Lugares sagrados que nos alimentam. Artigo de Mary E. Hunt

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09 Maio 2017

"Os proprietários, realmente os animadores, são as almas da bondade, o coração do lugar. Ele foi padre e ela freira, os quais mantiveram os valores evangélicos, mas se deslocaram da vida religiosa e clerical para um sentido mais amplo de comunidade. Casaram-se há 37 anos, tiveram carreiras bem-sucedidas nas áreas de psicologia e imobiliária respectivamente, e construíram a casa em 1992", escreve Mary E. Hunt, teóloga feminista cofundadora e codiretora da ONG Women’s Alliance for Theology, Ethics and Ritual – WATER, sediada em Silver Spring, no estado de Maryland, EUA, em artigo publicado por National Catholic Reporter, 06-05-2017. A tradução é de Isaque Gomes Correa

Eis o artigo.

Espaços sagrados vêm em todos os modelos e tamanhos. Eu só não esperava que uma casa de praia fosse um desses lugares. Na verdade, ela é tornada sagrada pelos amigos e familiares dos proprietários que a tem frequentado há décadas. As suas histórias, guardadas metodicamente em um livro, contam as novas formas de alimento espiritual, os novos modos de estar conectado. É quase como se as palavras de Laudato Si’ encontrassem forma, expressão física. A terra, a água, a vida selvagem e o silêncio intencional combinam-se para renovar os espíritos e reascender as energias.

A casa alta, acinzentada está sobre uma ilha próxima ao litoral da Carolina do Norte. Janelas grandes, muros e carpete brancos formam um adorável espaço para a natureza se mostrar. Do lado de fora de uma porta há um estaleiro que se liga a um mirante. No lado de fora de outra porta e mais abaixo há o Oceano Atlântico. A paisagem é deslumbrante, especialmente o pôr do sol visto das escadarias de um dos grandes cômodos da casa. Sei que tudo isso soa como um cartão postal de viagens. E que este lugar poderia ser mais um local caro para alugar. Mas, em vez disso, é uma pedra de toque para as gerações, com o objetivo de receber retiros e renovar.

Os proprietários, realmente os animadores, são as almas da bondade, o coração do lugar. Ele foi padre e ela freira, os quais mantiveram os valores evangélicos, mas se deslocaram da vida religiosa e clerical para um sentido mais amplo de comunidade. Casaram-se há 37 anos, tiveram carreiras bem-sucedidas nas áreas de psicologia e imobiliária respectivamente, e construíram a casa em 1992.

Ela escreve: “[O lugar] foi construído com a ideia de que qualquer pessoa pudesse se retirar para um dos quartos durante um período e ficar a sós, e depois estar com a comunidade na Grande Sala. Insisti que não se fizesse barulho no local, mas que deixássemos a natureza falar alto, principalmente através do silêncio”.

E vem sendo assim. Ele acrescentou um caiaque para as descidas solitárias ao longo do caminho das garças no vasto pântano salgado. A casa é um investimento, não um acordo comercial; mas um investimento na terra e em seus administradores. O casal, junto com o Papa Francisco e seu xará [São Francisco], sabe o quanto “são inseparáveis a preocupação pela natureza, a justiça para com os pobres, o empenhamento na sociedade e a paz interior”, conforme escreve o papa em “Laudato Si’ – Sobre o cuidado da casa comum”.

Chamaram a casa de “Innisfree”, inspirados no poema de William Butler Yeats:

Vou levantar-me e ir agora, e vou-me para Innisfree,
E lá farei uma choça com barro e vimes torcidos;
Terei feijão, nove filas; e abelhas terei ali;
E estarei só, na clareira entre os zumbidos.

As pessoas, começando pelos proprietários, santificam o lugar. O livro de visitas em quatro volumes parece um romance. Um primeiro visitante inteligentemente iniciou a tradição, começando a história com um relato de como as coisas estavam limpas, organizadas sob o seu olhar. Com o livro, os proprietários recordam-se das visitas, dos feriados em família, dos momentos de retiro e descanso, das preocupações com tempestades ameaçadoras, os bons tempos e desafios da vida. Famílias inteiras assinam o livro, contando suas histórias de aventura na praia, os passeios de golfe, refeições memoráveis e novos bebês.

Todos dizem da beleza do lugar, e o quão felizes se encontram. Todos, até mesmo quando chove.

