Fé, crise e vida da Igreja. Entrevista com Thomas Frings, pároco que se tornou monge

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02 Março 2017

Para muitas pessoas, a fé é apenas um bem de consumo, diz o padre Thomas Frings. Como os jovens podem levar a fé a sério se os adultos não vão mais à igreja?

A reportagem é de Raoul Löbbert e Christina Rietz, publicada no caderno Christ & Welt, do jornal Die Zeit, 17-02-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

O senhor renunciou ao cargo de pároco e foi para o convento. A situação da Igreja lhe dá nojo, o senhor diz. Por quê?

Nojo é uma palavra forte demais. Correria o risco de me tornar cínico.

Isso não acontece, talvez, em muitas profissões?

Para um escritor fracassado que se torna crítico literário, o cinismo pode se enquadrar na sua imagem profissional. Mas ser cínico para um pastor significa justamente estar na profissão errada.

Mas qual era o problema?

Você sabe como é frustrante pertencer a uma organização que, desde que você pertence a ela, continua estando em declínio? Por toda a parte, faz-se economia, cancela-se, fazem-se fusões. Muito raramente nasce algo novo. Mas, por muito tempo, defende-se o existente. E as grandes paróquias que nascem ainda são “vendidas” às pessoas como uma oportunidade. Como pároco, eu tinha a sensação de que estávamos indo apenas para trás. Embora isso talvez não seja o pior coisa.

E o que seria?

O pior é a inutilidade. É preciso saber que, das 500 ou 800 pessoas presentes na missa de primeira comunhão, 95% não são mais vistas aos domingos. A natureza problemática de um casamento, em que o casal e o conjunto das pessoas presentes se deparam, de algum modo, com uma cerimônia desconhecida. A incoerência dos pais que deixaram a Igreja, mas que mandam o filho para a primeira comunhão e que consideram que rezar é uma estupidez. Assim me disse, por exemplo, um menino da primeira comunhão. Com o batismo, os pais prometem educar o filho na fé. Mas são cada vez menos aqueles que o fazem. Em vez disso, aumenta o número das pessoas que recebem os sacramentos e, depois, não os vivem. E, às vezes nós nos comportamentos como se não víssemos isso, porque estamos contentes porque pelo menos alguém ainda vem. Naturalmente, sempre há também o grupo daqueles que vivem aquilo que é celebrado, mas há décadas esse grupo continua diminuindo, e o outro, crescendo.

Não seria uma fonte de alegria o fato de alguém vir, independentemente do motivo pelo qual o faz? De todos os modos, essas pessoas querem algo da Igreja e do senhor, como padre.

É claro que é motivo de alegria que haja pessoas que têm expectativas em relação a nós. Mas, por isso, não devemos lhes propor aquilo que esperamos deles? Celebrar os sacramentos, de fato, significa também viver a fé. Mas cada vez menos pessoas estão dispostas a isso. Naturalmente, também é nossa tarefa ajudar as pessoas que vêm até nós e levá-las a viver a fé.

Então por que o senhor não o faz?

Eu tentei e garanto a vocês que, nas últimas décadas, inúmeras pessoas que trabalham na Igreja em tempo integral ou como voluntários tentaram isso. Mas a transmissão da fé não é tarefa apenas delas. Cada vez mais pais parecem acreditar justamente nisso. Dão aos seus filhos somente a preparação para a primeira comunhão e acham que fizeram o necessário. Mas eles não vivem mais um caminho de fé e de oração. É até honesto, porque se afastaram cada vez mais. Não podemos nos admirar, então, se a missa para as crianças se torna apenas um dever e não uma alegria. Na véspera da primeira comunhão, uma criança me perguntou se ela era obrigada a continuar indo depois de receber a comunhão ou se, finalmente, poderia ficar novamente em casa. Assim, a festa da primeira comunhão se tornava a festa da libertação da obrigação de participar da missa aos domingos, para cuja participação eles haviam sido preparados. Dada a inutilidade daquilo que fazemos como pastores, podemos até cair em depressão. Repito mais uma vez: naturalmente, há também os outros, mas, apesar de todos os esforços, nós somos testemunhas de uma fé que está desaparecendo inexoravelmente.

Mas os pais de hoje não são, talvez, a prova de que antes também as coisas não eram melhores? Mesmo na sua infância, algo na transmissão da fé deve ter dado errado...

Talvez algo deu errado, mas, quanto ao restante, muita coisa mudou. Por isso, o maior problema não são tanto os jovens que não sabem o que fazer com a Igreja. São os adultos e os idosos. Eles também não vêm.

Mas como? Nós pensávamos que, sem os idosos, os padres ficariam sozinhos diante do altar.

Isso é verdade, aqui e ali. Mas se, em uma sociedade que envelhece, todos os idosos fossem à igreja, não haveria bancos vazios aos domingos. A experiência pessoal de ver os próprios pais ou os próprios avós rezando é mais importante do que qualquer sermão. Quantos, na geração dos avós, ainda são um exemplo de vida vivida para os seus filhos e os seus netos? Quantos são vistos pela nova geração como pessoas que rezam?

Muitos dos nossos leitores não ficarão contentes ao ouvir isso.

As tristes verdades não desaparecem só por serem ignoradas.

E o que dizer da triste verdade de que muitos padres se adaptam à situação, pregam aquilo que devem pregar e tentam não ver os bancos vazios, em vez de fazer algo para mudar?

