Justiça da Nicarágua retoma um processo contra Ernesto Cardenal

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14 Fevereiro 2017


Ernesto Cardenal (Foto: Rede Social)

A justiça da Nicarágua, controlada pelo presidente Daniel Ortega, retomou um caso jurídico contra o padre e poeta Ernesto Cardenal, que na sexta-feira foi notificado através de um decreto judicial publicado pelo Jornal do Estado, dizendo que ele deve pagar 800 mil dólares por conta de "danos e prejuízos" provenientes de uma disputa relacionada a terrenos localizados na ilha Solentimane, onde o poeta fundou uma comunidade de artesãos e criou sua famosa obra O Evangelho de Solentiname. Cardenal classificou este caso como "perseguição política" contra ele.

A reportagem é de Carlos Salinas, publicada por El País, 13-02-2017. A tradução é de Henrique Denis Lucas.

Ernesto Cardenal é um dos representantes mais destacados da chamada Teologia da Libertação, mas sobretudo um homem comprometido com a luta contra as injustiças na América Latina. Seu compromisso político o fez apoiar a luta armada contra a ditadura de Somoza, uma dinastia que governou a Nicarágua por mais de quarenta anos, e mais recentemente enfrentar o governo do presidente Daniel Ortega, cujos excessos e arbitrariedades denuncia sempre que ele viaja para apresentar sua poesia.

Cardenal opôs-se abertamente contra o projeto do Canal Interoceânico que o Presidente Daniel Ortega pretende construir na Nicarágua com o apoio do empresário chinês Wang Jing. O poeta qualificou esta enorme obra de engenharia como uma "monstruosidade" e tem escrito várias acusações em contraposição.

Ernesto Cardenal nasceu em Granada (Nicarágua), em 20 de janeiro de 1925. Herdeiro de uma sólida tradição poética - com poetas proeminentes como Ruben Darío - Cardenal estudou literatura em Manágua e no México, e realizou outros estudos nos EUA e Europa. Em 1965, foi ordenado sacerdote e, mais tarde se estabeleceu no Solentiname, localizado no Grande Lago da Nicarágua, onde fundou uma comunidade de pescadores e artistas primitivistas que se tornou mundialmente famosa.

Foi lá que ele escreveu seu célebre O Evangelho de Solentiname. O arquipélago é um local de peregrinação dos fiéis leitores e seguidores do poeta. Cardenal passava suas férias nessas ilhas, onde lia as obras completas de Darío, escrevia e ministrava a missa da Semana Santa na pequena igreja da localidade.

O caso retomado nesta sexta-feira começou na década de oitenta, quando Cardenal recebeu fundos de uma organização alemã para construir uma escola em Solentiname para formar líderes camponeses. Na década de noventa do século passado, a chamada Associação para o Desenvolvimento de Solentiname decidiu converter as instalações escolares em um hotel, administrado por Alejandro Guevara, um camponês formado por Cardenal. Guevara morreu em um acidente e a associação decidiu nomear Nubia del Socorro Arcia Mayorga como administradora do hotel. Fontes próximas a Cardenal disseram que anos mais tarde, a mulher reivindicou o hotel como herança e em 2002 decidiu processar o poeta. A propriedade ficou em um limbo judicial, mas Arcia Mayorga manteve a gestão da propriedade. A mulher exige que legalmente a propriedade seja transferida para o seu nome. Anos depois, a mulher voltou a processar Cardenal por danos e prejuízos morais e um juiz considerou a causa procedente, de maneira que agora é exigido de Cardenal o pagamento de 800 mil dólares. Arcia Mayorga é representada pelo advogado José Ramón Rojas Méndez, que defendeu Daniel Ortega quando ele foi acusado de estupro por sua enteada, Zoilamérica Narváez.

O poeta Cardenal vive sozinho em Manágua, em sua casa, no bairro Los Robles, embora esteja sob os cuidados de sua cozinheira Ana, e seu motorista, Pedro. Cardenal participa frequentemente dos encontros da Associação de Escritores da Nicarágua, em sua sede, onde possui um modesto escritório e de lá responde as correspondências e aceita entrevistas. Neste lugar são mantidas em exposição parte de sua obra literária, assim como suas esculturas, a maioria representações da fauna tropical do Lago Nicarágua, um de seus grandes amores.

O escritor Sergio Ramírez, um amigo íntimo do poeta, disse que ele é um dos grandes inovadores da língua espanhola, ao criar uma nova forma lírica, a narração na poesia, o que fez de Cardenal um cronista do seu tempo. "Considero Ernesto primeiro pelo seu dom de inovação", disse Ramírez.

A poesia de Cardenal está fortemente ligada à Revolução Sandinista, que em 1979 derrubou a ditadura de Somoza. Em poemas como Hora Cero ou El Canto Nacional o poeta destacou as proezas de Augusto Sandino e os guerrilheiros sandinistas. Esse vínculo íntimo com a política fez com que a Igreja Católica o rejeitasse, a tal ponto que o Papa João Paulo II o censurou publicamente quando visitou a Nicarágua em 1983, em plena era sandinista.

Cardenal, no entanto, tem mantido um profundo amor cristão, expresso através de obras como Los Salmos, versos que demonstram o seu compromisso com a fé, mas também suas críticas contra as injustiças, a opressão e o sofrimento dos mais vulneráveis.

O poeta é um criador incansável, um homem comprometido politicamente e uma voz profética, combativa e desconfortável para o poder. O governo do presidente Daniel Ortega tem perseguido o poeta há anos. "Minha poesia tem um compromisso social e político, ou melhor, revolucionário. Tenho sido um poeta, padre e revolucionário. Utilizei a poesia para levar minha mensagem social, revolucionária", disse o poeta em 2012, quando foi agraciado com o Prêmio Rainha Sofia de Poesia Ibero-americana.

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