‘É a Palestina brasileira’, diz diretor de documentário sobre massacre Guarani-Kaiowá

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25 Abril 2017

A primeira vez que o cineasta Vincent Carelli desceu nas terras do Mato Grosso do Sul foi no ano de 1987, para ver de perto a religiosidade dos Guarani-Kaiowá. Carelli viu mais. Numa reunião entre representantes indígenas, a qual ele só veria traduzida anos mais tarde, ele testemunhou com a câmera o início de um movimento político de resistência.

A reportagem é de Fernanda Canofre, publicada por Sul21, 23-04-2017.

Anos depois, em 2011, a notícia do assassinato do cacique Nísio Gomes, liderança Kaiowá em Guaiviry, morto em um ataque de fazendeiros à aldeia guarani, reconectou Carelli com o que acontece no Mato Grosso do Sul. O Ministério Público Federal (MPF) denunciou 19 pessoas pela morte de Nísio; e Carelli começou o projeto que resultaria no filme Martírio.

O documentário reconta a história de expulsão e exploração dos Guarani-Kaiowá no território sul-mato-grossense desde os primeiros contatos com os brancos até os dias do massacre de hoje. Passando pelas políticas do Império, Marechal Rondon, Getúlio Vargas, período da ditadura militar e os discursos anti-indígenas proferidos em sessões recentes no Congresso Nacional, Martírio tenta dar voz a quem a História nunca ouve. “Cada um luta com as armas que tem, nesse caso, esse filme é uma arma Guarani-Kaiowá. A gente fez esse filme, mas ele é parte de uma inteligência de resistência Guarani-Kaiowá”, afirma o co-diretor, Ernesto de Carvalho.

Parceiro de Carelli no projeto Vídeo nas Aldeias, que usa recursos de audiovisual para apoiar as lutas dos povos indígenas, Carvalho também é antropólogo, cineasta e assina um documentário sobre os territórios guaranis no Rio Grande do Sul, Desterro Guarani (2011). Entre os Guarani-Kaiowá, ele conta que encontrou um espaço diferente. “Nesses anos todos filmando aldeias indígenas, nunca foi tão fácil filmar em um lugar. Uma contradição total. É um lugar profundamente difícil, adverso, deprimente pela precariedade material, mas muito receptivo. As pessoas tratam muito bem quem chega, elas celebram muito a chegada de qualquer um que queira estar ali e compartilhar um pouco daquilo que essas pessoas estão vivendo”.

Esta semana, ele esteve em Porto Alegre para o lançamento e debate em torno de Martírio e falou com o Sul21 sobre o massacre dos Guarani-Kaiowá, as armas não-tradicionais sendo usadas contra eles, os erros políticos que envolvem o assunto e porque seu filme escolhe tomar partido.


(Foto: Divulgação/Martírio)

Em vários momentos do filme, vocês usam palavras como “invisível” e “invisibilidade”. Falar de indígenas no Brasil é falar de uma história de invisibilidade?

Martírio é um filme que justamente responde à invisibilidade. É um filme que lida com o fato. Por exemplo, a morte, o massacre, o assassinato, são coisas das quais você não tem registro. O próprio processo histórico é um processo histórico apagado. É uma tentativa de tornar visível uma coisa que a História oficial do Brasil faz um esforço para apagar. Mesmo a História que a gente aprende nas escolas é muito indiferente ao que é o sofrimento indígena, o que é o espólio indígena, a retirada forçada das terras ou o próprio racismo. O filme é uma tentativa de como a gente consegue mostrar essa história.

O filme é em primeira pessoa, com Vincent Carelli contando como ele se reconectou com a história dos Guarani e Kaiowá, a partir do assassinato de um cacique em 2012. Vocês defendem nele um cinema que toma partido. Pode falar um pouco a respeito dessa posição?