Naturalmente, também é possível se resignar nessa profissão. Talvez, você também se resignaria, se, por causa dos números que diminuem e através da fusão de paróquias, fosse jogado sobre as suas costas um peso de trabalho excessivo. Se você soubesse que é um dos últimos da sua espécie, já que o número das jovens levas na Alemanha se aproxima de zero. É fácil jogar a responsabilidade sobre os padres, e é cada vez mais difícil hoje em dia ser padre, mais difícil do que antes, aliás, já que o apoio e o reconhecimento desapareceram, e desapareceram muito antes do escândalo dos abusos.

Então, ir para o convento foi uma fuga para o senhor?

Não, não uma fuga! Estou contente por ser padre, e a decisão não era contra a minha última paróquia da Santa Cruz, em Münster. Eu não poderia desejar nada melhor para mim! Mas percebi que eu precisava de uma pausa. Nas condições atuais, eu não posso mais cumprir por muito tempo a minha tarefa sem causar danos à alma, e as inúmeras reações de confirmação à minha carta me permitem saber que eu não sou o único ao qual as coisas estão indo dessa forma. Encontrei dois párocos aqui no convento que foram embora pelos mesmos motivos que eu.

Danos à alma?

Durante décadas, angustiamo-nos sobre como fazer propostas que fossem aceitáveis, propostas que fossem difíceis de recusar, sobre como ir ao encontro das pessoas. Com elas, organizamos festas por ocasião de batismos, comunhões, crismas, casamentos. Alguns até pensaram que, talvez, pedindo-lhes um pouco menos, tendo menos pretensões, eles voltariam. Mas nunca voltaram.

O fato de a Igreja querer alcançar o maior número de pessoas possível é tão negativo assim?

A intenção é mais do que honrosa, e a missão que Jesus nos confiou, no fim, é: vão por todo o mundo e anunciem o Evangelho a todas as criaturas (Marcos 15, 16). Mas também devemos nos perguntar por que queremos ir ao encontro das pessoas. A pergunta que eu me fiz há 30 anos, quando era um jovem capelão. Já então se dizia: é a nossa missão, e ponto final. Mas, já naquela época, eu tinha a suspeita de que, talvez, interessamo-nos demais por nós mesmos e não por aqueles que queremos alcançar.

Porque se acha que é mais entusiasmante uma Igreja com muitos em vez de poucos...

Exatamente! Naturalmente, sentimo-nos melhor quando outros colaboram conosco. Mas as pessoas não devem colaborar conosco para nos fazerem sentir melhor. É deles que se trata e da vontade de Deus. Olhamos demais para os números.

A Igreja ideal é vazia, mas crente?

A Igreja como eu a imagino não aborda os problemas de hoje com os meios e os modos de ontem. Quantas vezes se disse que devíamos ir aos jardins de infância e às escolas para conquistar as crianças para a fé? Mas já no passado isso não produziu os resultados esperados. Aqueles que nos precederam já se esforçaram bastante.

Então, o que imagina? Continuar com o pequeno resto no altar lateral?

Eu não tenho nada contra a missa em um altar lateral, que pode ser profundamente satisfatória. O pequeno resto não deve ser o futuro. Isso significaria que poderiam ficar somente aqueles que são 100% católicos. Desse modo, nos fecharíamos para o mundo e excluiríamos muitas pessoas. A Igreja que eu imagino está aberta também para aqueles que só frequentam em 20%, para os não batizados, para as pessoas em dúvida e para aquelas que estão buscando, para aquelas que gostariam, mesmo que apenas uma vez por ano, de um fim de semana de reflexão. A Igreja se orienta com base na mensagem de Deus e nas necessidades das pessoas. Na Igreja, a tradição não deve ser uma desculpa para não mudar.

Eu realmente não quero levantar muros contra o mundo. E não quero excluir ninguém. O fato de que muitas pessoas continuem aproveitando a nossa oferta, mas que poucas tirem dela a força para a vida cotidiana também pode depender da oferta. Essa discrepância não me deixa tranquilo, e isso no interesse das pessoas. Posso imaginar celebrações que sejam úteis à vida das pessoas, para as quais o necessário não é uma demanda alta de sacramentos. Se nós, há décadas, com um empenho muito grande, preparamos quase 100% das crianças para a participação na comunhão aos domingos, mas, de ano em ano, tornam-se cada vez menos aqueles que, depois, participam realmente, então, evidentemente, as duas partes não se encaixam mais. Continuar e esperar apenas, para mim, era muito pouco, também por amor às pessoas, das quais permanecem apenas boas recordações, mas nada que tenha a ver com a sua vida de todos os dias, nem mesmo mais do domingo.

O senhor gostaria de atrair para a frente do altar o moderno buscador de sentido que está no tapetinho de ioga?

Ele também, por que não? O que há de errado se o buscador de sentido busca o sentido conosco? O problema é que isso acontece muito raramente.

Mas não estão sendo construídos castelos no ar? Uma paróquia assim não existe, nem existirá na Igreja Católica institucional, tão imperfeita e impotente, como o senhor descreve.

Eu não estou tão certo disso. Claramente, é um sonho, um projeto, um esboço. Mas quem disse que não poderá se tornar realidade?

Isso significa que, se o senhor tivesse a paróquia apta e a liberdade que deseja, deixaria o convento e mudaria a Igreja?

Que palavras exageradas! Um “eu” nunca pode mudar a Igreja, apenas um “nós”, trabalhando junto com o Espírito de Deus. Mas esse seria um desafio do qual dificilmente eu poderia me isentar.

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