Papa Francisco escreve prefácio a livro de ex-vítima de abusos sexuais cometidos por um frei capuchinho

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14 Fevereiro 2017

“Testemunhos como o seu (…) lançam luz sobre uma terrível escuridão da Igreja (…) Um testemunho necessário, precioso e corajoso (…) Peço perdão pelos padres pedófilos: um sinal do diabo. Seremos muito severos”: são reflexões do Papa Francisco contidas no prefácio escrito para o livro – nas livrarias italianas a partir da próxima quinta-feira – do ex-monge suíço Daniel Pittet, hoje com 57 anos, no qual ele conta uma experiência dolorosa pessoal, mantida em segredo por muitos anos.

A nota é de Luis Badilla, publicada no sítio Il Sismografo, 13-02-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

No livro Mon Père, je vous pardonne [Meu padre, eu lhe perdoo] (Ed. Philippe Rey), Pittet conta que foi vítima de repetidos estupros, dezenas e dezenas, por parte de um frei capuchinho suíço, o Pe. Joel Allaz.

O autor do livro e vítima desse caso diz ter esperado 20 anos antes de comunicar às autoridades eclesiásticas o que tinha sofrido e que fez isso apenas depois de ter tomado conhecimento de atos semelhantes contra outra vítima do capuchinho.

Daniel Pittet, vítima reconhecida e ressarcida pela diocese de Friburgo e pela Ordem dos Frades Menores Capuchinhos, relata as diversas fases do processo aberto em 2002 no tribunal eclesiástico de Grenoble (França), para onde Allaz foi transferido, mas encerrado um ano mais tarde “por falta de provas”.

Enquanto isso, o capuchinho, sobre o qual cresciam as suspeitas sobre a sua conduta, era transferido de uma diocese a outra. Apenas em 2008, foram abertos novos inquéritos depois de outras denúncias de 24 vítimas, mas os crimes, cometidos entre 1958 e 1995, tinham prescrito tanto na Suíça quanto na França. No fim, em dezembro de 2011, Joel Allaz se salvaria da prisão com uma suspensão condicional da pena (dois anos). Allaz “nunca foi reduzido ao estado laical”, assegura Daniel Pittet, e acrescenta: hoje, ele tem 76 anos e ainda vive na comunidade, na Suíça.

Daniel Pittet, hoje em Friburgo, trabalha como bibliotecário e cuida da associação fundada por ele, “Rezar e Testemunhar”. Há dois anos, o ex-sacerdote, que depois se casou e é pai de seis filhos, se encontrou com o pontífice no Vaticano e lhe contou a sua história.

Eis o prefácio do papa.

Para quem foi vítima de um pedófilo, é difícil contar o que sofreu, descrever os traumas que ainda persistem depois de anos. Por esse motivo, o testemunho de Daniel Pittet é necessário, precioso e corajoso.

Eu conheci Daniel no Vaticano em 2015, por ocasião do Ano da Vida Consagrada. Ele queria difundir em grande escala um livro intitulado “Amar é dar tudo”, que reunia os testemunhos de religiosos e religiosas, de padres e consagrados. Eu não podia imaginar que esse homem entusiasmado e apaixonado por Cristo tinha sido vítima de abusos por parte de um padre. No entanto, foi isso que ele me contou, e o seu sofrimento me tocou muito.

Eu vi mais uma vez os danos assustadores causados pelos abusos sexuais e o longo e doloroso caminho que espera pelas vítimas. Estou feliz que outros possam ler hoje o seu testemunho hoje e descobrir a que ponto o mal pode entrar no coração de um servidor da Igreja. Como um padre a serviço de Cristo e da sua Igreja pode chegar a causar tanto mal? Como ele pode ter consagrado a sua vida para levar as crianças a Deus e, ao invés, acabar devorando-as naquele que eu chamei de “um sacrifício diabólico”, que destrói tanto a vítima quanto a vida da Igreja?

Algumas vítimas chegaram ao suicídio. Estas mortes pesam no meu coração, na minha consciência e na de toda a Igreja. Às suas famílias, eu ofereço os meus sentimentos de amor e de dor, e, humildemente, peço perdão. Trata-se de uma monstruosidade absoluta, de um horrendo pecado, radicalmente contrário a tudo o que Cristo nos ensina.

Jesus usa palavras muito severas contra todos aqueles que fazem mal às crianças: “Quem escandalizar um desses pequeninos que acreditam em mim, melhor seria para ele pendurar uma pedra de moinho no pescoço, e ser jogado no fundo do mar” (Mateus 18, 6).

A nossa Igreja, como recordei na carta apostólica “Como uma mãe amorosa”, de 4 de junho de 2016, deve cuidar e proteger com particular com afeto particular os mais fracos e os indefesos. Declaramos que é nosso dever dar prova de severidade extrema com os sacerdotes que traem a sua missão e com a sua hierarquia, bispos ou cardeais, que os protegeu, como já aconteceu no passado.

Na desgraça, Daniel Pittet pode encontrar também outra face da Igreja, e isso lhe permitiu não perder a esperança nos homens e em Deus. Ele nos conta também sobre a força da oração que nunca abandonou e que o confortou nas horas mais escuras. Ele optou por se encontrar com o seu algoz 45 anos depois e por olhar nos olhos do homem que o feriu nas profundezas da alma. E lhe estendeu a mão.

O menino ferido é hoje um homem de pé, frágil, mas de pé. Estou muito tocado com as suas palavras: “Muitas pessoas não conseguem entender que eu não o odeio. Eu o perdoei e construí a minha vida sobre esse perdão”.

Agradeço a Daniel porque testemunhos como o dele derrubam o muro de silêncio que sufocava os escândalos e os sofrimentos, lançam luz sobre uma terrível zona de sombra na vida da Igreja. Abrem o caminho para uma justa reparação e para a graça da reconciliação, e ajudam também os pedófilos a tomar consciência das terríveis consequências das suas ações.

Rezo por Daniel e por todos aqueles que, como ele, foram feridos na sua inocência, para que Deus os reerga e os cure, e dê a todos nós o Seu perdão e a Sua misericórdia.

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