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26 Abril 2017

Em Gandhi Smriti, onde em 1948 um extremista atirou em Mahatma, um museu recorda o homem-símbolo da não-violência.

O comentário é de Ugo Tramballi, publicada por Il Sole 24 Ore, 23-04-2017. A tradução é de Luisa Rabolini.

É tudo tão perfeito que parece cenas do filme Richard Attenborough de 1983. Também porque o diretor foi capaz de encontrar atores que, com um mínimo de maquiagem, pareciam-se espetacularmente com as personagens da verdadeira História. O Gandhi Smriti, o lugar onde às cinco da tarde de 30 de Janeiro de 1948, o extremista hindu Nathuram Godse atirou em Mahatma Gandhi, hoje é realmente um memorial.

A Casa Birla, a casa que pertenceu a um grande industrial e onde Gandhi ficava hospedado sempre que estava em Nova Deli, foi restaurada. No primeiro andar há um museu, no piso térreo é possível visitar o quarto com a roca de fiar onde o Mahatma, a Grande Alma, fiava e meditava. Tudo está quase como foi deixado há 71 anos, quando ele saiu para participar daquela que seria sua última oração coletiva, não muito longe, no gramado da casa. Suas pegadas, marcadas com cimento, agora estão protegidos por um canteiro.

À direita, em paralelo, corre um pergolado construído há pouco, ao longo do qual é contada a vida de Gandhi, com textos e imagens. Até chegar ao gramado quadrado e ao pequeno templo no lugar exato onde Godse disparou sua arma e o Mahatma disse: "Raam, Raa...m" ao morrer. Os turistas são encaminhados e conduzidos em ordem. Lá fora, na frente do Smriti, no número 5 da Tees January Marg, filas de ônibus, táxis e tuk tuk esperam seus clientes com compreensível e humana avidez.

Até o final dos anos 1990, o local da memória do Mahatma era muito diferente. Não era um museu, mas, justamente, um lugar de memória: havia pouco para ver, muito a imaginar e mais ainda a meditar. Ainda hoje os turistas podem caminhar sobre o gramado da tragédia, depois de tirar seus sapatos. Mas, naquela época, no lugar onde o Mahatma falava de não-violência, descolonização e utilidade do enema, poderíamos também nos deitar na grama, observando o lento planar dos falcões no céu imobilizado pelos 48 graus de verão indiano.

Também era permitido adormecer, criando uma conexão momentânea com a Grande Alma. Muitas vezes havia pequenos grupos vindos das aldeias de Haryana e de Uttar Pradesh, aquelas que Gandhi chamava de "a verdadeira Índia, a minha Índia". Das sacolas despontavam chapati crocantes que compartilhavam com os poucos visitantes estrangeiros. Hoje são proibidas atividades tão humanas como comer e descansar que tanto teriam agradado ao Mahatma. Especialmente em seu mausoléu. Permanece-se respeitosamente em pé, levantando os smartphones para tirar fotos e rápidos vídeos.

As gerações vindouras terão dificuldades para acreditar que um homem assim existiu em carne e osso, escreveu Albert Einstein. Tanto na versão antiga mais popular como nesta, mais turística, o Gandhi Smriti sempre vai querer nos lembrar que a Grande Alma foi um símbolo. Do que exatamente, fica cada vez mais difícil lembrar. Godse, seu assassino, foi um ativista da RSS, organização cultural e militar dos extremistas hindus, cuja corrente política, o BJP (Partido do Povo Indiano) governa a Índia há mais de dois anos: já tinha acontecido de 1998 a 2004.

Narendra Modi, o primeiro-ministro, filiou-se à RSS na idade de oito anos. Governando anteriormente o Gujarat - o mesmo estado onde o Mahatma nasceu - e agora a Índia, Modi está se caracterizando cada vez mais como um homem de reformas do que como da hindutva, o hinduísmo antimuçulmano fundamentalista. No BJP agora vota uma percentagem substancial de muçulmanos indianos. Mas a hostilidade religiosa a que Mahatma contrapunha a ahimsa, o princípio da não-violência, permanece latente no País.

Escreve o Buletin of the Atomic Scientists, a associação de Chicago que monitora a ameaça nuclear no mundo, cujos membros incluem os mais importantes especialistas internacionais sobre o tema: "O Sul da Ásia é o lugar em que estão se desenvolvendo e amadurecendo programas nucleares militares e onde os ataques terroristas estão se multiplicando em nível nacional e transnacional".

Parece quase impossível que este é o subcontinente em que nasceu, viveu e atuou o Mahatma. Mas há duas potências nucleares na região: a Índia e o Paquistão. Para lançar a sua bomba, a primeira criou um vetor chamado Prithvi, um antigo imperador hindu. Ao míssil testado logo a seguir pelo outro lado, os paquistaneses deram o nome Ghauri, o guerreiro muçulmano que segundo a lenda havia matado Prithvi.

Na verdade, com a questão atômica a religião nunca quis se envolver, tanto pelo lado indiano como pelo paquistanês. A.P.J. Abdul Kalam, pai do projeto nuclear indiano, foi um muçulmano. Mas desde o início, a síntese perigosa da questão continuou a ser o confronto entre uma "bomba hindu" e uma "bomba islâmica". Isso tudo em um subcontinente em que os dois Países já travaram quatro guerras, continuam a odiar uns aos outros, mais até do que israelenses e palestinos, em uma região que continua conhecida pelos índices de subdesenvolvimento de seu cerca de um bilhão e meio de habitantes: Índia e Paquistão, à meia-noite do próximo dia 15 de agosto, comemorarão o septuagésimo aniversário da sangrenta separação e da dupla independência, com o mesmo ódio mútuo da primeira celebração, em 1947.

"A pobreza existe há 5 mil anos e é aceita com fatalismo: no panteão indiano há um deus para tudo, incluindo a miséria. As razões para a bomba não estão na pobreza", havia afirmado, há alguns anos ao Sole 24 Ore Shekar Gupta, diretor do ''Indian Express”. O governo tinha acabado de detonar cinco ogivas nucleares no deserto do Rajastão. Poucos dias depois, o Paquistão explodiu mais cinco sob a areia do Baluchistão. Era 1998, durante o primeiro governo dos nacionalistas do BJP. Mas o programa nuclear militar indiano tinha sido iniciado por Indira Gandhi. E, em 1998, sua nora Sonia, líder do governo paralelo de oposição no Congresso, afirmou com entusiasmo que os testes no Rajastão eram “uma questão nacional, não de um único partido. A esse respeito, todos os indianos estão unidos”.

Einstein tinha razão: teremos dificuldade para acreditar que um homem como o Mahatma realmente existiu. Quando saírem do Gandhi Smriti, na calçada à sua frente verão dois canhões apontados para o mausoléu. Não se preocupem, não atiram: estão lá apenas para adornar a entrada do Colégio de Defesa Nacional, também na Tees January Marg.

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