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28 Abril 2017

Em seu mais recente livro, intitulado “The Market as God [O Mercado como Deus, sem tradução ao português], Harvey Cox defende que a economia de mercado deificou-se no nosso mundo contemporâneo. Na formulação deste argumento, o autor identifica muitos paralelos entre as estruturas do cristianismo e as do sistema econômico capitalista.

O comentário é de Melissa Jones, jornalista, publicado por National Catholic Reporter, 26-04-2017. A tradução é de Isaque Gomes Correa.


THE MARKET AS GOD
Harvey Cox
Publicado por Harvard University Press
320 páginas | U$ 26,95

O livro é uma ampliação de seu excelente ensaio de 1999 publicado na revista The Atlantic, sob o título “The Market as God: Living in the New Dispensation”. Em ambos os escritos, Cox identifica histórias da criação do Mercado (que ele escreve em M maiúsculo), sacramentos, heróis e santos, além de uma teoria do fim dos tempos.

Cox observa que a inspiração para fazer esta ampliação surgiu da admiração que tem pela “crítica pungente do Papa Francisco ao consumismo desenfreado e à ‘economia da exclusão e da desigualdade’”. Ele aprecia o documento Evangelii Gaudium do papa, publicado em 2013, onde este critica as “teorias do gotejamento”, “o funcionamento sacralizado do sistema econômico dominante” e um “mercado deificado”.

Professor emérito da Faculdade de Teologia de Harvard, Cox é um dos principais teólogos protestantes dos EUA. Com um vasto conhecimento em história, teologia e estudos religiosos, ele sente-se à vontade para apresentar ideias e revelações sobre o tema a que se propôs escrever.

A parte mais interessante do livro ocorre quando compara pontos de epistemologia e evangelismo entre a religião tradicional com o Mercado deificado, de um modo a mostras uma presciência surpreendente concernente a eventos políticos que ainda estavam por vir quando a obra foi publicada em setembro de 2016. Desde a eleição presidencial de novembro passado, políticos, jornalistas e pensadores progressistas têm se ocupado com a seguinte questão: “Por que os apoiadores de Trump não se preocupam com o fato de que as suas palavras muitas vezes não combinam com a realidade?” Cox ajuda a responder.

Ele introduz o leitor à obra de Alexander Bryan Johnson, filósofo e semanticista pouco conhecido do século XIX. Cox descreve Johnson como um banqueiro que percebeu que as notas de papel com as quais lidava diariamente não possuíam valor intrínseco algum, mas dependiam da disposição humana em atribuir-lhes valor real. O pensamento filosófico de Johnson alçou-se à ideia de que as palavras, também, eram vazias de valor e que poderiam ser empregadas como veículos confiáveis, ou não, para a compreensão da nossa realidade.

Segundo Cox, as ideias de Johnson levaram à conclusão de que as palavras eram “tão desprovidas de significado substancial que podemos usá-las para encantar, persuadir, e mesmo adular as pessoas sem nenhuma sensação de culpa. As palavras são para ser usadas”. Cox afirma que as teorias de Johnson são úteis para entender o mundo da Madison Avenue e o Mercado deificado.

Com sucesso, o autor sustenta que o Mercado deificado formou e moldou a humanidade para dentro do nosso estado presente através de uma série de elementos semelhantes à religião. Escreve: “O conteúdo das religiões tradicionais faz-se de narrativas: mitos, lendas, parábolas, liturgias e testemunhos (...) Mas a Madison Avenue conhece este segredo também”. E, como um deus onipotente, o Mercado conhece as nossas necessidades e os nossos desejos via grupos focais e dados gigantescos.

Através da Madison Avenue e do Mercado, aprendemos a avaliar produtos segundo a maneira como nos fazem se sentir, não segundo suas funcionalidades ou segundo nossas necessidades. A individualidade não facilita as vendas numa economia baseada na produção em massa, então o Mercado nos ensinou a falar a linguagem dos sentimentos e a imitar as pessoas que vemos nos meios de comunicação em massa. As mensagens reluzentes nas nossas inúmeras telas nos ensinam a ter a fé irrefletida de que o próximo produto irá nos salvar dos males da época, coisas tais como as rugas, a obesidade ou a falta de popularidade. Cox observa que os evangelistas do Mercado contemporâneo usam discursos urgentes, apressados que nos convidam a uma “Hora da Decisão”, de modo não menos fervoroso de como fazia o famoso Billy Graham [famoso pregador batista nos EUA].

Continuando com a busca pelos paralelos entre religião e economia, Cox também analisa o “Pentecostes” de cada uma destas esferas. Os cristãos em geral reconhecem o Pentecostes como o nascimento da Igreja, quando o Espírito derramou sobre toda a carne e deu aos discípulos o poder milagroso de difundir a Palavra de Deus sobre a Terra. Durante o milagre de Pentecostes, línguas de fogo apareceram ao redor a cabeça dos discípulos, e eles receberam a habilidade de falar muitas línguas que foram ouvidas e entendidas por uma multidão de pessoas.

Cox afirma que, nas últimas décadas, “uma nova era se abriu – um Mercado equivalente ao Dia de Pentecostes com as suas línguas de fogo e com a descida do Espírito sobre a carne”. Diz que este dia proverbial foi o advento dos pixels, elemento minúsculo de luz que permite a comunicação digital.

O autor faz algumas declarações não fundamentadas (ou, pelo menos, sem referências) sobre o efeito dos pixels em nosso cérebro. No entanto, pondo isso de lado, poucos discordariam da afirmação dele segundo a qual a entrega rápida de imagens e mensagens digitais multitudinais a nossos cérebros via televisões, tablets e celulares se comunica com o nosso eu emocional, mais do que com o nosso eu analítico e reflexivo.

Ele destaca Roger Ailes, ex-executivo-chefe da FOX News, como um “evangelista dos pixels e um celebrador descarado da onda ‘emoção sobre a reflexão’”. Como um verdadeiro evangelista, Ailes usava a emoção, a brevidade e uma linguagem colorida para atrair a congregação conservadora. Suspendia-se a lógica, e crenças poderosas eram lançadas sobre os fiéis. Como os apóstolos lavados pelo Espírito no Pentecostes que falavam muitas línguas, Ailes descobriu um jeito de se comunicar diretamente com os corações das massas através do poder dos pixels, enquanto que o significado previamente aceito das palavras e a nossa disposição a atribuir valor real a elas foram suspensas.

A exegese de Cox ajuda o leitor a perceber que, no reino do Mercado, a suspensão da racionalidade num fervor extático por aquele que está lá em cima é um ato virtuoso de fé. Se Cox pudesse reescrever o livro à luz da história recente, será que retrataria o evangelista Ailes no papel de João Batista – um precursor do Mercado que pavimentou o caminho para o salvador que alegava que iria “fazer a América grande de novo”? A existência de um presidente americano pelo qual os sentimentos têm primazia e cujas palavras não possuem um significado real não poderia ter acontecido sem o Pentecostes dos pixels.

Cox traça um argumento convincente de que o Mercado deificado produziu uma teia de valores, narrativas e instituições que precisam de um reexame crítico. No entanto, verdadeiro para com suas origens protestantes, Crox é esperançoso. Ele escreve: “Nós, como seres humanos, construímos isto, e podemos também renová-lo, desmantelá-lo ou transformá-lo se quisermos”.
Talvez uma Reforma esteja à mão.

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