É impossível fazer cinema sem se posicionar, é impossível fazer documentário sem se posicionar. Não se posicionar é uma posição e, geralmente, uma posição que está favorecendo o poder. Martírio é um filme muito posicionado, muito consciente no seu posicionamento. A guerra que está acontecendo no Mato Grosso do Sul é uma guerra completamente desigual. Você tem um dos maiores exportadores de soja do mundo, numa economia completamente fundamentada no latifúndio, que tem dinheiro para comprar milícias, num Estado profundamente mobilizado pela produção, mas também pelo consumo de bens de luxo. Esse é um lado. De outro lado, você tem comunidades que foram expulsas de suas terras, ao longo de um século de esbulho e de exílio forçado, que vivem em lugares extremamente apertados, que não têm terras para fazer o que tradicionalmente dá sentido à suas vidas, que não tem representantes no Congresso Nacional, que não têm expressão na mídia que circula. Como não se posicionar nessa batalha completamente desigual?

Eu sinto que, de alguma maneira, uma boa parte dos brasileiros acaba tendo uma relação afetiva com o massacre Guarani-Kaiowá. Até esse processo de as pessoas terem colocado o nome Guarani-Kaiowá, no Facebook. Acho que as pessoas sentem, de alguma maneira, que é a Palestina brasileira. Elas sentem que há ali um genocídio contemporâneo com o qual elas são coniventes.


O filme ilustra como o processo de retirada dos Guarani-Kaiowá de suas terras foi esquecido e ocultado da História do Brasil recente. Quais os efeitos disso?

Eu acho que o Mato Grosso do Sul é meio que um espólio de guerra. As comunidades Guarani-Kaiowá que estão aí são um pouco espólio de guerra. Em alguns sentidos, é como se a Guerra do Paraguai (1864-1870), a guerra de colonização, a guerra de interiorização ou a definição das fronteiras do país, como se tudo isso estivesse em aberto. As populações indígenas aparecem como uma ameaça ao tipo de colonização interna que a gente tem no país. Essa ideia de ser um país que quer falar uma língua só, o português, mas que na verdade tem centenas de línguas indígenas. Um país que se quer branco, mas que não é branco. A forma como a gente não leva em consideração a realidade indígena ali diz respeito a isso, ao fato de que [esse extermínio] ainda está em curso. Tem uma coisa nesse racismo anti-indígena, aqui o indígena ou é selvagem demais ou é contactado demais. O que a gente vê no Mato Grosso do Sul é bem isso. São comunidades que são vistas com muito desprezo pelas pessoas que moram nas cidades, porque não são o índio puro que as pessoas querem imaginar que vive na floresta, que é uma fantasia do branco, e estão ali vivendo ali de uma maneira que não condiz com como os brancos gostariam de ver os índios.

Tu falaste de uma certa empatia das pessoas com indígenas, citando esse movimento de trocar nomes nas redes sociais por Guarani-Kaiowá. Isso já foi em 2013. Como tu vê isso quatro anos depois? Nossa empatia vai além das redes?

Boa pergunta. Nossa indignação tem uma energia muito estanque. Às vezes, você indignar as pessoas não leva muito longe, muito além da catarse momentânea. Acho que a energia direcionada aos Guarani-Kaiowá entrou um pouco nesse estanque, mas acho que é aí que o filme dialoga com as pessoas. Por isso que ele emociona tanto as pessoas, é como se ele desse um conteúdo real para essa catarse. Se você pega e fala, “ eu tenho solidariedade com os Guarani-Kaiowá”, é uma solidariedade meio abstrata, é uma revolta meio abstrata. O Martírio pega e fala: essa é a história, isso é o que aconteceu. É uma lacuna enorme na nossa formação, por isso que as pessoas se sentem muito mobilizadas pelo filme. Acho que com essa informação a gente está indo um pouco mais além. Estamos num momento político no país de muita confusão, a informação com uma leitura serena sobre o processo histórico, ela tranquiliza e foca as pessoas. O filme faz isso, ele dá um pouco de foco. Por outro lado, ele parece entrincheirado dessa dicotomia que a gente está vivendo agora, com essa cisão entre duas metades do país que não conseguem conversar direito. O filme lida com uma crise que é muito anterior e muito maior. É um filme claramente no campo da esquerda, mas não é um filme que está gritando “golpe”.

Inclusive, o filme questiona as políticas indigenistas conduzidas pelo governo de Dilma Rousseff (PT), especialmente na demarcação de terras.

