Guerras e fome: a cegueira do Ocidente

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04 Abril 2017

“A fome no mundo não é nenhuma maldição bíblica, nem uma fatalidade que seja necessário suportar, porque o mundo dispõe de recursos suficientes para a enfrentar, caso consigamos (pressionando os governos, insistindo na exigência de justiça e solidariedade, combatendo o imperialismo) que a cegueira do Ocidente, diante dos desastres das guerras, deixe espaço para a maltratada, generosa e imprescindível fraternidade humana”, escreve Higinio Polo, doutor em História Contemporânea pela Universidade de Barcelona e colaborador habitual de meios de comunicação como a revista El Viejo Topo e o jornal Mundo Obrero, em artigo publicado por Rebelión, 03-04-2017. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

Em meados de março deste ano, o coordenador da ONU para Assuntos Humanitários, Stephen O’Brien, lançou a voz de alarma: no Iêmen, Somália, Sudão do Sul e Nigéria se corre o risco de que sejam deflagradas grandes fomes, acrescentadas à grave situação em que vive a população desses países. Não são os únicos, mas, sim, os mais graves. Não se pode esquecer que, apesar do processo de paz aberto em Astana, a feroz guerra imposta à Síria segue destruindo milhares de vidas e provocando dezenas de milhares de refugiados.

Nesses quatro Estados citados por O’Brien, vinte milhões de pessoas correm perigo. O servidor internacional visitou esses países, exceto a Nigéria, e informou o Conselho de Segurança da ONU a respeito da iminente catástrofe, além dos riscos associados a enfermidades e epidemias como a cólera que já causou mortes no Sudão e afetou pessoas na Somália, caso não sejam adotadas medidas imediatas. Na Somália, seis milhões de pessoas, mais da metade de sua população de dez milhões de habitantes, precisam de ajuda alimentar urgente. Também a FAO, o organismo da ONU para a alimentação e a agricultura, alertou sobre uma catástrofe iminente no Iêmen, caso não chegue ajuda internacional. Ilustra a gravidade do momento o fato que, segundo a FAO, nunca ocorreu uma situação de emergência tão grave em quatro países ao mesmo tempo. O’Brian, diante do Conselho de Segurança, qualificou a circunstância como “a pior crise humanitária desde a Segunda Guerra Mundial”, e insistiu em que para enviar a ajuda humanitária imprescindível, seria necessário conseguir, antes do verão, 4,4 bilhões de dólares. O’Brien expôs a necessidade de conseguir 1,5 bilhão de dólares para atender a crise no Lago Chade, e para o Sudão é necessário 1,6 bilhão.

O próprio secretário geral da ONU, António Guterres, visitou a Somália, em março, para avaliar os perigos. Guterres, que se reuniu com o novo presidente somali, Abdullahi Mohamed, fez eco da conjunção de riscos no chifre da África: “conflito, seca, mudança climática, enfermidade, cólera”. A crise é especialmente grave no sudoeste do país, onde, nas últimas semanas, morreram de fome mais de cem pessoas, ainda que os números sejam provisórios e, com toda probabilidade, muito mais somalis pereceram. A seca afeta também regiões da Etiópia e do Quênia. Os organismos humanitários da ONU buscam angariar 825 milhões de dólares para a emergência na Somália, para aliviar a situação durante os próximos meses, ainda que a dramática conjunção de guerras, pobreza e imperialismo não convidem ao otimismo, a curto prazo. Guterres afirmou que as crises nesses quatro países são evitáveis, porque surgem de conflitos que o mundo e a diplomacia podem resolver.

