Ken Loach, Jesus Cristo e o Neoliberalismo

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06 Abril 2017

"Há muitos modos de ser cristão! O que importa são as bases sobre as quais se dão suas alianças, como são formulados e realizados seus projetos."

O comentário do filme "Eu, Daniel Blake", é de Christina Vital, professora do Programa de Pós-graduação em Cultura e Territorialidades da Universidade Federal Fluminense, doutora em Ciências Sociais pelo PPCIS/UERJ e mestra em Antropologia e Sociologia pelo IFCS/UFRJ,  publicado em sua página no Facebook, 02-03-2017.

Eis o texto.

“Quem mata mais, cocos ou tubarões?” esta singela frase marca uma fase da bela narrativa de Eu, Daniel Blake, filme de Ken Loach. Ela foi proferida por um trabalhador, como tantos aqui e acolá, que mesmo em situação socialmente vulnerável preservava dignidade, arte e sensibilidade. Ele era carpinteiro como o humilde Jesus, como alguns gostam sempre de lembrar. Pensando bem, acho que Loach estava mesmo produzindo alguma equivalência entre o trabalhador inglês e Jesus.

Quem sabe? O filme é farto em peixes. Ele era carpinteiro e fazia peixes e os distribuía gratuitamente aos que não tinham o que comer e viviam sem esperança. Quando quiseram comprar ele não vendeu! Além dos peixes há uma mulher que o sistema “empurra” à prostituição e ele tenta “salvá-la”. Ela esteve com o trabalhador em seu momento de calvário. O carpinteiro, assim como o Jesus bíblico, foi assassinado pelo sistema que o tratava como louco.

Mas seguindo a ideia inicial (tive um insight sobre esta possível equivalência no meio da escrita), o menino parecia não ter ouvido o que o trabalhador lhe disse, mas ninguém (eu acho ou quero crer) fica indiferente a um ato de afeto (porque a frase mostrava que o senhor trabalhador queria contato, estava ludicamente tentando interagir com a criança). O menino não reagiu na hora, mas a frase, por sua força justamente afetiva marcou.

O filme é pleno de situações que mostram muitas ajudas entre humanos, hostilidade “dos” não humanos e a frieza de desumanos que se travestiam de “agentes do Estado”, terceirizados, claro (e como lembrou um “a margem” no meio da rua, os policiais que vieram recolher a vítima que emergia naquele cenário como um possível vândalo também seriam terceirizados assim que interessasse à casta cega).

Oliver Stone quando veio ao Brasil lançar seu mais recente filme “Snowden” foi categórico ao afirmar, diante de um provocativo repórter que lhe queria imprimir a pecha de “diretor de esquerda” (ser "de esquerda" tornou-se novamente um estigma ocidentalmente difundido) que “enquanto houver humanos haverá resistência”. Pois é. E ali os laços de vizinhança e de amizade construídos em meio a diferentes precariedades sobrevivem, se fortalecem, emocionam.

Trata-se de um belíssimo filme que aborda a ferocidade do neoliberalismo que não colabora com ninguém (inocentes úteis são os profissionais liberais e a classe média que acredita que isso é um sistema de mérito e que lhes favorece. Nem diretamente nem indiretamente há favorecimento porque a represa de ódio, ressentimento e misérias que se forma neste sistema arrebenta e afeta a todos sem exceção. A história recente é abundante em casos que comprovam este argumento). Sendo assim, a questão que enfrentamos não é propriamente se o presidente, governador ou prefeito é evangélico, é cristão. Há muitos modos de ser cristão!

O que importa são as bases sobre as quais se dão suas alianças, como são formulados e realizados seus projetos. Hoje são chamados de “petralhas”, de “esquerda corrupta”, de “cúmplices da vagabundagem” os que defendem um Estado de Bem Estar Social, os que se colocam contra o modus operandi neoliberal. É preciso termos responsabilidade com o outro em termos privados, certamente, mas também públicos.

O que mais vem me encantando são ações positivas. As filosofias que são apresentadas como orientadoras de condutas são interessantes, mas os hiatos entre reflexões e ações são às vezes grandes demais. Por isto, me interessam ações produtivas, positivas, humanistas, colaborativas, criativas. Nos créditos os agradecimentos aos funcionários dos serviços de auxilio aos trabalhadores inglês que forneceram preciosas informações. Só para lembrar aos que desacreditam na dureza do que está sendo expresso na telona que o filme tem base em cuidadosa pesquisa...

Sigo ainda digerindo “Eu, Daniel Blake”!

Nota do IHU

No próximo dia 04 de maio, o filme "Eu, Daniel Blake", será debatido e comentado, às 17h30min, na Sala Ignacio Ellacuría e Companheiros, no Instituto Humanitas Unisinos - IHU. Aguarde mais informações aqui na página do IHU.

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