Silêncio. E se a fé foi baseada num mal entendido?

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10 Março 2017

O que acreditar? Essa é a pergunta que se faz o apóstata Ferreira em Silêncio. Para ele os pobres cristãos japoneses não deviam ter sido torturados pela sua fé: ele não acreditava em Deus!

A reportagem é de Xavier Accart, publicada por La Vie, 02-02-2017. A tradução é de Juan Luis Hermida.

Sebastião Rodrigues, jovem sacerdote jesuíta, se envolveu numa aventura louca que apenas o absoluto pode animar: viajar, sem contato no local, para um país hostil e totalmente estrangeiro. Tudo isso para reencontrar o padre Ferreira, o mestre que fundou seu entendimento da fé e da qual ele não pode crer que ele tenha renunciado. Ele está pronto para o martírio. Mas o seu grande teste não será lá mais no seu diálogo com o Ferreira. Isso põe a prova à fé dos cristãos japoneses, aqueles mesmos que ele vê morrer sob terríveis torturas. Segundo ele, seu sacrifício repousa sobre um mal-entendido: o que eles ouviram por trás da palavra “Deus” que não tem nada a ver com o conceito do Deus transcendente da Igreja. O espectador cristão pode como o Rodrigues, sentir a terra abrir-se sobre os seus pés. Se ele faz parte dos 57% dos praticantes que acreditam na Ressurreição (veja A Cruz 2009), será que eles se formulam realmente uma ideia justa desta realidade? Será que não estão mais próximos da fé professada pelo Mr. Bean num esboço antológico sobre o credo visto de acordo com o espírito dos tempos? “Eu creio na ressurreição um tipo de reencarnação”. Quanto a Deus mesmo não lhe imagina como um superindivíduo, em vez de uma Trindade de pessoas que partilham de uma única substancia? Se alguém segue o Ferreira, a maior parte dos cristãos se extravia pensando em compartilhar a fé da Igreja.

O essencial é o compromisso

“Eu tenderia a dizer que nós não acreditamos em algo, que estamos a procura de encontrar alguém”, opôs o padre Ètienne Michelin, professor de teologia no Studium Notre-Dame de la Vie e especialista nas questões de fé. “As formulações dogmáticas são uma expressão da mensagem evangélica e uma ajuda para aprofundá-lo para o que é, a saber, um espaço que coloca ao homem na presença de Deus e dele mesmo”. Nisso eles são insubstituíveis. Mas “Há pessoas que divinizam os conceitos tal como o homem primitivo divinizava o fogo”. Ou, o que é essencial, é: “o compromisso da pessoa que excede a formulação”.

Melhor definir o ato de acreditar

“Ao invés de definir a fé, eu prefiro descrever o ato de acreditar, que é, segundo Ratzinger “ter uma ajudar para entrar”, continua o padre Michelin. Isto significa reconhecer o ponto de suporte (que é diferente de compreendê-lo) e a partir dele precipitar-se em direção a um objeto, uma pessoa, o real”. Não entanto, habitualmente ele é reconhecido não porque ouvimos uma declaração dogmática, mais porque vemos os outros ter um apoio e que se encontram bem. O ato de acreditar se comunica primeiramente por essa experiência comunitária de ajuda mútua. “Tomamos apoio na exposição de fé da Igreja para entrar na vida da qual ela nos fala. E se queremos progredir, temos todo o interesse de aprofundar nesta base”. Sem confundir suas formulações com a coisa. “Jesus não veio com o catecismo da Igreja Católica, mas com uma multiplicidade de parábolas, frequentemente paradoxais”.

***

O traidor, este herói Cristão

Por Marie-Lucile Kubacki

Quando os dois missionários Rodrigues e Garupe desembarcam em Macau, o único japonês no lugar é o Kichijiro. O homem está completamente bêbado, nojento e enrolado num canto como um animal enjaulado. Indigno, Kichijiro parece haver abdicado de sua humanidade. Incansavelmente, ele abjura, renega se atira na arte da traição até denunciar o Rodrigues às autoridades japonesas em troca de algumas moedas. A referência a Judas é explícita. Mas ao contrario de Judas, Kichijiro não se suicida: em prantos, não para de pedir perdão, de implorar para poder se confessar. O padre que tenta sacudi-lo, chora: se tivesse nascido em outro lugar, ou numa outra época, não teria eu sido um bom cristão? Kichijiro é um pobre rapaz que continua caindo e não entanto, não desencoraja jamais de se levantar. Mas, ele caiu tão baixo que somente Deus pode salvá-lo. A contraluz, ele ilumina o mistério da misericórdia. Ele é a trágica e perturbadora resposta ao discurso de Jesus: “Não vim para chamar os justos, mas os pecadores”.  Aqui, ele é dolorosamente exacerbado e paradoxal, um herói cristão.

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