Lutero, a mística e o núcleo do Evangelho. Artigo de Marco Vannini

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16 Março 2017

“Como já observava Maritain, Lutero fundou o individualismo, doença mortal da nossa sociedade, e, banindo a filosofia, abriu o caminho para aquele psicologismo que hoje transborda.”

A opinião é de Marco Vannini, um dos maiores estudiosos italianos de mística especulativa. Além de ter editado Mestre Eckhart e muitos outros místicos, é autor, em português, de Introdução à mística (Edições Loyola, 2005).

O artigo foi publicado no jornal L’Osservatore Romano, 15-03-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

No artigo de Sergio Massironi no L’Osservatore Romano do dia 10 de março, a propósito do meu livro Contro Lutero e il falso evangelo [Contra Lutero e o falso evangelho] (Florença: Lorenzo de’ Medici Press, 2017, 176 páginas), a tese central da obra, que nasce de uma frequentação de meio século com a mística – especialmente alemã, antes e depois de Lutero (além de com o próprio Lutero) – não foi bem evidenciada.

A tese é esta: o reformador, primeiro, compreendeu o Evangelho, mas, depois, distorceu-o completamente. Lutero mesmo, de fato, diz-nos que foram João Tauler, discípulo do Mestre Eckhart, e o Anônimo Frankfurtiano, autor do “Livreto da vida perfeita”, que ele mesmo imprimiu com o título, inventado por ele, de “Theologia deutsch” – ou a mística medieval alemã –, que o fizeram compreender o núcleo do Evangelho.

Tal núcleo é o fim do amor de si mesmo, o desapego da egoidade, sempre apropriativa, sempre egoísta (“Quem quer ser meu discípulo, renuncie a si mesmo”), porque assim e só assim tem-se a abertura à graça, à luz divina, a geração do Logos, do Cristo na alma, com toda a bem-aventurança que daí se segue.

Porém, como já tinha acontecido antes e como também acontecerá em seguida, em Lutero, tendo-se tornado o reformador, essa experiência torna-se motivo de orgulho, de exaltação da egoidade, que renasce elevada, por assim dizer, a potência.

Assim, da humilitas do homem pobre em espírito das bem-aventuranças, que para a mística alemã “nada é, nada quer, nada sabe”, passa-se à egoidade hipertrófica, que quer ser, afirmar-se, permanecer e, por isso, deve necessariamente se apoiar em um conteúdo, em um saber possuído.

Lutero fundamenta esse saber na Escritura, de acordo com aquilo que é necessário para a própria construção teológica, ou para o próprio eu psicológico, e, por isso mesmo, posta em antítese à razão universal, à filosofia, que é rejeitada por ele e rotulada com palavras de fogo (a “puta do diabo” e assim por diante).

Enquanto Eckhart não temia escrever que os filósofos antigos, os “mestres pagãos”, conheceram a verdade antes da fé cristã, para Lutero todos aqueles que não seguem o “seu Evangelho” (seu, de fato), são malvados, estão condenados: de Aristóteles a Tomás de Aquino, de Erasmo de Rotterdam a Thomas Müntzer e outros: todos os pagãos, todos os judeus e assim por diante.

Não é de se admirar que, depois de Lutero, até mesmo protestantes como Denck, Franck, Weigel, Kierkegaard – e, em primeiro lugar, o próprio mestre do reformador, o doutor Staupitz, que não por acaso permaneceu católico – compreenderam que isso era uma distorção do Evangelho.

E aqui a questão vai além de Lutero e nos diz respeito plenamente. No verdadeiro Evangelho, não há um Deus ciumento, que escolher este ou aquele, quer sejam povos ou pessoas, que fala uma vez “sim” e uma vez “não”; não há um Deus que “manda o bem e o mal”, como o bíblico, mas um Deus luz eterna, que resplandece como o sol sobre os justos e sobre os injustos, e do qual vem apenas o bem, porque ele é o Bem, como o Deus de Platão.

O verdadeiro Evangelho é realmente o alegre anúncio de que Deus, a luz eterna, está presente, sempre e de todos os modos: a tudo e a todos ilumina, comunica-se a qualquer pessoa que dirija a alma inteira em direção à luz, faça o vazio de si mesma, como a filosofia antiga já tinha compreendido: basta pensar no plotiniano “desapegados de tudo”.

Por isso, Simone Weil podia dizer que o Evangelho é a expressão última do amor pela verdade, da honestidade, do mundo grego. No mundo cristão, a mensagem evangélica foi mantida pela mística, única verdadeira continuação da filosofia clássica, fundamentada sobre o desapego (vejam-se os estudos de Pierre Hadot).

O falso Evangelho, no entanto, é feito de conteúdos sociais, políticos, religiosos, determinados em um tempo e um lugar; constituído como uma teologia, que fala da origem do universo, dos desígnios divinos, do sentido da história, um pouco de tudo. Essa mistura, que também é, como tal, uma exclusão, perde a universalidade e torna a mensagem não mais “boa notícia”, mas um mero suporte da egoidade particular, variável à vontade – portanto, o oposto do Evangelho verdadeiro.

De fato, como já observava Maritain, Lutero fundou o individualismo, doença mortal da nossa sociedade, e, banindo a filosofia, abriu o caminho para aquele psicologismo que hoje transborda.

Mas uma religião do sentimento, sem racionalidade, portanto sem espírito, acaba necessariamente no primado dos sentidos e ali evapora, desaparece, como já aconteceu no mundo protestante (na Suécia, agora apenas 2% da população são cristãos), e, ao contrário, volta-se contra Cristo e o Evangelho.

Essa, em extrema síntese, é a tese central do livro, em muitos aspectos “inatual”, no sentido nietzschiano do termo, mas – talvez – não “inatual” religiosamente.

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