Francisco e a escolha de conceder uma entrevista ao Die Zeit

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16 Março 2017

Enquanto as republicações na imprensa se acumulam umas sobre as outras, de maneira um pouco estereotipada, na verdade, seria possível tentar mudar o ângulo de leitura. Não tanto sobre o “quê” Francisco disse na sua primeira entrevista concedida a um jornal alemão, mas sim sobre o “significado” de escolher o Die Zeit como lugar de interlocução com a Alemanha.

A reportagem é de Marcello Neri, publicada no sítio Settimana News, 13-03-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Muito provavelmente, é aí onde poderemos encontrar as características de maior interesse e também de novidade daquilo que foi coletado pelo semanário alemão no seu encontro com Francisco. Porque o simples fato de ter consentido com uma entrevista justamente com o Die Zeit coloca com precisão a intenção de Francisco, muito além daquilo que as suas palavras que podemos ler podem fazer.

Em primeiro lugar, ele desvincula a sua abordagem à Alemanha e, consequentemente, à possibilidade de uma Europa vindoura do estreitamento de inclinações políticas tradicionais, que, embora atualmente governem juntas o país, encontram-se cada vez mais em dificuldade para ler a sua história e compreender as suas dinâmicas.

Nem a conservação baseada em critérios puramente econômico-financeiros (Frankfurter Allgemeine Zeitung), nem um liberalismo progressista incapaz de reescrever em chave pós-moderna seus próprios ideais sociais (Süddeutsche Zeitung) parecem ser os parceiros ideais para um diálogo sobre as políticas eclesiais e mundanas.

No fim das contas, esses dois jornais são o espelho de uma elite política incapaz de olhar para a Alemanha e para a sua tarefa específica no coração da Europa com os olhos do outro, do exterior, daquele que, de algum modo, está fora do recinto seguro do berço em que a Alemanha, com as suas escolhas políticas, aninhou-se na última década.

É difícil de perceber o sentir dos homens e das mulheres que realmente vivem a partir da torre de marfim de Frankfurt. É praticamente impossível lançar um olhar concreto sobre a vastidão de um mundo complexo a partir da enclave bávara.

Francisco intui que precisa de uma Alemanha de maior fôlego, capaz, acima de tudo, de olhar criticamente para si mesma e para o modo aquiescente de se imaginar no futuro próximo. Uma Alemanha não meramente encurvada sobre si mesma, sobre o seu suposto bem-estar e sobre um virtuosismo que se alimenta mais de medos do passado do que de visões para os dias vindouros de todos (e não só para os próprios).

Características, estas, que o Die Zeit tentou desenvolver nos últimos anos – por meio de uma retomada criativa da sua própria história no panorama da informação e da vida sociopolítica da Alemanha. Resistindo à tentação de reduzir o que acontece nesta nossa época a crônica fátua que devora a si mesma e imaginando a contribuição política de um jornal semanal em uma análise aprofundada dos fenômenos que não tem medo de fazer perguntas inquietas e não dadas por descontado.

Margem ideal para o imaginário de Francisco, que soube captá-la ultrapassando as expectativas mais óbvias, para mostrar a sua atenção à Alemanha. Pátria da Reforma, Francisco não busca nela uma ocasião de celebração, mas o aguilhão a ser imaginado de outra maneira.

Falando com o Die Zeit sobre si mesmo, sobre as vicissitudes da Igreja Católica, sobre o ressurgimento de populismos que abalam o continente europeu e os países mais avançados do mundo, Francisco, em primeiro lugar, diz algo à Alemanha e à tarefa que lhe compete, mas que ela continua fazendo deslizar para o fim da pilha de agendas das suas próprias políticas.

Essa entrevista também dissolve definitivamente um mito que circulou artisticamente em torno da pessoa do Papa Francisco e das suas propensões. Ela mostra, de fato, a sua consciência da necessidade social, poderíamos dizer até popular, das elites no momento presente (o que mais poderia ser um semanário como o Die Zeit?). E, ao mesmo tempo, denuncia o atraso e a loucura das elites europeias que se estabeleceram através de uma simbiose duvidosa com o jogo político dos vários partidos – até se esquecerem da sua tarefa civil: a de medir o pulso da vida cotidiana para guiá-la rumo a um humanismo cada vez mais refinado, por um lado, e a de representar o aguilhão na carne da política que a todos nos governa, por outro.

As elites que Francisco está à procura são um corpo inquieto capaz de sacudir o dado reforçado das coisas ao qual tudo e todos devem ser sacrificados e de imaginar alternativas reais ao império das potências mundanas ao qual o humano está entregue sem proteção nem cuidado algum. Não se favorece essa visão sem a cultura alta, digna desse nome. Certamente, os tempos são exíguos, e muitas vezes cabe trabalhar pela máxima aproximação possível – o Die Zeit representa um interlocutor que tem, nas suas cordas, a possibilidade de honrar essa busca de Francisco.

Além disso, o papa falou sobre questões específicas, seguindo as sugestões do seu interlocutor. Estas podem ser encontradas nas páginas de todos os jornais italianos.

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