Crise na Igreja chilena

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14 Fevereiro 2017

“A única Igreja que vale a pena ter futuro no Chile é aquela na qual seja possível que o Evangelho seja comunicado como uma experiência daquele Jesus humilde que congregou amigos e amigas para dar a vida pela humanidade”, escreve Jorge Costadoat, SJ, teólogo chileno, em artigo publicado por Religión Digital, 13-02-2017. A tradução é de André Langer.

Eis o artigo.

A Igreja católica no Chile está passando por um momento de grande complexidade. Suas dificuldades, talvez, são maiores que as das outras Igrejas da América Latina.

Os católicos chilenos sofrem uma diminuição abrupta. Em 20 anos, a Igreja católica chilena perdeu praticamente 1% de fiéis por ano. No Chile, a identidade católica tende a se dissipar, mesmo quando os melhores sentimentos dos chilenos continuam a ser alimentados pelo cristianismo. As pessoas creem em Deus, rezam, mas sua pertença eclesial reflui, a prática religiosa sempre foi baixa e não há sinais visíveis de recuperação.

O cristianismo de cristandade – aquele que se recebe na cultura como parte de uma sociedade que se diz cristã, e não como resultado de uma conversão pessoal e de um encontro com o Evangelho – foi de baixa qualidade. No país, a fé foi transmitida como um credo, uma cosmovisão, uma antropologia e práticas religiosas compartilhadas de um modo massivo e automático sem verdadeiras iniciações religiosas. Tratou-se de um catolicismo suficientemente indeterminado a ponto de acomodar tremendas contradições. Santo Alberto Hurtado criticou os seus contemporâneos jogando-lhes na cara justamente a incongruência: “É o Chile um país católico?” (1941). Lamentava, naquela época, a falta de clero e as injustiças sociais. A desigualdade na renda hoje deve ser a mesma que há 80 anos. Os presbíteros, no futuro, serão ainda menos que nos tempos de Hurtado.

Esta falta de vigor do cristianismo “à chilena” pode ter servido de grama seca para o atual incêndio das pertenças comunitárias. No Chile, enfraqueceram-se as paróquias, as comunidades eclesiais de base, as comunidades religiosas, os movimentos de leigos e a participação na eucaristia dominical, e não há sinais de originalidade mais ou menos importantes. Talvez haja, pois o reino dos céus é como um grão de mostarda. No momento não se vê.

A situação é preocupante porque o cristianismo é essencialmente comunitário.

O que aconteceu? Sempre que se constata um mal, busca-se um culpado. Neste caso, o mais fácil é imputar esta crise à hierarquia eclesiástica: má formação do clero, falta de imaginação na implementação do Concílio Vaticano II, relações infantis entre os sacerdotes e os leigos; ao que se deve somar a diminuição das ajudas internacionais (clero, religiosos e religiosas) e a diminuição das vocações. Estas são explicações plausíveis da crise, mas não são as únicas.

Acontece que o Chile experimenta uma mudança cultural impressionante, semelhante àquela que aconteceu no resto do mundo, devido a uma globalização que quebra a cultura tradicional e fragiliza de maneira igual as instituições civis e religiosas, em particular aquelas que promovem os melhores valores da humanidade. Doravante, predomina a busca econômica do lucro máximo e o mercado que reduz as pessoas a indivíduos competitivos que querem “ser alguém” pela via do consumo, e não pelo caminho da solidariedade. No mercado prima a busca dos próprios direitos acima da vontade do serviço ao próximo e à sociedade. Na era da globalização, tudo entra em relação com tudo, tudo é relativizado, tudo pode ser comprado e vendido, e a gratuidade torna-se rara. A gratuidade sempre foi sacrificada. Agora, tornou-se ininteligível.

Que futuro resta a uma Igreja debilitada pela inveterada superficialidade dos fiéis, por seus “erros não forçados” e pela mudança cultural que em poucos anos custou gerações inteiras de jovens, por outro lado, escandalizados com os abusos sexuais do clero e seu acobertamento.

Para os católicos, pode ser hoje uma tentação procurar subsistir a qualquer custo. Poderiam, por exemplo, buscar no passado realizações que dão segurança, fazendo-as passar por reveladas, ocultando que, na realidade, foram obras de uma Igreja muito mais criativa. Não faltará, outro exemplo, quem agasalhe a instituição com a vivacidade da religiosidade popular. Ou, finalmente, que se jogue a culpa da crise nas inovações do Concílio Vaticano II.

Mas, há algo melhor a se fazer: buscar a essência do Evangelho, indagar pelo sentido mais profundo da vida, lutar pelo radical respeito à dignidade da pessoa humana, tentar superar as desigualdades e opressões, esclarecer a possibilidade de um encontro com um Deus rico em misericórdia e libertador. Penso que os cristãos poderiam tentar comunicar com humildade suas experiências de fé solidária e comunitária.

Tem sido uma constante na história da Igreja sua solicitude para com os pobres. Os cristãos poderiam dar uma mão desinteressada aos imigrantes, aos viciados empedernidos, aos filhos abandonados por seus pais, às mulheres maltratadas, aos idosos cuja simples existência é um motivo de culpa, em suma, aos novos e antigos pobres que Jesus declarou bem-aventurados.

A outra constante é a celebração da Eucaristia. Nesta teriam que poder participar ativamente, sobretudo, os que não importam a ninguém. A máxima da reforma litúrgica do Concílio foi a participação dos fiéis. Uma Eucaristia fraternal, na qual haja espaço para a expressão de todas as pessoas e as mais diversas vidas, antecipa a comunhão entre “todos” os seres humanos.

A única Igreja que vale a pena ter futuro no Chile é aquela na qual seja possível que o Evangelho seja comunicado como uma experiência daquele Jesus humilde que congregou amigos e amigas para dar a vida pela humanidade. Poderá a Igreja chilena libertar-se da marca clerical de cristandade que a tornou irrelevante, que, em vez de atrair as pessoas, as espanta? Poderá a Igreja renascer no mundo de hoje com cristãos – leigos, religiosos, sacerdotes – realmente convencidos do amor de Deus?

O êxito para os cristãos encontra-se após a morte. Antes da morte, creio que a Igreja deveria especialmente estabelecer as condições para que as novas gerações se encontrem com Cristo e O sigam com entusiasmo; para que se apropriem de Cristo do mesmo modo como Cristo se deixa apropriar por elas. O Evangelho só poderá ser transmitido se a Igreja estiver disposta a ser acolhida como protagonista e de forma realmente inovadora.

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