Com o passar dos anos, muitas pessoas continuaram retornando à casa. A mãe de um dos proprietários assina repetidas vezes só para reafirmar o seu amor. Depois de um tempo, ela deixa de vir, mas seus descendentes lembram-na com flores. O homem que escreveu a primeira entrada acabou falecendo, mas ele, também, ainda está bastante presente quando sua família se reúne para a estada anual no local. Visitantes de anos atrás, que vieram quando crianças, hoje escrevem as suas próprias histórias.

A insistência na beleza e gratidão repete-se. Yeats novamente:

E lá vou achar a paz, paz que pinga devagar,
Que pinga dos véus da aurora para onde cricrila o grilo;
A meia-noite ali brilha; o meio-dia é esbrasear;
E o poente... pintarroxos vêm cobri-lo.

Eis como se sentem famílias inteiras.

Com o livro, aprendi que a minha primeira visita foi em 1994. O meu parceiro e eu ficamos completamente encantados pelo lugar. A nossa história, escrita por outras cinco vezes ao longo dos anos, tem o seu próprio padrão. Chegamos exaustos de um ano cansativo, dormimos infinitamente e regalamo-nos no silêncio. Nadar e caminhar, passeios de barco e refeições vagarosas, mais sono e bons livros fazem uma semana nesta casa de retiro um puro tonificante. Saímos renovados, ao mesmo tempo perplexos pensando por que não vamos lá mais vezes.

Até que, enfim, a nossa filha juntou-se a nós; fomos em família desta vez. Ela se apaixonou pelo lugar como tantas outras crianças antes dela. Ao nosso itinerário, adicionou uma ida obrigatória ao hospital local de tartarugas. Visitamos os pacientes resgatados, maravilhamo-nos com o cuidado que recebem e nos regozijamos quando alguns voltam ao mar novamente. Com que facilidade as obras corporais da misericórdia tornam-se parte da vida familiar, até mesmo nas férias!

Uma outra menina que passou um tempo com sua família na Innisfree temia que certas reformas em 2013 acabassem alterando para sempre o lugar. Achou que nunca mais reconheceria a casa novamente. Seu lugar favorito de infância iria deixar de existir.

Para o alívio completo, os reforços estruturais realizaram-se sem mudanças visíveis ao local. Tal é a emoção ligada a locais sagrados que nunca se quer mudá-los.

Os rituais da casa não se alteram grandemente também. Fechar os registros d’água, certificar-se de que as janelas estão trancadas em caso de tempestades, lavar os lençóis para os próximos visitantes, limpar o refrigerador e lembrar de deixar o abridor da porta de garagem sobre a mesa são tudo parte dos ritmos da vida aqui. Fazemo-los religiosamente nesta casa.

Este espaço compartilhado, generosamente disponibilizado, recorda-me das casas religiosas onde as pessoas vão para retiros anuais, momentos para se reagrupar e renovar.

Aqui, isso acontece ao longo das gerações. As pessoas adoecem e morrem; bebês chegam para as suas primeiras visitas; ancestrais são lembrados com flores espalhadas no final do estaleiro.

Famílias inteiras contam com este lugar em suas memórias coletivas, como um local de muita bondade.

Por acaso, este ano conhecemos uma família que tinha ficado na casa enquanto o aposento deles, no próprio bairro, estava sendo construído. Conversamos calorosamente sobre os proprietários da Innisfree e descobrimos que havíamos todos participado da celebração de aniversário dos 25 anos de casamento deles, os donos. Senti como se fôssemos espíritos afins. Tal é o poder de um lugar sagrado para ligar e unir.

Trabalho por um mundo onde lugares assim estejam disponíveis a todos. Hoje busco espaços semelhantes que alimentem pessoas, na esperança de outros que tenham lugares assim para dividir sigam os passos dos meus amigos. Até mesmo os espaços de visitas em nossas próprias casas podem ser miniversões, caso as frequentemos com um cuidado ecológico. Por causa deste local precioso na praia, e com a ajuda de Yeats, sei o que estou à procura.

Vou levantar-me e ir agora, porque sempre, noite e dia,
Ouço o marulho das águas que no lago vêm e vão;
Se na estrada me detenho, ou sobre a calçada fria,
Escuto-o bem, lá dentro do coração.

(A versão do poema é de Paulo Vizioli, publicada no livro YEATS, W. B. Poemas. São Paulo: Companhia das Letras, 1992, p. 43.)

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