O cristianismo está envolvido com a inteligência artificial, mas do jeito certo

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04 Março 2017

"Se lermos com cuidado o que diz o Papa Francisco, descobriremos que ele aborda os problemas da limitada IA de hoje e que estão causando danos às pessoas neste exato momento ao invés de abordar possibilidades especulativas futuras", salienta Paul Scherz,  professor de moral e ética na Universidade Católica da América, doutor em genética pela Universidade de Harvard e em teologia moral pela Universidade de Notre Dame, em artigo publicado por Crux, 27-02-2017. A tradução é de Isaque Gomes Correa.


Eis o artigo.

Um artigo recentemente publicado na revista Atlantic acusa os teólogos cristãos de não estarem se envolvendo adequadamente com as questões postas pela inteligência artificial. Na verdade, muitos teólogos e até mesmo o Papa Francisco estão levando em conta essa problemática real.

Em recente artigo publicado na revista Atlantic, Jonathan Merritt lamenta-se que os teólogos e lideranças cristãs, incluindo o Papa Francisco, não têm abordado aquilo que, afirma ele, será o maior desafio que o cristianismo alguma vez enfrentou: a inteligência artificial, ou “AI”.

Na opinião do colunista, máquinas inteligentes ameaçam subverter muitas das crenças tradicionais cristãs, porque muitos teólogos estão “presos a antigos temas”.

Uma crítica assim seria devastadora se verdadeira. Mas será mesmo?

Uma leitura mais completa da obra do Papa Francisco sugere que ele, na verdade, está se envolvendo com a inteligência artificial que mais diretamente afeta a Igreja e a sociedade contemporâneas. Porém, antes de eu entrar nesse assunto, é necessário ver mais de perto o que diz Merritt. De fato, a maior parte dos teólogos não está abordando os aspectos específicos da inteligência artificial que ele considera essenciais, mas essa é uma escolha sensata da parte deles.

Primeiro, importa notar que “ficar preso a antigos temas”, ou aquilo que os católicos chamam de o desenvolvimento da Tradição, dá inúmeros insights para dentro deste tema. Por exemplo, Merritt afirma que “em sua maioria, os cristãos entendem a alma como um elemento singularmente humano, um componente interno e eterno que anima o nosso lado espiritual”.

Esta caracterização não é precisa.

Partindo da herança da filosofia grega, a maioria dos teólogos compreende que a alma é aquilo que faz uma coisa viva específica ser aquilo que é. É o princípio do crescimento e desenvolvimento de todas as coisas vivas, de todos os movimentos e sensação animais, e da racionalidade nos seres humanos.

Portanto, os animais têm alma, as plantas têm alma, e uma inteligência artificial que pode pensar e manipular o mundo ao redor de si teria de ter algo como uma alma.

A seguir, Merritt faz referência à imagem de Deus que cada pessoa possui em sua alma. Novamente, no entanto, importantes figuras da tradição, como Tomás de Aquino, não consideram a imagem de Deus como restrita aos humanos.

Para ele (alguns outros teólogos têm interpretações bem diferentes), nós imaginamos Deus principalmente em nosso potencial de razão e livre arbítrio, portanto todo ser com razão e livre arbítrio possuiria aquela imagem, incluindo os anjos, para Aquino, e os alienígenas racionais, para Francisco; e até mesmo a inteligência artificial, se existir.

Claro, esse motivo não é mera razão instrumental, mas uma razão que compreenda finalidades, significado e a lei moral.

Ainda assim, com base no argumento de Merritt, poderíamos nos perguntar: Como tais faculdades espirituais podem surgir a partir de circuitos de silício (nanotubos, ou qualquer outro material)? Embora um problema, ele não é mais difícil, nem muito diferente, do que a questão de como o espiritual surge da carne, questão sobre a qual pensadores se debatem ao longo da tradição ocidental.