Exatamente. Há dois anos, a gente estava, no campo de esquerda do Brasil, tecendo críticas importantes e severas ao governo da Dilma. Um governo desenvolvimentista, muito focado na produção, pouco focado no consumo e estava denunciado o que era uma calamidade para as políticas indigenistas. Era péssimo. A gente não conseguia antever o golpe há dois anos atrás – a direita foi muito mais esperta nesse sentido e conseguiu orquestrar isso por meio de interesses econômicos que a gente não sabe ainda quais são – mas a gente estava fazendo uma crítica que tinha que fazer sim. Você chega nas aldeias e as pessoas têm um sentimento de traição com o PT, especificamente com o governo Dilma. Você vê a Helena Borjão, liderança guarani, gritando que todo mundo votou na Dilma, mas e aí? Será que nossos interesses não vão prevalecer perante os interesses dos fazendeiros? É exatamente esse o sentimento.

Estamos vivendo tempos de CPI na Funai e com um dentista e pastor evangélico na presidência, nomeado agora em abril pelo governo Temer. Uma das coisas que mudou desde o impeachment, sobre a qual o filme fala também, é o papel das instituições que trabalham com política indigenista no país. O que esperar dela?

 A Funai sempre foi engessada, sempre esteve de mãos atadas, a gente não conseguiria pensar que ela poderia piorar tanto. Ela foi desmontada nos últimos 12 meses, está completamente sem recursos, foi entregue a um pastor evangélico e a um general do Exército. Na verdade, todo o pensamento missionário, militarista, o presidente da Funai (Antônio Costa) outro dia deu uma declaração dizendo que os índios não podem estar “congelados no tempo”, ou seja, um cara que não tem nenhum entendimento do que é a realidade indígena brasileira. O que a gente está vivendo com a Funai agora é sintoma de um governo que é anti-indígena. O golpe é anti-indígena. O golpe é em boa parte evangélico e é ruralista, isso está no seio do negócio.


(Foto: Divulgação/Martírio)

O Rio Grande do Sul também aparece no filme, pelos deputados federais do Estado que são parte da bancada ruralista ou que citam demarcações de terras em disputa aqui. Mesmo o filme falando sobre o Mato Grosso do Sul, mostra que essa questão tem ramificações no país todo.

O lobby ruralista engloba vários estados. Esse pessoal está se unindo já faz um tempo. Você anda pelo Mato Grosso do Sul, na fronteira, por exemplo, com o Paraná, você vê placas anti-indígenas, contra demarcação. Tem uma que diz “contra a demarcação indígena, deixa a gente trabalhar”. O que, na verdade, são fantasias. O problema não é econômico, no sentido fundamental. Se o governo tivesse vontade, existe um valor que ele poderia gastar para indenizar as terras e poder marcar aquelas tekoha da maneira como elas têm que ser demarcadas. O lance é que os ruralistas não querem que isso aconteça. Você tem várias situações em que poderia ter resolvido, mas para eles é fundamental defender um projeto de sociedade e não permitir a demarcação indígena. Por mais que tenha indenização, muitas vezes colocam um preço da indenização que não é pagável.

O que te faz usar a palavra “guerra” para o que acontece no Mato Grosso do Sul hoje?

Na verdade, acho que é um massacre, não uma guerra. A tensão é palpável, é um estado de beligerância, você não tem normalidade lá e tem muitos dos sintomas de uma guerra. As pessoas estão deprimidas, há mortes constantes. Só que é uma guerra, um massacre, com meios não muito tradicionais. O atropelamento como arma, por exemplo, é uma coisa que para as pessoas é difícil de entender como funciona isso. Você tem, por exemplo, gente que deixa cachaça na beira da estrada, na frente de um acampamento, de forma proposital. O que é ficar num acampamento à beira da estrada, dia trás dia trás dia, sem as pessoas conseguirem chegar até você, sem água, muitas vezes não tem rio, sem energia, e aí encosta um carro e deixa uma caixa de cachaça. Essa é uma estratégia básica de assassinato. Você vê aquelas pessoas completamente deprimidas, estagnadas ali, os caras bebem e vão andar bêbados pela BR e são atropelados. O atropelamento é constante.

E tem a resistência. É essa ideia do Martírio, a resiliência obstinada, você ficar no espaço. Cada um luta com as armas que tem, nesse caso, esse filme é uma arma Guarani-Kaiowá também. A gente fez esse filme, mas ele é parte de uma inteligência de resistência Guarani-Kaiowá. Essas pessoas têm consciência muito clara do que é a câmera, do que é a cena que eles produzem com a gente, do discurso que produzem. Assim como os ruralistas estão muito conscientes da imagem que eles estão produzindo na TV Câmara e na TV Senado, as comunidades Guarani-Kaiowá também estão muito conscientes das imagens que elas estão produzindo no Martírio.

