Caim e Abel: a história de uma fraternidade que devia crescer, mas acabou destruída

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14 Fevereiro 2017

O Papa Francisco quis oferecer a missa celebrada nessa segunda-feira de manhã, 13 de fevereiro, na capela de Santa Marta, por um missionário especial, que, na quarta-feira, partirá de volta para o Oriente. “Um pensamento de família”, enfatizou o pontífice, porque o missionário é o Pe. Adolfo Nicolás Pachón, ex-prepósito-geral da Companhia de Jesus. “Que o Senhor retribua todo o bem feito e o acompanhe na nova missão: obrigado, padre Nicolás”, disse Francisco, dirigindo-se ao religioso que concelebrou com ele.

A reportagem é do jornal L’Osservatore Romano, 14-02-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Depois, referindo-se à primeira leitura, tirada do livro do Gênesis (4, 1-15.25), o papa, na homilia, observou que “é a primeira vez que, na Bíblia, diz-se a palavra irmão”. A história de Caim e Abel, explicou, “é a história de uma fraternidade que devia crescer, ser bela”, mas, ao invés disso, “acabou destruída”. E “a história, como ouvimos, começou com um pequeno ciúme: Caim, quando viu que o seu sacrifício não foi aceito, ficou muito irritado e começou a cozinhar aquele sentimento dentro de si”.

“Essa irritação – explicou Francisco – não estava só na alma, mas também no corpo: o seu rosto estava abatido.” E eis que “o Senhor, como Pai, lhe fala: ‘Por que você está irritado e por que o seu rosto está abatido? Se você agisse bem, não deveria ter o rosto erguido? Mas, se você não age bem, o pecado está à espreita junto à porta; o seu instinto está voltado para você’.”

No fim, afirmou o papa, “Caim preferiu o instinto, preferiu deixar cozinhar dentro de si esse sentimento, aumentá-lo, deixá-lo crescer. Esse pecado que ele vai fazer depois, que está à espreita por trás do sentimento, cresce”. É justamente assim, continuou o pontífice, que “crescem as inimizades entre nós: começam com uma coisa pequena, um ciúme, uma cobiça, uma inveja, e, depois, isso cresce, e nós vemos a vida somente a partir desse ponto e aquele pequeno cisco se torna para nós uma trave: mas a trave, somos nós que temos, está lá”. Tanto que, depois, “a nossa vida gira em torno disso, e isso destrói o vínculo de fraternidade, destrói a fraternidade”. Também quando “estamos sob esse instinto à espreita, no nosso coração, ficamos com o ‘espírito amarelo’, como se diz: o fel, como se não tivéssemos sangue, como se tivéssemos fel, é assim”. A tal ponto que “o que importa é apenas aquela pessoa, aquilo que ela fez de errado”. Estamos “obcecados, perseguidos por aquilo, e assim cresce a inimizade e termina mal, sempre”.

Em suma, acrescentou Francisco, no fim, “eu me separo do meu irmão: ‘Este não é meu irmão, este é um inimigo, este deve ser destruído, expulso!’”. E é exatamente assim que “se destroem as pessoas, assim as inimizades destroem as famílias, povos, tudo”. É “aquele roer-se o fígado, sempre obcecado com aquilo”. Foi justamente isso que aconteceu com Caim “e, no fim, deixou de fora o seu irmão: ‘Não, não existe irmão, sou apenas eu; não há fraternidade, sou apenas eu!’”.

O que “aconteceu no início – advertiu Francisco – pode acontecer a todos nós, é uma possibilidade”. Por essa razão, é um “processo” que “deve ser freado logo, no início, na primeira amargura”. É preciso freá-lo, porque “a amargura não é cristã: a dor, sim, a amargura, não”. Até mesmo “o ressentimento não é cristão: a dor, sim, o ressentimento, não”. Em vez disso, “quantas inimizades, quantas divisões” existem.

