidos que depois serão comuns. Os grandes laboratórios decidem investir no desenvolvimento de medicamentos em função de estratégias de mercado, para o qual instalam determinadas patologias. Estabelecem a doença, definem os percentuais de anormalidade e os sintomas que ela inclui, bem como a estratégia para a expansão desse diagnóstico, que em alguns casos constituirão “epidemias”. Realizam uma grande campanha de marketing que consiste em promover congressos, publicações, capacitações, viagens para os profissionais, publicidade, campanhas de prevenção e difusão, etc.

Se considerarmos o fato que a indústria farmacêutica é uma das mais poderosas do planeta, é fácil deduzir que obteremos como resultado uma cultura cada vez mais medicalizada e homogeneizada em uma suposta saúde e suposta doença, uma verdadeira colonização da subjetividade. A investigação de doenças mentais amparada pelas neurociências não é o produto de uma alma boa dedicada a fazer o bem à humanidade, mas, ao contrário, rege-se por esta lógica de expansão do diagnóstico de determinadas doenças articuladas à venda de remédios.

Consideremos alguns exemplos. O “ataque de pânico” entrou na moda, nos últimos anos, graças a uma excelente campanha de marketing financiada pelos laboratórios. Os sintomas que inclui o “novo” quadro já foram reunidos por Freud, em 1895, sob o nome de neurose de angústia: hipertensão arterial súbita, taquicardia, dificuldade respiratória, dispneia, tonturas e instabilidade, transpiração excessiva, vômitos e náuseas.

O chamado transtorno bipolar é um quadro há tempo conhecido como psicose maníaco-depressiva, que se expandiu enormemente nos últimos 20 anos por efeito destas políticas corporativas. Muitíssimos sujeitos estão sendo rediagnosticados como bipolares a partir da observação de condutas, avaliação de rendimentos, com o estabelecimento de parâmetros sintomáticos sem que se realize um diagnóstico estrutural.

No caso das crianças, o Transtorno por Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), está na ordem do dia. O déficit de atenção, a hiperatividade e impulsividade são características da infância, que foram elevadas à categoria de transtorno neurobiológico: uma desordem do cérebro. Os neurologistas afirmam que é fundamental realizar um diagnóstico precoce para avaliar se tais sintomas se apresentam com uma intensidade e frequência superior à normal e se interferem nos âmbitos de sua vida escolar, familiar e social. Conhecem alguma criança que não apresente estes supostos sintomas? Qual é a medida da normalidade e quem a estabelece?

O prestigioso neurologista Fred Baughman denunciou ao Congresso dos Estados Unidos e apresentou uma demanda de fraude ao consumidor, no Estado da Califórnia, pelo falso diagnóstico de TDAH. Crianças completamente normais foram diagnosticadas com fictícios desequilíbrios químicos cerebrais, e a subsequente ordem médica de tomar drogas. O excesso de diagnóstico induz à medicalização de comportamentos que simplesmente se separam da norma, sem ser propriamente transtornos psíquicos.

Em nome da saúde e da normalidade ,observamos um estímulo que conduz a ciência ao dispositivo do discurso capitalista e produz o plano macabro de uma sociedade medicalizada, por meio da expansão de diagnósticos em série e na medida das necessidades dos grandes laboratórios. Um dos maiores êxitos do neoliberalismo é ter instalado duas crenças generalizadas que respondem, sugestivamente, à aliança entre neurociências e indústrias farmacológicas: a de uma suposta normalidade psíquica que se deve alcançar e que o caminho para essa consecução é a medicalização.

As neurociências, funcionais ao neoliberalismo, de maneira autoritária e lucrativa, decidem o que é a saúde e a doença, medem a subjetividade, quantificam a tristeza e definem que estar apaixonado é baixar a serotonina a menos de 40%. O neurônio está por todos os lados e todas as atividades humanas são suscetíveis de ser regidas por uma lógica cerebral que é preciso medir e medicalizar. Vemos claramente como o capital produz subjetividade e se apropria já não apenas da mais-valia, como também da verdade do sujeito.

A dimensão subjetiva e a singularidade de um sintoma não podem se localizar no sistema nervoso central ou em um circuito neuronal que não anda bem. O sofrimento não se reflete em imagens de ressonâncias magnéticas e o humano não se reduz aos termos de um cérebro, nem às conexões neuronais. O sujeito do inconsciente é um efeito dos diferentes discursos, e não é suscetível de se reduzir às categorias de um mundo uniforme, nem casa com a razão normatizada, a lógica positivista ou a avaliação meramente quantitativa. A psicanálise produziu como novidade um corpo erógeno, afetado, que se satisfaz e cujo sofrimento não coincide com o circuito neuronal.

Assim como no romance de Huxley, o neoliberalismo instala o ideal de felicidade por meio do disciplinamento, concebendo uma sociedade medicalizada, fundada em um suposto funcionamento normal e regimentado que homogeneiza.

A boa notícia é que a angústia, esse afeto tão humano e inevitável, resiste ao medicamento e não se deixa domesticar em um diagnóstico estigmatizante. A singularidade da angústia impede que qualquer “Soma” consiga o objetivo colonizador de realizar uma cultura identificada com a máquina, com um funcionamento normal, adaptado ao mundo do poder. Em resumo, a angústia não engana e, em muitos casos, permite que despertemos do sonho cientificista que a indústria farmacêutica propõe.

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