Imigrantes se escondem temendo ser capturados 'em qualquer lugar'

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24 Fevereiro 2017

Não ir à igreja ou a uma loja. Nenhuma consulta com um médico no caso de alguns, e nem escola para outros. Nada de dirigir. Não quando um farol traseiro do carro quebrado pode entregar o motorista para o Serviço de Polícia de Imigração e Controle Aduaneiro.

A reportage é de Vivian Yee, publicada por The New York Times e reproduzida por O Estado de S. Paulo, 24-02-2017.

É o que vem ocorrendo no Central Valley, na Califórnia, onde imigrantes ilegais trabalham nas colheitas para ganhar um salário que mal dá para sobreviver, mas estão mantendo os filhos longe da escola; em Staten Island, onde menos pessoas que trabalham por jornada ficam nas esquinas à espera de um trabalho; no Isaac School District de West Phoenix, onde 13 estudantes latinos abandonaram a escola nas últimas duas semanas; e na região de criação de cavalos ao norte de Nova Jersey, onde um dos muitos empregados que cuida dos estábulos está pensando em voltar para Honduras.

Se a deportação teoricamente sempre foi uma ameaça para as 11 milhões de pessoas que vivem no país ilegalmente, ela raramente colocou em perigo aqueles que não cometiam algum crime grave. Mas com a intenção do governo Trump de frear a imigração ilegal - dois memorandos especificando os planos do governo para acelerar as deportações foram divulgados na terça-feira, num passo a mais para cumprir uma das promessas feitas por Trump em sua campanha - essa ameaça, no caso de muitas pessoas, vem mudando cada gesto.

O perigo afastou a família de um parque local onde costumava jogar beisebol às tardes e os jovens de um campo de futebol no Brooklyn onde jogos de várzea eram comuns.

E mantém Meli, 37 anos, de San Salvador, que chegou a Los Angeles há mais de 12 anos, numa espécie de prisão domiciliar voluntária, recusando-se a dirigir, temendo deixar sua casa e sem saber como levará seu filho mais novo, que é autista, à consulta médica.

"Não quero ir à loja nem à igreja - eles estão observando por todo lado e sabem onde nos encontrar", disse Mele.

E tem levado uma multidão cada vez maior de imigrantes na Filadélfia, Nova York, Los Angeles e outros lugares a buscar ajuda em entidades de defesa de direitos e prestam serviços jurídicos, com a mesma pergunta: o que devo fazer se for parado por um funcionário da imigração? Com que rapidez posso requerer a cidadania se já sou residente permanente legal? Como posso indicar alguém em situação legalizada para guarda de meus filhos no caso de eu ser deportado?

Num estacionamento de um centro de compras em Austin, Texas, um casal com os dois filhos que acabara de sair da consulta com um pediatra disse ter escolhido um amigo que tinha seus papéis em ordem para a guarda das duas crianças caso fossem enviados de volta para o México.

"Estamos tirando o passaporte americano para nossos filhos porque assim poderão nos visitar no México", disse o homem, que trabalha em um restaurante e vive no Texas há 15 anos.

Algumas famílias de baixa renda em Nova York com filhos que são cidadãos americanos, não se cadastraram no programa de assistência alimentar, disse Betsy Plum, diretora de projetos especiais do New York Immigration Coalition, um grupo de apoio.

"Está ocorrendo um isolamento de fato no momento", disse ela.

Num bom domingo o restaurante de comida mexicana de Staten Island dirigido por Cesar Rodriguez e sua mãe rende US$ 3.000. Desde o início do ano, a média tem sido de US$ 1.500 e no domingo anterior chegou a apenas US$ 700.

Rodriguez, que chegou a Nova York aos 13 anos de idade e estava sob proteção temporária contra uma deportação por força do programa implementado no governo Obama chamado Deferred Action for Childhood Arrivals, ou DACA, disse que os imigrantes ilegais estão economizando para o caso de serem detidos. E eles também relutam em sair de casa temendo que agentes da imigração estejam no seu rastro.

"Eles estão ouvindo notícias falsas. Mesmo que não seja verdade, estão apavorados".

E os bancos vazios nas salas de aula agora são constantes em Ceres, Califórnia, onde 75% dos alunos são hispânicos, segundo os diretores de escola.

As escolas na região estão rodeadas de fazendas de gado leiteiro e pomares de amêndoas onde os trabalhadores são na maior parte imigrantes sem documentação. Para os diretores das escolas os alunos não têm aparecido porque os pais estão preocupados de que poderão ser identificados por meio dos livros de registro escolar das crianças.

Para Graciela Nuñez Pargas, 22 anos, que chegou ao país quando tinha sete anos e está sob proteção do programa DACA, a perspectiva de tirar sua carta de motorista se tornou assustadora. Infrações de trânsito sem importância não costumam levar a uma deportação, mas Graciela, que vive em Seattle, assim mesmo anda inquieta.

"Eles ampliaram o conceito de criminoso. Coisas que uma pessoa normal faria sem querer podem me levar de volta para a Venezuela", disse ela.

O Northwest Immigrant Rights Project, grupo que presta serviços de natureza legal gratuitos em Seattle, distribuiu milhares de cartões de visita nos últimos dias orientando imigrantes ilegais sobre o que devem fazer, ou não, se algum funcionário da imigração bater à sua porta.

"Não responda a perguntas sobre onde nasceu ou sua situação como imigrante", é um dos avisos.

O grupo também orienta os imigrantes, no caso de alguém bater, a enfiar por baixo da porta um cartão com os dizeres: "A quem possa interessar: antes de responder a qualquer pergunta quero falar com um advogado".

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