Martírio acompanha um dos chamados Leilões da Resistência, onde os deputados Ronaldo Caiado (DEM) e Luiz Carlos Heinze (PP) aparecem. Como foi isso?

A gente foi lá como público. É o que está no filme, um discurso supostamente nacionalista, meio messiânico religioso, em torno da ideia da propriedade como uma coisa sagrada. O que é bem esse projeto de sociedade. A coisa mais sagrada da existência é a propriedade? Acho que o filme lança essa pergunta: é isso o que você quer para a sua vida? E você tem o campo que diz que sim, é isso. Com um discurso racista, homofóbico. Tem essa frase infame, de que Gilberto Carvalho (ministro do governo Dilma) alinha “tudo o que não presta”. O que é essa visão de mundo? A gente foi enquanto público e testemunhou o caroço desse sentimento que é protofascista, na verdade. O sentimento que possibilita uma figura como Bolsonaro, é o mesmo que você encontra ali com esses caras.

Você acha que esse sentimento está encontrando uma liberdade maior para se expressar nos últimos tempos?

Tem uma coisa que está no Mato Grosso do Sul, em todos esses anos que a gente ficou indo lá, e surpreendia. A gente pensava “caralho, existe um lugar no Brasil com uma placa anti-indígena!”. Parecia insólito, parecia haver uma coisa meio não-brasileira sobre isso. Mas era prenúncio do que a gente está vendo hoje. O Mato Grosso do Sul é como se fosse a incubadora das formas do reacionarismo brasileiro. Não todo o Mato Grosso do Sul, tem que deixar claro que existem coisas boas também, como em todo lugar. O que nos mostra que o que a gente está vivendo como uma calamidade, como uma derrocada do humanismo, do sentimento progressista de solidariedade, de empatia, de inclusão como valor, para os indígenas chega antes. A gente começa a viver um estado de exceção, em cima desse sentimento fascista e reacionário, para as comunidades indígenas e para as comunidades à margem da História, o estado de exceção tem sido a regra.

Vocês trazem para o filme um trecho da Comissão de Pecuária e Agricultura, em que foi exibido o vídeo de um fazendeiro e ex-policial rendido por indígenas. O governador do MS, André Puccinelli (PMDB) apresenta o vídeo como “prova de violência praticada por índios”, mas o filme tenta buscar o que ele não mostra e entender o que aconteceu. Como foi para vocês, que tem uma posição nessa história, encontrar um vídeo assim?

É tão cruel o que os Guarani-Kaiowá vivem que notícia de um fazendeiro morto dentro desse conflito é uma coisa rara. A gente achou o vídeo no YouTube meio perdido. Achamos uma versão que depois saiu do ar e chamava “Índios assassinos”, que mostrava essa imagem e a gente sabia que ela devia pertencer a um contexto e estava totalmente retirada dele. Aí a gente foi atrás da história. Chegamos lá no município de Douradina, fomos super bem recebidos. É aquela sequência no filme em que as pessoas vão ao local onde tudo aconteceu e relatam. O que me impactou muito ali foi a figura do João, o cara que em última instância foi responsável pelos golpes que mataram o Pancada, como era chamado o fazendeiro. Ele era um policial aposentado e chegou lá bêbado, atirando. O João passou um período preso por causa disso e é um cara muito marcado por essa história. Isso não tá no filme porque, no corte final, uma longa conversa com ele teve que sair por falta de tempo. Mas ele carrega a própria contradição. A marca de ter matado, ninguém quer ser assassino, e, ao mesmo tempo, a reflexão de porque aquilo aconteceu. Na conversa com ele, tem horas que ele entrou em parafuso. “Mas por que isso aconteceu? Por causa da terra” e fica repetindo “foi por causa da terra, foi por causa da terra”. É isso, uma guerra por território. Foi certamente um dos pontos mais impactantes da filmagem, foi aquele momento de a gente chegar em um caso que os caras usam…Uma ideia totalmente absurda de índios assassinos.