Os teólogos se debatem sobre este problema no desenvolvimento humano ordinário – como e quando a vida nova ganha uma alma é uma questão teológica central, por motivos práticos óbvios. A resposta predominante na tradição católica é que, no processo de procriação em que cooperam pais humanos, Deus cria uma alma espiritual individual para cada corpo humano. Algo parecido como este marco poderia ser empregado para se pensar sobre a IA.

É verdade que alguns temas são mais difíceis, como a maneira que a IA poderia se redimir.

O cristianismo defende o cuidado especial de Deus pela humanidade, com a segunda pessoa da Trindade assumindo uma natureza humana na Encarnação. Essa doutrina levanta dúvidas sobre a relação de Cristo com uma possível inteligência artificial, mas dúvidas não fundamentalmente diferentes das dúvidas sobre como Cristo redime todos da criação não humana, questões que se tornam mais e mais prementes dada a devastação ambiental.

Vistos estes recursos, por que não temos mais teólogos abordando diretamente o tema da IA?

Primeiro, eu apostaria que a maioria dos teólogos é menos otimista do que aqueles citados por Merritt sobre a possibilidade real de uma verdadeira IA. Além dos 60 anos de promessas não realizadas de que a IA está prestes a se tornar realidade, os teóricos da área não vêm abordando questões filosóficas sobre se os programas, de fato, podem ter consciência e entender significados.

No argumento do quarto chinês, John Searle aponta que, embora os programas computacionais manipulem símbolos (sintaxe), permitindo-lhes imitar comportamentos, eles não podem, na verdade, captar o significado (semântica) das coisas que manipulam, o que seria necessário para a consciência.

Uma segunda fonte de ceticismo diante da inteligência artificial é que, junto com muitos pensadores não cristãos contemporâneos, os teólogos reconhecem que criar uma IA é uma ideia extremamente má. Se uma máquina tem a livre escolha necessária para a verdadeira inteligência artificial, então ela tem a possibilidade de pecado, o que conduz a grandes riscos, tal como a extinção humana.

Essa preocupação sobre os riscos levanta o problema final na análise de Merritt: se lermos com cuidado o que diz o Papa Francisco, descobriremos que ele aborda os problemas da limitada IA de hoje e que estão causando danos às pessoas neste exato momento ao invés de abordar possibilidades especulativas futuras.

Laudato Si’, encíclica de Francisco recentemente publicada, fala tanto da tecnologia na ecologia humana quanto do meio ambiente natural.

O papa aborda a poluição e o isolamento mental, refletindo inquietações de outros discursos papais sobre as pessoas que apenas recebem informações que confirmam as próprias opiniões, problema que surge em parte devido a algoritmos artificialmente inteligentes que refletem, a nós próprios, as nossas opiniões em mecanismos de pesquisa e em feeds de notícias – um solipsismo cujos efeitos políticos foram registrados magistralmente no documentário “HyperNormalisation” de Adam Curtis’.

Num segundo e ainda mais importante exemplo, ele, o papa, lamenta “um tipo de progresso tecnológico cuja finalidade é reduzir os custos de produção com base na diminuição dos postos de trabalho, que são substituídos por máquinas”. Aqui não se trata apenas da automação que impacta os empregos do setor metalúrgico, mas neste mesmo momento muitos empregos em nível administrativo estão desaparecendo em decorrência das aplicações da inteligência artificial.

O Papa Francisco demonstra que lidar com os problemas especulativos de Merritt pode nos desviar dos desafios mais prementes, como os trabalhadores do conhecimento na casa dos 40 anos cujos cargos se tornaram redundantes devido à IA e que, desse jeito, não terão condições de quitar suas hipotecas enquanto se reciclam.

Problemas como estes podem não ser tão acalorados para ser motivo de uma palestra no TED Talk, como o é especular sobre a vida de oração de uma IA. Porém são desafios da tecnologia que uma igreja, cujos membros serão julgados pelo cuidado que tiveram pelos mais fracos, deveria estar abordando.

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