Lyon. No coração da França, o despertar dos eleitores em nome do catolicismo

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25 Fevereiro 2017

No adro da igreja um homem empurra um carrinho de bebê. "Não nos envolvemos com política" desconversa Mathieu, saindo da nave central com seus cinco filhos e a sogra. A missa em latim terminou e o sacerdote concluiu o sermão do púlpito. Localizada nas encostas de Fourvière, a igreja de Saint-Just ficou por muito tempo fechada. Dois anos atrás, um pequeno grupo de fiéis tradicionalistas conseguiu re-consagrar a igreja, restaurando o rito litúrgico romano pré-concílio. "Nós fizemos tudo sozinhos, há um novo fervor", conta orgulhosamente Mathieu. O "fervor" que se respira em Saint-Just não é isolado.

A reportagem é de Anais Ginori, publicada por La Repubblica, 18-02-2017. A tradução é de Luisa Rabolini.

A laica França testemunha um renascimento dos católicos no debate político. Nunca se falou tanto de Deus como nessa campanha presidencial. A surpreendente vitória de François Fillon nas primárias é o sinal mais retumbante. "Eu sou um cristão", disse o ex-premier com uma ostentação sem precedentes. Até mesmo o general De Gaulle, o mais religioso entre os presidentes recentes, evitava a comunhão quando participava de missas no desempenho da função pública. Outros tempos. O escândalo sobre o emprego fictício de Penelope Fillon, anglicana convertida ao catolicismo, não incomoda os fiéis. "As mentiras dos homens serão julgadas por Deus" resume o paroquiano de Saint-Just, com implícito apoio ao ex-premier.

Lyon é um dos centros do cristianismo francês. Cidade de mártires, da Festa das Luzes, terra de figuras carismáticas como o Abbé Pierre. "E, agora, o berço da reconquista". Anne Lorne usa esse termo que evoca as Cruzadas. Candidata dos Républicains, 36 anos, Lorne militou anteriormente por Sarkozy, o presidente que havia recordado as "raízes cristãs da França”, e agora é partidária de Fillon. Junto a outros católicos de direita fundou "Sens commun" e aparece entre os organizadores das manifestações da "Manif pour Tous" contra a legalização do casamento homossexual proposto pelo governo socialista. A lei foi aprovada, mas o ativismo ainda não acabou. "Sens commun" tem milhares de membros e cerca de trinta candidatos para as próximas eleições. "Colocamos um fim a meio século de catolicismo escondido", comenta Lorne que lançou uma parceria entre Lyon e Mosul em defesa dos cristãos perseguidos do Oriente.

O dia de 26 de julho de 2016 é uma data que poucos vão esquecer: o dia em que dois garotos franceses mataram o padre Jacques Hamel, na igreja de Saint-Etienne-du-Rouvray. "O secularismo é usado como um artifício por não resolver os verdadeiros problemas com o Islã, que, como já disse Fillon, é a única religião em conflito com a République", diz Eugénie Bastié, 25 anos, uma jornalista da revista Limites, uma das novas mídias católicas "neocon". No entanto, a jovem intelectual formada pela Sciences Po não vai votar no candidato da direita. "Incomoda-me o seu liberalismo econômico", esclarece, citando uma luta "metapolítica", "gramsciana", por uma hegemonia cultural a longo prazo. A revista Limites concentra-se na "ecologia integral", termo utilizado na última encíclica pelo Papa Francisco, que também prega o diálogo com o Islã. Bastié balança a cabeça. "Talvez, por ser argentino, não entenda nossa insegurança identitária".

O pontífice entrou contra a sua vontade na campanha eleitoral. "Le Pape qui fait scandale" (o Papa que escandaliza) publicou o semanal conservador Valeurs Actuelles, antecipando o ensaio "Église et imigração, le grand malaise" (Igreja e imigração, o grande desconforto). O autor Laurent Dandrieu acusa o Papa de posições muito suaves em matéria de imigração e de participar do "suicídio da civilização ocidental." Outro intelectual de direita, Erwan Le Morhedec, denuncia, ao contrário, a manipulação da fé por parte de grupos identitários e anti-islamicos no panfleto "Identitaire, le mauvais génie du christianisme" (Identitário, o gênio do mal do cristianismo).

O debate francês, retomado no L'Osservatore Romano, mostra quantas almas se aninham no novo "fervor" intelectual e político. "Não existe um eleitorado católico monolítico", observa Guillaume Goubert, diretor do jornal La Croix que acaba de publicar uma pesquisa sobre o tema. Se os praticantes (5% do eleitorado) votam em sua maioria na direita, as preferências políticas são distintas e variadas entre os franceses que se identificam com a cultura católica - compartilhando seus valores e instituições - e que somam quase 20 milhões de pessoas. A Front National consegue seduzir a fatia mais reacionária e xenófoba: de acordo com o instituto Ifop, 25% do eleitorado está pronto para votar na extrema direita. Marion Maréchal Le Pen, paladina da identidade católica, foi convidada há alguns meses para uma reunião de bispos em Toulon. "Mas a Front National é dividida internamente", adverte Goubert, lembrando a comitiva "laica e pagã" de Marine Le Pen e o seu programa que promete proibir todos os símbolos religiosos em locais públicos.

Por mais de trinta anos a revista Golias vem sendo a voz do catolicismo progressista fora da Itália. Na redação de Villeurbanne, um subúrbio de Lyon, o fundador Christian Terras, 65 anos, afirma não estar surpreso com o ressurgimento da extrema direita católica. "Isso acontece quando a esquerda chega ao poder", explica, acrescentando, no entanto, entre suas causas uma "forma de revanchismo em relação ao declínio do catolicismo". A secularização da França é visível nos arredores de Lyon, como em outras áreas rurais do país: as igrejas permanecem fechadas ou são transformadas em centros comerciais. "Enquanto isso, porém, - observa Terras – constroem-se novas mesquitas, o Ramadan incorpora-se aos hábitos e as empresas Halal estão se multiplicando nas ruas centrais. A expansão do Islã começou a causar preocupações bem antes dos atentados".

Após o assassinato do Padre Jacques Hamel, os bispos franceses pediram para abrir suas igrejas para os muçulmanos. A resposta ao terror foi um inesperado impulso para o diálogo. "Em Lyon, organizamos uma marcha pela irmandade", lembra Miriam Ardouin. Professora de inglês, 28 anos, é membro da Alters Cathos, católicos alternativos, uma associação que organiza conferências, debates e inaugurou um bar cooperativo, Café Simone, em homenagem à filósofa Simone Weil. "Alguns muçulmanos participaram das oficinas de ecologia" relata Ardouin. Aos domingos o Café Simone abriga cursos de francês para os imigrantes. Alters Cathos deseja ser um centro de reflexão. "Somos distantes da "Sens commun", não nos consideramos um grupo político", esclarece Ardouin.

Ela ainda não decidiu se irá tomar partido por algum candidato. "Ninguém representa inteiramente meus valores".

Talvez acabe não votando.

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