Necessitamos de jovens problemáticos: Jesús Martín-Barbero

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03 Fevereiro 2017

Com quase 80 anos, o acadêmico é categórico ao criticar as políticas educativas do governo de Juan Manuel Santos e ao afirmar que elas não contribuem para a paz, nem refletem as necessidades dos jovens. Da mesma forma, segundo ele, ocorre com as escolas.

Jesús Martín-Barbero diz que existem armadilhas no sistema de ensino que não tem permitido o país entender os jovens.

A entrevista é de Gustavo Torrijos, publicada por El Espectador, 31-01-2017. A tradução é de Henrique Denis Lucas.

Jesús Martín-Barbero recorda o momento, nos anos 60, em que Manuel Marulanda Vélez, mais conhecido como 'Tirofijo', declarou Marquetalia, Riochiquito, El Pato e Guayabero como zonas livres da América. Ele se encontrava na Universidade Nacional e o furor revolucionário fazia parte da vida estudantil.

Desde aquela época, Martín dedicou-se a estudar as transformações culturais e é testemunho das mudanças ocorridas na Colômbia. Em Cali, fundou o Departamento de Comunicação da Universidad del Valle, onde trabalhou de perto com referências da cultura calenha como o escritor Andrés Caicedo e o cineasta Carlos Mayolo. "Eu me apaixonei pela juventude de Cali", diz ele. No entanto, teve de deixar essa cidade, em 1996, porque as pressões do Cartel do Vale do Norte assombravam a universidade.

Martín não é politicamente correto. Afirma que na Colômbia "existem escolinhas para formar jornalistas, mas que ainda falta-lhes muito para ter um país". Criticou as posições da esquerda, frente à cultura, e conta que teve problemas com os governos do século XX "por pensar com minha própria cabeça", diz ele. Além disso, entre 2000 e 2003, teve que se exilar no México.

Sua produção tem girado em torno de dois temas: a juventude e a cultura. Seus livros são consultados nas faculdades de jornalismo e de trabalho social em todo o país. À beira de completar 80 anos, está para publicar um novo livro sobre a juventude.

Este novo texto, que estaria pronto em abril 2017, será lançado em um momento em que a juventude começou a reclamar por espaços na construção da paz. Isso está ocorrendo logo após os resultados do plebiscito para referendar o Acordo de Havana entre o governo colombiano e os guerrilheiros das FARC.

Os jovens começaram a tomar as ruas de várias cidades pedindo que o seu lema de paz não fosse esquecido devido à vitória do Não. Desde então, estão pedindo rapidez no cumprimento do acordo feito entre o governo e os guerrilheiros. Por sua vez, reúnem-se na Praça Bolívar, em Bogotá, para exigir que o processo de diálogo com o ELN comece o mais cedo possível.

Jesús Martín-Barbero caminha lentamente, mas seu tom de voz é enérgico. "Quando alguém está velho, regular é o melhor que se pode estar", ele brinca. Este espanhol chegou à Colômbia em 1963, foi-se em 68, e regressou em 72. Voltou a buscar a mulher que se tornaria sua esposa e com quem criou raízes e teve dois filhos.

Nesta entrevista ele fala sobre o que o país tem de mudar para que a "paz" dialogue com os jovens.

Eis a entrevista.

Como você sente que as universidades estão preparando os jovens para este momento histórico em que se começa a falar, inclusive, em pós-conflito?

A verdade é que os jovens não são uma referência para as universidades, pois são estudantes. A palavra aluno está acima de criança, adolescente e jovem. Peço perdão à Gina Parody, pois ela não foi inteirada disso. Em suas reformas pretendidas, não tomou conhecimento do que são as escolas realmente. Os professores não são capazes de entender nem às crianças, nem aos adolescentes, e muito menos aos jovens. Há uma grande ignorância do que está acontecendo no mundo jovem. Há um amontoado de clichês religiosos e psicológicos que vêm a calhar para acalmar a consciência dos pais e dos professores.

A classe média na Colômbia recém ascendeu e tem muito medo de descer novamente, então aposta que suas crianças, com o maior amor do mundo, saltem e possam ir mais longe do que eles. O êxito social é a obsessão. Aí está uma armadilha que está sendo feita ao país.

