“Nunca houve tantos escravos como hoje”

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05 Fevereiro 2017

“A escravidão foi abolida há dois séculos, mas de fato nunca tivemos tanta escravidão como hoje, e nunca os escravos custaram tão pouco; a vida humana vale menos”. Com estas palavras, a Irmã Gabriella Bottani descreveu, em síntese, o fenômeno do tráfico de pessoas em nível mundial durante o Seminário “São crianças, não escravos!”, que aconteceu na Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma. A jornada de estudos fez parte dos preparativos (repletos de iniciativas) para o Dia Mundial de Oração contra o Tráfico de Pessoas, instituído pelo Papa Francisco, que será no próximo dia 08 de fevereiro.

A reportagem é de Francesco Peloso e publicada por Vatican Insider, 03-02-2017. A tradução é de André Langer.

A Irmã Gabriella é a coordenadora da rede contra o tráfico de pessoas Talitha Kum, promovida pelas congregações religiosas femininas em todo o mundo. Trabalhos pesados como os das minas ou na construção civil, o “cibersexo” (exploração sexual virtual), a pesca nos países mais pobres, são algumas das atividades nas quais os menores são utilizados, inclusive crianças pequenas: “os pais que não têm nada – explicou a Irmã Bottani – muitas vezes caem na tentação de vender os próprios filhos”.

As atividades das redes das religiosas suscitaram, um pouco por vez, uma nova atenção, inclusive dentro da Igreja, para o problema: os episcopados, antes indiferentes ou frios, agora estão começando a se mexer, começando justamente pelos da África. “Nós dizemos – explicou a coordenadora da Talitha Kum – que nos encontramos em uma fase de maior consciência e maior compromisso. Por exemplo, na África do Sul, tanto os bispos como os religiosos, têm programas específicos e um escritório voltado para o trabalho contra o tráfico de pessoas. Em nível mais geral, houve um maior compromisso graças ao trabalho integrado realizado pelos dicastérios vaticanos, pela Caritas Internationalis e pela Talitha Kum para sensibilizar as Igrejas. Este ano, o Dia Mundial de Oração, que para nós é um espaço de sensibilização, está se tornando ainda mais importante, pelo que também há uma maior disponibilidade por parte dos bispos. Em setembro do ano passado, houve um congresso na Nigéria em que todas as conferências episcopais foram chamadas a participar; e, por conseguinte, encontramo-nos em um processo de maior envolvimento”.

Também o Vaticano está se movendo na mesma direção, como explicou o cardeal Peter Turkson, prefeito do novo Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral, que participou do encontro. “É um problema que sempre acompanhamos, mas agora criamos um escritório no dicastério especificamente para a questão do tráfico de pessoas. Mas, além disso, creio que o mais importante é ver como os bispos locais estão se comprometendo. Há três etapas que devemos ter em conta: a saída do próprio país das pessoas que são objeto do tráfico de pessoas, a viagem que fazem e a chegada; e nestes três momentos a Igreja pode estar presente para ajudar as crianças”. “Em primeiro lugar – afirmou Turkson –, tratando de deter o tráfico, impedindo que saiam dos seus países; a primeira coisa a se fazer, neste sentido, é ajudar para que os pais tenham um trabalho, para evitar que se livrem da responsabilidade dos filhos. O problema, portanto, está vinculado com a pobreza”. “Nós – acrescentou – devemos mudar o paradigma do desenvolvimento, devemos construir um novo paradigma para poder enfrentar estes problemas”.

“Eu sei que na Nigéria, Guiné e Gana – prosseguiu o cardeal deste último país – os episcopados estão comprometidos no enfrentamento do tráfico de pessoas, e o fazem em alguns casos colaborando com a polícia, porque o trabalho das forças da ordem é muito importante. Os bispos podem fazer algumas coisas, mas há um limite para o que se pode fazer com a palavra; às vezes, é necessário que se coloquem em jogo as forças da ordem. Este é um discurso que também vale para os países de chegada; já tivemos encontros com a polícia de Londres e com os bispos, porque é necessário trabalhar com as forças da ordem.

Esta última é uma questão que também as religiosas enfrentam: “Em diferentes países africanos – observou a respeito a Irmã Grabiella Bottani – as nossas redes da Talitha Kum já colaboram com as forças da ordem e com as instituições; isso acontece na Nigéria, Burkina Faso; e estão sendo criados espaços em Moçambique para trabalhar com o tráfico de pessoas, que, neste caso, afeta as crianças albinas utilizadas para o tráfico de órgãos. As religiosas comprometidas neste setor começaram também uma atividade para formar os quadros da polícia. Na África do Sul ou na Zâmbia, esta colaboração existe; claro, o que temos de forma embrionária devemos, agora, fortalecer e promover em uma escala maior”.

Naturalmente, a atenção que o Papa Francisco dá aos problemas do tráfico de pessoas e da escravidão, foi um apoio para o trabalho das religiosas. O Papa falou muitas vezes desta praga em público e em vários documentos. “O compromisso do Papa Francisco é um chamado constante – segundo a Irmã Bottani – para que todos os bispos saiam da inércia; além disso, há cada vez mais religiosos africanos que querem comprometer-se na África e com a África com uma real transformação, e começar um caminho tanto de reflexão como de ações principalmente preventivas”. Em nível prático, operacional, há algumas prioridades: “É preciso cuidar das realidades profundamente feridas, porque o tráfico de pessoas que nós conhecemos na Europa é apenas uma pequena parcela do fenômeno; a maior parte é interna à própria África”. “Então – esclareceu a religiosa – devemos descobrir maneiras de oferecer caminhos de reinserção e de desenvolvimento para essas pessoas”.

A este respeito, a educação e a sobrevivência econômica são os dois lados da mesma moeda. “Em seguida vem a transformação da mentalidade. Devemos trabalhar a médio e longo prazo para incidir verdadeiramente, porque se uma pessoa continua a pensar, por exemplo, que a única possibilidade de vida que existe é fora do próprio país e que dentro não há nenhuma possibilidade, nunca irá agir para transformar a realidade em que vive”.

Mas há um problema relacionado com a demanda dos países ricos, por exemplo, no âmbito da exploração sexual. “A demanda nos países ricos – disse-nos a Irmã Bottani – é um problema muito sério. Os projetos educativos não servem apenas para prevenir, mas para colocar a questão da educação sexual”. “Em um encontro recente, em relação à área que se estende entre o Marrocos e a Espanha, observou-se que cada vez mais clientes são adolescentes. Então devemos educar seriamente não apenas em relação àqueles que são “traficados”, mas também aqueles que promovem a demanda. Tudo isto faz parte de uma crise das relações. Nosso mundo individualizado nos levou a romper as relações, mas nós somos necessitados de relações e afetos”.

O poder e o dinheiro transformaram-se em instrumentos indispensáveis nas relações humanas, “porque, ao final, eu posso comprar a relação por meio de uma transação que faço como cliente indo com uma adolescente ou com uma criança. Dessa maneira, eu compro e não me comprometo, e depois volto para a minha casa. Então, devemos ver como podemos ajudar a reconstruir as relações que nos prometem crescer na beleza que o outro ou a outra pode ser na minha vida”.

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