Bispos do Sudão do Sul, último bastião antes da catástrofe

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01 Março 2017

“A guerra civil continua, apesar do nosso pedido para que todas as facções parem-na. Perpetuam-se assassinatos, estupros, saques, ataques a igrejas e edifícios. O nosso país está no meio de uma terrível crise humanitária... O nosso povo luta cotidianamente para sobreviver... Milhões de sudaneses do sul são afetados pela fome e obrigados a fugir ou a encontrar refúgio nos campos de refugiados.”

A reportagem é de Luca Attanasio, publicada no sítio Vatican Insider, 26-02-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Essas são algumas das passagens mais dramáticas com as quais, sob a forma de “Mensagem Pastoral aos fiéis e a todo o povo”, os bispos sudaneses do sul lançam o seu apelo urgente “ao país e ao mundo”, para que se volte a negociar e a buscar soluções que combatam a guerra e a crise humanitária. Ao apresentá-lo à imprensa, o bispo de Yei, Dom Ladu, com a voz marcada pelo pranto, teve que parar várias vezes.

O longo documento, que fala de “crimes de guerra com base étnica”, tornado público ao término de um encontro realizado em Juba, entre os dias 21 e 23 de fevereiro, chega no ápice de um dos períodos mais duros e complexos na história do jovem país (a independência do Sudão foi alcançada em 2011) e repercute as alarmantes palavras do papa que, na audiência da quarta-feira, 22 de fevereiro, declarou: “Despertam apreensão particular as dolorosas notícias que vêm do martirizado Sudão do Sul, onde, a um conflito fratricida, une-se uma grave crise alimentar que condena à morte por fome milhões de pessoas, incluindo muitas crianças”.

Poucos dias atrás, o governo teve que admitir o estado de carestia em duas regiões – Leer e Mayendit –, mas a emergência já se estendeu para todo o país. Segundo a ONU, quase cinco milhões de pessoas estão em uma terrível escassez de alimentos e de meios para cultivar a terra, enquanto mais de 100 mil já estão reduzidos à fome. Mas o que coloca o país de joelhos, além da emergência humanitária, é uma escalada do conflito entre as tropas fiéis ao presidente Salva Kiir e o ex-vice, Riek Machar, que se arrasta desde 2013.

“O nosso país – diz a mensagem dos bispos – não vive em paz. O conflito civil, que sempre definimos sem qualquer justificação moral, continua. Alguns confrontos são entre as forças do governo e as da oposição. Queremos salientar, porém, que a maior parte dos combates ocorrem entre governo ou rebeldes contra a população civil. Multiplicam-se os ataques contra pessoas rotuladas como inimigas apenas com base em percepções. Muitos indivíduos são mortos, torturados, queimados, espancados, violentados, detidos ou forçados a deixar as próprias casas. Alguns centros se tornaram ‘cidades fantasmas’, e até mesmo nas nossas igrejas ou nos campos da ONU, onde cada vez mais refugiados chegam para pedir asilo, ocorrem abusos terríveis.”

“A guerra – explica uma fonte local, que pede para permanecer anônima (a pressão dos serviços secretos tornou-se muito dura recentemente e levou à morte ou ao desaparecimento de jornalistas, membros de ONGs e religiosos) – está na base de todas as calamidades que se abateram sobre esta nação nos últimos anos. Não há nenhuma razão, de fato, para que um país rico em vegetação, fauna, água, tradicionalmente rico em peixes e cultivável, tenha que afundar em uma emergência humanitária desse tipo. É errado chamá-lo de ‘desastre natural’, não há nada de natural nesta situação. Um exemplo notável é a região de Leer, uma das mais afetadas pela fome. Ela está reduzida ao extremo, até porque é a zona de origem do chefe da oposição armada, Riek, que ora é conquistada pelos rebeldes, ora pelo governo: isso provoca o contínuo deslocamento de fatias inteiras da população, que deixam campos, animais, pântanos ricos em peixe, abandonados a si mesmos.”

O conflito, ao qual agora se une a fome, já fez inúmeras dezenas de milhares de mortos e empurrou mais de três milhões de pessoas para fora das fronteiras. De nada valeram os vários acordos de paz assinados desde 2013, nem o envio de 12 mil capacetes azuis. Em dezembro, o presidente proclamou unilateralmente o período de diálogo nacional e chamou todas as partes no conflito. A facção mais dura da oposição, na realidade, que em abril passado havia aceitado o convite de Kiir para ir a Juba e sentar-se à mesa das negociações, não confia: naquela ocasião, Machar e um pequeno bando de fidelíssimos chegaram à capital. À sua espera, estavam tropas presidenciais inteiras. As tensões que surgiram daí, primeiro, levaram a confrontos ferozes e, depois, a uma verdadeira retomada da guerra civil.

Enquanto isso, parece que circulam no país mais armas do que ajudas humanitárias. O presidente do Sudão, Omar al-Bashir, declarou recentemente que, por trás de Kiir, está al-Sisi: as diplomacias sudanesa do sul e egípcia se apressaram em negar, mas fontes confiáveis confirmam. A oposição, no entanto, parece encontrar armas na Líbia.

A mensagem dos bispos, porém, depois de uma primeira parte composta por denúncias, apresenta um parágrafo de convite à ação e de propostas. “A esta mensagem, pretendemos unir um maior envolvimento nosso. Junto com outras Igrejas, pedimos para encontrar face a face não só o presidente, mas também o seu vice, ministros, membros do Parlamento, líderes da oposição, os militares e qualquer um que tenha o poder de mudar a realidade. Não pretendemos nos encontrar uma vez, mas todas as vezes necessárias para que, do diálogo, surjam ações, não só boatos”. Não seria possível encontrar palavras mais explícitas para ressaltar a vontade da Igreja sudanesa do sul de se colocar no centro do processo de paz e o desejo de conquistar um lugar eminentemente político como facilitadora do diálogo nacional.

Quase como que oferecendo aos fiéis e cidadãos um suspiro de alívio dos sofrimentos e para fazê-los se sentirem no centro da comunidade internacional e não esquecidos e abandonados à sua sorte, um último espaço na mensagem é dedicado a uma boa notícia: “Com grande alegria, informamos-lhes que o Santo Padre, muito preocupado com a situação do nosso país, anunciou a intenção de visitar o Sudão do Sul na segunda metade deste ano”.

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