“Hoje, estão aqui os novos párocos”, disse ainda o papa, referindo-se aos sacerdotes presentes e observando: “Também nos nossos presbitérios, nos nossos colégios episcopais, quantas rachaduras começam assim!”. E talvez nos perguntemos: “Por isso a este deram aquela sede e não para mim? E por que isso?”. Assim, com “pequenas coisinhas, rachaduras, destrói-se a fraternidade”.

Diante dessa atitude do homem, “o que o Senhor faz?”. A passagem do Gênesis sugere que Ele, assim como para Caim, “nos pergunta: ‘Onde está Abel, teu irmão?’”. Para o pontífice, “a resposta de Caim é irônica: ‘Eu não sei. Por acaso eu sou o guardião do meu irmão?’”. Mas é possível rebater: “Sim, tu és o guardião do teu irmão”.

De sua parte, “Caim poderia ter respondido: ‘Sim, eu sei onde Abel está, mas não sei onde está o meu irmão, porque Abel não é meu irmão: eu destruí aquela fraternidade’”. Como se dissesse: “Eu sei onde está aquele ou aquela ou este: eu sei, mas não sei onde estão os meus irmãos”. Com efeito, “quando se cai nesse processo que acaba na destruição da fraternidade – explicou o pontífice – pode-se dizer isto: eu sei, sim, onde está este ou aquela, mas não sei onde está o meu irmão, a minha irmã, porque, para mim, este ou aquela não são irmãos e irmãs”.

Sobre esse ponto, continua o Gênesis, “o Senhor é forte: ‘ A voz do sangue do teu irmão está clamando por mim, da terra’”. É verdade, continuou Francisco, que “cada um de nós pode dizer: ‘Pai, eu nunca matei ninguém, nunca!’”. Mas “pensemos no Evangelho de ontem: se você tem um sentimento ruim contra o seu irmão, você o matou; se você insulta o seu irmão, você o matou no seu coração”. Porque “a morte é um processo que começa a partir do pequeno, como aqui”. Cada um de nós – “ao menos eu me inscrevo na lista”, especificou o papa – “pense: quantas vezes eu deixei este de lado, tive ciúmes, separei este daqui, de lá”. E ainda: “Quantas vezes, para dizer a verdade, eu disse ao Senhor: ‘Eu sei onde está este ou aquele, mas não sei onde está o meu irmão’”. Justamente “essa é a palavra de Deus para nós” e “não para conhecer um pedaço da história ou de teologia bíblica”.

“Ainda hoje – afirmou o papa – a voz de Deus, não só a cada um de nós, mas a toda a humanidade, pergunta: ‘Onde está o seu irmão? Onde está a sua irmã?’”. E a nossa resposta é: “Eu sei onde estão aqueles que são bombardeados lá, que são expulsos de lá, mas estes não são irmãos, eu destruí o vínculo”. Do mesmo modo, “quantos poderosos da terra podem dizer: ‘Estou interessado neste território, estou interessado neste pedaço de terra, este outro. Se a bomba cair e matar 200 crianças, não é culpa minha: a culpa é da bomba. Estou interessado no território”.

Por isso, acrescentou Francisco, “tudo começa com aquele sentimento que o leva a se separar, a dizer ao outro: ‘Este é alguém, este é assim, mas não é irmão’”. E “acaba na guerra que mata”.

Mas, observou o papa, “você matou no início: esse é o processo do sangue, e hoje o sangue de tantas pessoas no mundo clama a Deus da terra”. E “tudo está conectado: esse sangue lá tem uma relação – talvez uma pequena gotinha de sangue – que, com a minha inveja, com o meu ciúme, deixei sair quando destruí uma fraternidade: não é o número que destrói a fraternidade, é aquilo que sai do coração de cada um de nós”.

“Que o Senhor hoje – foi o pedido do papa – nos ajude a repetir esta Sua palavra: ‘Onde está o seu irmão’?”. E “cada um de nós” – sugeriu Francisco em conclusão, como exame de consciência – pense “em todos estes que separamos, em todos estes dos quais falamos mal quando nos encontramos ou destruímos com a língua”. E “pensemos também em todos aqueles que, no mundo, são tratados como coisas e não como irmãos, porque é mais importante um pedaço de terra do que o vínculo da fraternidade”.

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