Outra vez o Papa e Müller

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14 Março 2017

Francisco, “ao aceitar que Müller vá pelo mundo concedendo entrevistas, a partir das quais pretende colocar limites ao seu ensinamento, só permite que o próprio Prefeito se desacredite, perca o respeito da maioria, e assim se “desmistifique” sua função. Acaba sendo adulado apenas por um grupo reduzido de conservadores ressentidos. Esta desmistificação abre o caminho para que a tarefa da Doutrina da Fé recupere seu lugar de serviço humilde ao Vigário de Cristo, a fim de animar o desenvolvimento do pensamento teológico na Igreja”, escreve Maite Gibaud, em artigo publicado por Religión Digital, 11-03-2017. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

Está sendo produzida uma estranha apostasia nos setores mais conservadores da Igreja, que acaba anulando tudo o que nos ensinaram no Catecismo a respeito do significado do Papa para a Igreja Católica.

Francisco admitiu que em sua própria Diocese de Roma, por indicações precisas de seu Vigário, existe a possibilidade de que alguns divorciados em segunda união – feito o devido discernimento pessoal e pastoral – possam comungar, mesmo quando não consigam viver plenamente a castidade por diversas circunstâncias sérias que limitam sua capacidade de decisão.

Por outra parte, recebeu as orientações dadas pelos Bispos da Região Buenos Aires, que também admitem esta possibilidade, e não só lhes agradeceu por esse trabalho com uma breve mensagem, como lhes enviou uma nota formal, portando o escudo papal, na qual, além do mais, disse que essa é a “única interpretação possível” do capítulo 8 da Amoris Laetitia.

Fica claro que não se trata de contradizer a moral objetiva, nem de negar que o intrinsecamente mau é sempre mau a partir do ponto de vista objetivo. Contudo, mesmo um ato intrinsecamente mau pode não ser plenamente culpável em razão dos condicionamentos que limitam a capacidade de decisão.

Francisco pensa que uma mulher com filhos pequenos, que precisa do apoio de seu parceiro, pode não estar em condições reais de modificar essa situação em determinado momento. Ainda que um ato sexual, nessa situação, seja considerado intrinsecamente mau por seu objeto, os limites concretos podem fazer com que essa mulher tenha uma culpabilidade atenuada e que, portanto, esteja na graça de Deus.

Já que a Eucaristia é um sacramento de vivos, pode então receber o sacramento que lhe ajuda a sustentar sua vida na graça. Os sacramentos não existem para emitir juízos sobre a moralidade objetiva, existem para sustentar e acrescentar a vida da graça. A pessoa, junto com seu pastor, pode realizar um discernimento nesta linha sem que isso signifique ostentar sua situação como se fosse objetivamente correta.

Não bastam a decisão do Vicariato de Roma e a carta dos Bispos de Buenos Aires para conhecer com toda clareza o sentido correto do capítulo 8? Ou já não interessa o sentido exato que seu próprio autor, o Vigário de Cristo, quis dar a esse texto?

Parece que para o cardeal Müller não interessa o que pensa o Papa, nem tampouco importa que o tenha expressado em uma carta onde diz qual é a interpretação “única”. No entanto, se o próprio cardeal Müller escreve uma nota com o carimbo de sua Congregação, que ninguém se atreva a discutir o que ele diz! A quem ousar fazer isto, certamente, chegarão as devidas advertências e pedidos de esclarecimento. Uma nota de uma Congregação vale mais que uma nota do Santo Padre?

Agora Müller, em recentes entrevistas, parece querer proibir que os Bispos opinem sobre os documentos, ignorando que o próprio Papa tenha referendado algumas dessas opiniões com sua própria assinatura. Acredita que Francisco é uma pintura, que é uma pequena flor que decora a estrutura de sua Congregação? Por um lado, diz que não há contradição entre Amoris Laetitia e a doutrina da Igreja, mas sempre que a exortação de Francisco seja interpretada de maneira restritiva. No Catecismo, ensinaram-nos que a Revelação só está contida nas Sagradas Escrituras e na Tradição, mas que há um carisma único na Igreja a serviço da interpretação correta dessa Palavra divina: o carisma dado a Pedro para atar e desatar e para confirmar seus irmãos na fé.

Contra isto, como bem demonstrou Elske Rasmussen, agora alguns opinam que o Papa não pode interpretar nem sequer os documentos que ele escreveu. Parece que este é o caso de Müller, que é quem decide o que se pode dizer e o que não se pode dizer, porque ele, sim, conhece a reta doutrina. Isto não escandaliza os simples? Por certo, mas, além disso, está levantando uma questão grave que os especialistas em Teologia Fundamental deveriam responder.

Sem ser Prefeitos, alguns sacerdotes e leigos que escrevem em blogs conservadores parecem se sentir os autênticos intérpretes da Revelação divina. Seria necessário ouvi-los para evitar cair nos “extravios” do Santo Padre? Na prática, isto não é um cisma estimulado por alguns falsos líderes que acreditam saber não só qual é a autêntica Revelação, como também qual é a única razão possível?

Em muitas partes, esta pergunta está ecoando: Por que Francisco suporta as insolências de seu próprio Prefeito, que no momento de opinar ignora coisas que o próprio Papa decide e escreve? Imagino uma só resposta possível.

Porque Francisco entende que tanto a Cúria romana como o Prefeito da Doutrina da Fé haviam dado a si mesmos tantas atribuições que acabavam ocupando o lugar de Deus. Já antes de ser Papa, Bergoglio lamentava essa “inflação” das funções dos curiais que, por meio de suas redes universais, pretendiam ter o controle de toda a Igreja, até em seus mais distantes rincões. Vários que conhecem seu pensamento afirmam que ele sempre acreditou que era necessário “desmistificar” tudo isso para que o próprio Papado não acabasse sendo relativizado.

Pois bem, ao aceitar que Müller vá pelo mundo concedendo entrevistas, a partir das quais pretende colocar limites ao seu ensinamento, só permite que o próprio Prefeito se desacredite, perca o respeito da maioria, e assim se “desmistifique” sua função. Acaba sendo adulado apenas por um grupo reduzido de conservadores ressentidos. Esta desmistificação abre o caminho para que a tarefa da Doutrina da Fé recupere seu lugar de serviço humilde ao Vigário de Cristo, a fim de animar o desenvolvimento do pensamento teológico na Igreja.

Francisco aguenta, perdoa, não perde a calma, espera. Não gosta dos ataques diretos, e “o tempo que é superior ao espaço” acaba lhe dando a razão.

Só espero, como simples mulher crente que pôde estudar algo de Teologia e ensinar seus filhos a rezar, que a maioria dos Bispos advirta a insensatez de alguns colegas seus (Burke, Schneider, etc.) que, na realidade, estão tentando construir sua própria Igreja. Não gostam da que é construída em torno de Cristo e seu Evangelho, sobre essa simples pedra que é Pedro. Eu, a partir da simples piedade crente que meus pais estimularam, prefiro confiar no sucessor de Pedro, que confirma minha fé e meu amor ao único Senhor, Jesus Cristo.

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