Novo clericalismo está impondo velhos modos à arquitetura moderna de igrejas

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19 Abril 2017

A arquitetura religiosa tornou-se linha de frente das guerras litúrgicas à medida que igrejas católicas passavam por novas renovações. Michael DeSanctis, consultor de construção de igrejas e professor de teologia, não está contente.

A reportagem é de Peter Feuerherd, correspondente da série Field Hospital do NCR sobre a vida paroquial e é professor de jornalismo na St. John's University, em Nova York, publicada National Catholic Reporter, 13-04-2017. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

Pastores restauradores, bem mais jovens que o Vaticano II em idade, estão ordenando as mudanças. E já se foram o que eles às vezes depreciam como igrejas "Pizza Hut". O objetivo é restaurar a tradição. Eles querem balaústres no altar, querem colocar o Santíssimo Sacramento lá perto e usar mármore caro no chão para selar a área do santuário como uma arena polida e exclusiva para a ação litúrgica clerical. Às vezes, o coro fica relegado a um loft traseiro, trazendo um som sem corpo. Em outras paróquias, assentos circulares são trocados por longas filas de bancos.

DeSanctis, professor de Belas Artes e Estudos Pastorais na Universidade Gannon em Erie, Pensilvânia, escreveu na Emmanuel Magazine que essas mudanças na arquitetura da igreja são manifestações do que ele descreve como um novo clericalismo. O objetivo é destacar o sacerdote de sua congregação, em oposição a uma teologia do Vaticano II que se concentrava na participação leiga e no enfraquecimento das barreiras.

"A arquitetura é como expressamos nossa liturgia", disse DeSanctis ao NCR, recentemente, em entrevista por telefone, observando que a geração de sacerdotes pós-Vaticano II saía frequentemente do santuário para interagir com os paroquianos durante a liturgia. Eles construíam igrejas com foco em um design circular para aproximar a congregação e abaixavam o altar para aproximar o sacerdote dela.

Mas isso mudou com o surgimento de muitos clérigos mais jovens, formados em seminários com o pensamento do Papa Bento, que voltaram a enfatizar distinções clericais. Em todo o país, DeSanctis notou que vários pastores estão voltando o design das igrejas suburbanas construídas nos anos 60 e 70 ao foco na ação sacerdotal.

Este movimento vem à custa dos católicos que tornaram-se adultos no Vaticano II, muitos dos quais não estão impressionados com a reorganização da mobília da igreja para enfatizar o status clerical. DeSanctis, de 60 anos, disse que muitos católicos que ele conhece mudam para outra paróquia quando percebem está chegando à sua paróquia o entusiasmo por modernização de seu design. Eles não apreciam a nostalgia de uma igreja pré-moderna e frequentemente não estão de acordo com os custos que acarreta.

"Nós não compramos as categorias mais. O respeito precisa ser conquistado", disse ele.

Em seu artigo, DeSanctis defende a tão difamada igreja suburbana modernista, com seu foco em nutrir a comunidade.
Ele começa com a igreja de São Judas Apóstolo em Erie, produto do catolicismo do pós-guerra. É uma estrutura modernista com uma cruz imponente no topo, construída para ser "um lugar de culto completamente à vontade no mundo moderno."

DeSanctis escreve: "A modernidade era algo que o povo de São Judas Tadeu não considerava nem estranho nem tão ameaçador, mas uma condição de vida tão potente para a imaginação dos católicos prósperos e com formação universitária nos EUA pós-Segunda Guerra quanto os ritos antigos de sua igreja. Um ambiente distintamente moderno permeava cada centímetro da paisagem brilhante e suburbana que haviam escolhido para habitar com suas famílias jovens."

São Judas Tadeu, observa ele, se encaixou na paisagem suburbana moderna dos Estados Unidos e essa foi a sua força, nada pelo que se desculpar, mesmo que não se parecesse com as catedrais da velha Europa.

No entanto, esse modelo mudou. A igreja de São Judas Tadeu passou por uma nova reforma nos últimos anos.

Vídeo do YouTube da igreja de São Judas Tadeu em Erie, mostrando elementos do projeto por dentro e por fora.

Velas trabalhadas agora demarcam o limite entre o santuário e os bancos. A área do altar foi transformada pelo mármore, separando-se visualmente. A nova arquitetura, destinada a recapturar elementos tradicionais, tem uma mentalidade clerical "chamativa", escreve DeSanctis.

Ele observa que tais mudanças são exemplos da "territorialidade agitada" expressa por meio de mudanças físicas feitas por "uma onda de sacerdotes com a intenção de desfazer as conquistas de seus antecessores imediatos, uma geração ou duas de homens animados pelas reformas litúrgicas do Concílio Vaticano II."

DeSanctis expressou preocupação que sua língua possa ser muito decepcionante, mas disse que a crítica se justifica. Ele vê o Papa Francisco como um aliado, que censura a transformação de igrejas em partes de um museu e expressou desconfiança com o foco no externo do vestuário litúrgico em detrimento de acolher e proclamar o evangelho.

Ele reconheceu ao NCR que houve projetos modernistas ruins nas últimas décadas, muitos criticados por jovens religiosos restauradores. No entanto, ele disse: "A Igreja não pode persistir em fazer as pessoas sentirem que estamos vivendo na Idade Média".

O objetivo deste design é "criar um estilo litúrgico e arquitetônico que seja condizente com a nossa época". Como exemplos, ele cita a Igreja de São Miguel em Wheaton, Illinóis, um projeto para o qual prestou consultoria, e a Catedral de Cristo Luz em Oakland, na Califórnia.


Vista exterior da Catedral de Cristo Luz em Oakland, na Califórnia, construída em 2008, que mostra um design "condizente com a nossa era", segundo Dr. Michael DeSanctis. (Foto: Greg Tarczynski | CNS)

O estilo modernista, disse ele, não precisa ser superficial. Ele consegue falar do mais profundo impulso humano, tanto quanto as grandes catedrais europeias. Por exemplo, ele notou o impacto dos grandes monumentos modernos dos EUA, o Memorial aos Veteranos do Vietnã em Washington e o Memorial do 11 de Setembro no World Trade Center, em Nova York, ambos inspirando reverência e fornecendo lugares para expressar profunda emoção implícita.

A arquitetura da igreja precisa reunir clérigos e leigos, observa DeSanctis, e não ser mais um motivo para separação. Espera-se, escreve ele, "que sacerdotes de todas as idades e convicções litúrgicas comecem a considerar o seu local de trabalho menos como um refúgio dos fiéis leigos a seu cargo e mais como o próprio ponto de plena união com eles sempre que a Igreja dá voz à Sua oração".

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