Não se deixem enganar pelas “redes sociais” e “reality shows”, falsas imagens da realidade

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22 Março 2017

A Igreja não é um “flashmob” e a vida não é um “reality show”. Os jovens não devem “resetar” o seu passado nem “arquivá-lo em uma nuvem” virtual, mas devem salvar a memória dos acontecimentos e das experiências vividas, inclusive as experiências negativas, para encarar com “coragem” o presente e com “esperança” o futuro.

A reportagem é de Salvatore Cernuzio, publicada por Vatican Insider, 21-03-2017. A tradução é de André Langer.

O Papa Francisco fala aos jovens e como um jovem na mensagem que enviou por ocasião da 32ª Jornada Mundial da Juventude, que se celebrará em nível diocesano no próximo Domingo de Ramos, no dia 09 de abril. Bergoglio começou recordando o “maravilhoso encontro” da JMJ de julho do ano passado em Cracóvia: “experimentamos com força a fraternidade e a alegria, e demos ao mundo um sinal de esperança; as diversas bandeiras e línguas não eram motivo para enfrentamentos e divisões, mas uma oportunidade para abrir as portas do nosso coração, para construir pontes”.

E depois refletiu sobre o tema do evento: “O Todo-poderoso fez em mim maravilhas” (Lc 1, 49), do Magnificat, para mostrar o exemplo de Maria, “muito jovem” e mulher corajosa de Nazaré, que “não se fecha em casa, não se deixa paralisar pelo medo ou pelo orgulho. Maria não é daquelas pessoas que, para estar bem, precisam de um bom sofá onde ficar cômodas e seguras. Não é uma jovem-sofá. Vendo que sua prima idosa precisa de uma mão, ela não perde tempo e põe-se imediatamente a caminho”, exclamou o Papa recordando a expressão que utilizou durante a vigília no Campo da Misericórdia.

Maria, disse, “nos acompanha no caminho para Panamá”, “e quis que este itinerário – explicou em uma videomensagem que acompanha o texto – se fizesse em sintonia com a preparação para o próximo Sínodo dos Bispos, que é dedicado a vocês, aos jovens”: “Os jovens, a fé e o discernimento vocacional”, durante o qual “nos interrogaremos sobre como vocês, os jovens, vivem a experiência de fé em meio aos desafios da nossa época. Também vamos abordar a questão de como se pode desenvolver um projeto de vida discernindo sua vocação, tomada no sentido amplo, isto é, o matrimônio, no âmbito laical e profissional, ou também a vida consagrada e sacerdotal. Desejo que haja uma grande sintonia entre o itinerário que levará à JMJ do Panamá e o caminho sinodal”.

Tudo isso com a certeza de que “quando Deus toca o coração de um jovem, de uma jovem, estes tornam-se capazes de ações verdadeiramente grandiosas. As ‘maravilhas’ que o Todo-poderoso fez na existência de Maria falam-nos também da viagem da nossa vida, que não é um vagar sem sentido, mas uma peregrinação que, mesmo com todas as suas incertezas e tribulações, encontra em Deus a sua plenitude”. Então, embora sejam fracos, limitados, pecadores, “como a jovem Maria”, os jovens “podem fazer com que sua vida se torne instrumento para melhorar o mundo. Jesus chama vocês para deixar a sua marca na vida, uma marca que determine a história, a sua história e a história de muitos”.

E, falando de história, Francisco convidou as novas gerações a olharem também para o passado. “Ser jovem não significa estar desconectado do passado”, explicou: “a nossa história pessoal insere-se em uma longa esteira, no caminho comunitário dos séculos que nos precederam”. E “a história da Igreja ensina-nos que, mesmo quando ela tem de atravessar mares agitados, a mão de Deus a guia, fá-la superar momentos difíceis. A verdadeira experiência de Igreja não é como um flashmob em que se marca um encontro, faz-se uma representação e depois cada um prossegue pelo seu caminho”, afirmou Bergoglio. Mais, a longa tradição, “que se transmite de geração em geração” e se “enriquece ao mesmo tempo com a experiência de cada indivíduo”: “Também a sua história encontra o seu lugar dentro da história da Igreja”, acrescentou o Papa aos jovens.

Portanto, “fazer memória do passado é útil também para acolher as intervenções inéditas que Deus quer realizar em nós e através de nós. E ajuda a abrir-nos para sermos escolhidos como seus instrumentos, colaboradores dos seus projetos salvíficos”. É verdade que “alguns jovens, feridos pelas circunstâncias da vida, gostariam de ‘resetar’ o seu passado, exercer o direito ao esquecimento”, admitiu o Papa. Mas não devemos esquecer que “não há santo sem passado, nem pecador sem futuro. A pérola nasce de uma ferida da ostra! Com o seu amor, Jesus pode curar os nossos corações, transformando as nossas feridas em verdadeiras pérolas”.