O norte da Nigéria vive o conflito bélico com o movimento jihadista Boko Haram, com frequentes assaltos terroristas a povoados, com sequestros e matanças, e sofre também risco de fome. Abriram-se numerosos campos de refugiados, precários e sem recursos, para milhares de deslocados pela guerra. No Sudão do Sul, algumas regiões foram declaradas oficialmente em estado de fome e a situação se deteriora com rapidez. Um milhão de pessoas está com fome, e quase seis milhões a mais suportam graves riscos imediatos. Nos três últimos anos, dois milhões de sudaneses se converteram em refugiados internos e um milhão e meio fugiram para os países vizinhos. O novo país tem uma população de apenas dez milhões de habitantes, de maneira que três quartos de seus cidadãos estão em perigo, e os combates entre o governo e os rebeldes agravam a situação. Além disso, a ajuda encontra obstáculos para chegar aos necessitados, por causa dos confrontos armados e da falta de organização nos países desarticulados pela guerra. Além disso, tanto na Nigéria como no Sudão são frequentes os ataques armados às equipes de ajuda humanitária.

No Iêmen, é onde as ameaças imediatas para os cidadãos são mais alarmantes: de um total de 25 milhões de habitantes, a alimentação deficiente já atinge 19 milhões de pessoas. Falta, inclusive, água em muitas cidades e regiões, e a guerra atinge, diretamente, mais de 80% da população. Os combates desarticularam por completo as estruturas do país e os mecanismos de cooperação e distribuição. Mais de dois milhões de crianças correm riscos, e em entre elas, 500.000 sofrem uma desnutrição grave que afetará o seu desenvolvimento futuro, causando sérios danos em seu organismo. A guerra no Iêmen, causa direta dessa situação, exige um embargo imediato de armas e a proibição por parte do Conselho de Segurança da ONU de que a Arábia continue bombardeando a população civil do país, que Riad realiza com tácito apoio do governo estadunidense, ontem com Obama, hoje com Trump. Já há dois anos, a coalizão dirigida pela Arábia bombardeia regularmente o Iêmen, sem que os Estados Unidos tenham demonstrado qualquer crítica a Riad. No complexo cenário estratégico do Oriente Médio, a Casa Branca prefere reforçar o poder de seu aliado saudita, frente ao Irã, antes que tentar colocar fim à guerra.

Enquanto isso ocorre, Trump e a extrema-direita, Estados Unidos e muitos governos europeus, além de muitos partidos conservadores, indiferentes frente ao sofrimento humano, exigem fechar as portas à imigração e aos refugiados. A receita que chega de Washington fala em destinar mais dinheiro ao exército e menos para a diplomacia, em aplicar um maior rigor contra os imigrantes pobres e oferecer mais facilidades às empresas, que se beneficiam de subvenções que poderiam ser dedicadas para amenizar o sofrimento humano. Trump quer reduzir a contribuição estadunidense ao Programa Mundial de Alimentos da ONU, além dos recursos dedicados ao Comissariado para os Refugiados e a UNICEF.

Os quatro países em risco, que foram citados pelos organismos humanitários, sofrem guerras de diferentes significados e intensidade, ainda que com evidente responsabilidade das potências ocidentais, sobretudo dos Estados Unidos. Ainda que esses administradores da ONU tenham levantado a voz de alarma, nada leva ao otimismo: o novo governo Trump aposta na redução do orçamento dedicado à diplomacia e à ajuda internacional, ao mesmo tempo em que defende o aumento dos recursos dedicados ao Pentágono, em um momento em que prosseguem as guerras no Oriente Médio e no norte da África, e novos focos de tensão aparecem no horizonte: o Mar da China meridional e a península da Coreia. Rex Tillerson, o novo secretário de Estado estadunidense, manifestou a respeito da Coreia do Norte que “todas as opções estão sobre a mesa”, e essas insensatas palavras ameaçam emergir outra guerra.

A fome no mundo não é nenhuma maldição bíblica, nem uma fatalidade que seja necessário suportar, porque o mundo dispõe de recursos suficientes para a enfrentar, caso consigamos (pressionando os governos, insistindo na exigência de justiça e solidariedade, combatendo o imperialismo) que a cegueira do Ocidente, diante dos desastres das guerras, deixe espaço para a maltratada, generosa e imprescindível fraternidade humana.

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