(Foto: Divulgação/Martírio)

Como os Guarani-Kaiowá vivem entre essa contradição de ser um povo reconhecidamente pacífico e ter de enfrentar violência, a própria questão dos suicídios?

Houve um surto de suicídio, na década de 1990, mas ele passou. Você não tem mais esse fenômeno de suicídio Guarani-Kaiowá, mesmo quando ele existia era uma coisa muito complexa. Depois os Guarani-Kaiowá foram alvo de uma certa curiosidade sobre suicídio, de uma série de pesquisas, as pessoas sempre chegam lá querendo saber sobre esse assunto e eles foram muito estereotipados. Porque suicídio é assunto que fascina as pessoas. O que tem e que acho que é muito bonito na cosmovisão Guarani-Kaiowá é essa ideia de bem viver. Você viver bem é ter uma certa harmonia entre a vida celestial e essa vida que a gente tem. É isso que acontece nas cerimônias religiosas que o Vincent estava filmando. A ação política é totalmente mobilizada pela experiência religiosa. Ela é autorizada pela experiência religiosa. As retomadas de terra, por exemplo, acontecem depois de dias rezando, quando recebem um sinal, uma autorização. Tem um aspecto meio sagrado da resistência que é o que dá força às pessoas.

O filme aborda também um programa de governo de Getúlio Vargas, construindo reservas em terras aleatórias que hoje estão superlotadas e mostra os índios que questionam os que aceitaram ir para esses lugares. Como é essa relação deles com a terra?

Pro branco, para a nossa sociedade, a terra é um número. Terra é qualquer terra. Ela tem uma série de propriedades químicas, uma série de parâmetros, mas não tem nada de fundamental, essencial. Essa é uma visão completamente dissonante com a relação que os guaranis têm com a terra. Isso que é difícil explicar para as pessoas. “Por que não bota esses índios não sei onde? Lá está sobrando uma terra”. Mas não é qualquer terra, é terra que você tem uma relação com ela. Terra é sagrada. É a ideia do espaço público sagrado. A nossa cosmovisão é fundamentada nessa ideia de terra como propriedade, isso é totalmente em dissonância com a experiência indígena, da relação com a territorialidade. Uma coisa que emociona muito é a relação com a terra arrasada. Por exemplo, Pyelito Kue, que é onde rola o ataque dos fazendeiros [no filme], você chega lá hoje em dia e é uma terra arrasada. É uma terra que já foi pisoteada pelo gado durante décadas, que já foi queimada, plantada, colhida, transformada de mil maneiras. Mas os índios querem aquela terra, querem aquele pedaço de terra. Isso é uma coisa muito emocionante.

Falando em relação pessoal, depois de anos trabalhando com a produção desse documentário, que história te marcou mais?

Uma coisa que mexeu muito com a gente foi a dona Damiana. Era muito comum a gente sair e filmar com ela e entrar numa crise de choro. Porque ela é sintoma, na verdade. Mais do que resistência, ela meio que incorpora tudo, é a própria contradição daquela vida ali. A relação dela com aquele morto que aparece ali, com o cemitério, a consciência que ela tem da imagem que produz, a aliança que ela faz com a gente, parece que a vida dela inteira está a serviço disso. Parece que ela abriu mão de uma certa experiência que você pode chamar de normal ou de família ou de cotidiano. A vida dela foi concentrada num gesto de resistência, quase inumano. Ela só pensa nisso, ela só faz isso, ela resiste. A gente ficava muito mal depois que ia falar com ela, sempre. O acampamento dela foi desmontado. Depois do golpe, a Polícia Federal chegou lá e fez uma reintegração de posse, que há anos era protelada. Quando a gente estava lá, o sentimento era de sobressalto diário, de que a qualquer momento poderia haver uma reintegração de posse, até que a gente entendeu que isso não ia acontecer. Ela se recusa a ir para a reserva, porque ela diz: aqui é minha terra, aqui eu cresci, aqui é meu tekoha, eu não vou para a reserva velha – tipo a de Dourados, reservas apinhadas de gente. Isso dá um sentimento agonístico, de desespero diário, que ela tinha e que ela contaminava qualquer um que chegava perto dela. Dessas viagens, ela certamente foi uma das coisas mais impactantes. A resistência dela, a presença dela.

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