Então, as recordações não devem “ficar todas comprimidas, como na memória de um disco rígido. Nem é possível arquivar tudo em uma ‘nuvem’ virtual. Temos que aprender a fazer com que os fatos do passado se tornem realidade dinâmica, refletindo sobre ela e dela tirando lições e sentido para o nosso presente e o nosso futuro. Tarefa difícil, mas necessária – admitiu o Papa –, é descobrir o fio condutor do amor de Deus que une toda a nossa existência”.

“Muitos dizem que vocês, jovens, são sem memória e superficiais. Não concordo de maneira alguma!”, acrescentou o Papa, embora tenha reconhecido que “em nosso tempo temos que recuperar a capacidade de refletir sobre a própria vida e projetá-la para o futuro”. “Ter um passado não é o mesmo que ter uma história. Na nossa vida, podemos ter tantas recordações, mas delas… quantas constroem verdadeiramente a nossa memória? Quantas são significativas para os nossos corações e ajudam a dar um sentido à nossa existência? Os rostos dos jovens, nas ‘redes sociais’, aparecem em muitas fotografias que contam acontecimentos mais ou menos reais, mas de tudo isso não sabemos quanto seja ‘história’, experiência que possa ser narrada, dotada de uma finalidade e de um sentido”.

O Papa chamou a atenção para as falsas projeções da vida, como programas de TV cheios dos chamados “reality shows”: “não são histórias reais; são apenas minutos que transcorrem diante de uma tela, nos quais os personagens passam o dia, sem um projeto. Não se deixem transviar por esta falsa imagem da realidade! Sejam protagonistas da sua história, decidam o seu futuro!”

E ofereceu-lhes algumas indicações práticas: “No fim de cada dia, podemos deter-nos alguns minutos para lembrar os momentos belos, os desafios, o que foi bom e o que não foi bom. Assim, diante de Deus e de nós mesmos, podemos manifestar os sentimentos de gratidão, arrependimento e entrega, até mesmo – se quiserem – anotando-os em um caderno, uma espécie de diário espiritual”. Isto, explicou o Pontífice, “quer dizer rezar na vida, com a vida e sobre a vida e, com toda segurança, lhes ajudará a compreender melhor as grandes obras que o Senhor realiza em cada um de vocês. Como dizia Santo Agostinho, podemos encontrar Deus nos vastos campos da nossa memória”.

O Papa encorajou os jovens para “não fixar-nos apenas nos problemas e nas dificuldades”. Pelo contrário, indicou, deveriam converter suas vidas em “um dom para toda a humanidade”. E isto só é possível, destacou, graças ao encontro entre os jovens e os idosos, uma “extraordinária fonte de riqueza”. “Que importância vocês dão aos seus idosos, aos seus avós?”, perguntou Francisco. “Vocês, justamente, aspiram a ‘levantar voo’, levam em seu coração muitos sonhos, mas têm necessidade da sabedoria e da visão dos anciãos. Enquanto abrem suas asas ao vento, é indispensável que descubram suas raízes e que tomem o testemunho das pessoas que precederam vocês”.

“É verdade que vocês têm poucos anos de vida e, por isso mesmo, podem sentir dificuldades para dar o devido valor à tradição. Tenham bem presente que isto não significa ser tradicionalista. Não. Quando Maria diz, no Evangelho, ‘o Todo-poderoso fez em mim maravilhas’, ela entende que aquelas ‘maravilhas’ não acabaram, mas continuam a realizar-se no presente. Não se trata de um passado remoto. Saber fazer memória do passado não significa ser nostálgico ou ficar preso a um determinado período da história, mas saber reconhecer as próprias origens, para voltar sempre ao essencial e lançar-se com fidelidade criativa na construção de tempos novos”.

De fato, seria um problema, disse Bergoglio, e não faria bem a ninguém, “cultivar uma memória paralisante, que levasse a fazer sempre as mesmas coisas da mesma maneira”. Por outro lado, “uma sociedade que valoriza apenas o presente, tende também a desvalorizar tudo aquilo que se herda do passado, como, por exemplo, as instituições do matrimônio, da vida consagrada, da missão sacerdotal. Estas acabam por ser vistas como sem sentido, como formas ultrapassadas. Pensa-se viver melhor em situações chamadas ‘abertas’, comportando-se na vida como em um reality show, sem propósito e sem rumo”.

“Não se deixem enganar”, recomendou o Papa. “Deus veio ampliar os horizontes da nossa vida, em todas as direções. Ele nos ajuda a dar o devido valor ao passado, para melhor projetar um futuro de felicidade. Mas isto somente é possível quando vivemos experiências autênticas de amor, que se concretizam na descoberta da vocação do Senhor e na adesão a ela”. Esta é, concluiu Francisco, “a única coisa que nos torna verdadeiramente felizes”.

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