Existe uma certa consciência ruim de que o país não esteja entendendo seus jovens e por isso houve toda essa problemática educativa, prejudicada pelo absurdo do relatório PISA (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes). Eles nem sabem o que é o PISA: é uma empresa privada, não é pública! Depende de um conglomerado de empresas privadas. Existe um documento contra o relatório PISA assinado por centenas de pesquisadores europeus e gringos, mas neste país ninguém o leu.

Como sair dessas armadilhas para tornar a juventude um setor social que impulsione a construção da paz?

O principal lugar para isso é a escola, o sistema educacional. Por esse motivo sou muito duro em minha crítica, pois as duas primeiras ministras de Juan Manuel Santos não tinham nada a ver com a educação, e a última é uma senhora que trabalhou metade de sua vida no exército, que é a instituição mais retrógrada e inculta que já existiu.

Os fundamentos para a compreensão do universo dos jovens estão na escola e nas mudanças de costumes. Não estou dizendo que os professores não querem compreender os jovens, a questão é que eles não estão lá para entendê-los, estão lá para fazer o que o Estado ordena.

Neste momento estou trabalhando com um pequeno grupo da Secretaria de Educação de Bogotá na formação de professores, e isso faz com que eles mudem de frequência. Por mais que o sistema do Estado conceba os programas, eles precisam assumir a transformação destes programas para que realmente sirvam a um propósito para a vida das crianças e dos jovens como sujeitos humanos. Isso significa que esses jovens têm vida própria, que há coisas que eles gostam e coisas que eles odeiam.

Na Colômbia, os jovens tem sido negligenciados como sujeitos?

A prova que tenho de que neste país não são formados sujeitos é que as pessoas não aprendem a escrever, aprendem a fazer tarefas, mas não a escrever, não a contar histórias, pois não sabem como contar suas próprias vidas. Entram para a universidade e perguntam-lhes de onde eles vêm, mas não sabem como responder. Seus pais e seus avós são apenas isso, a memória. Um mínimo de memória.

Você fez um chamado para colocar o presente dos jovens na história. Estamos em um momento histórico em que necessitamos começar a construir a memória, então, como unir o seu chamado a essa construção de memória que estamos por começar?

Essa é uma das questões mais importantes da minha vida. Nasci em uma Espanha que estava em guerra e vivi as transformações da memória. Ou seja, recordávamos o que havia antes da guerra e o que poderia ser recordado do momento posterior a ela, porque tivemos 50 anos de franquismo.

Os historiadores estudam a história de trás para a frente. As crianças, os adolescentes e os jovens estudam-na a partir do seu presente. Para que a história se converta em memória da juventude é necessário partir de seu presente. É necessário colocar o presente na história e isso a escola nunca fez.

Os professores teriam que escrever sobre a memória das crianças. A partir daí poderíamos começar a saber para onde vamos. Se fossemos capazes de começar as aulas dizendo de onde eu venho, de onde você vem. Tornar isso comum é transformar um monte de estudantes em uma escola de aprendizagem mútua. O que você é, é resultado de algumas culturas, de algumas memórias.

Existe muito medo de mostrar às crianças e adolescentes as atrocidades que foram cometidas no país. Qual é a sua opinião sobre isso?

Penso que não é apenas medo, é não entender o que é um país exatamente. Um país é uma história em comum e essa história tem um monte de relatos. Descobri que "contar" é a palavra mais importante da língua espanhola e de todos os idiomas. Contar significa contar histórias, contos, saber narrar, saber contar. Em segundo lugar, "contar" é contar ou não com o outro, e isso é vital nas relações sociais. Finalmente, fazer contas, "contar" é calcular números.

É preciso aprender a contar com suas próprias palavras. O que você viveu, ninguém mais pode contar. Há de se aprender a contar a sua história para ser levado em conta e também fazer contas para a reparação.

Você acredita que na Colômbia foi construída a memória excluindo a juventude?

Essa é a pergunta de milhões de dólares: o que os jovens têm a ver com a memória de hoje? Primeiro, com a memória do país. A memória do país está, em grande parte, nos romances, nos contos e nos relatos. Lá estão e lá seguirão estando. Gabriel García Márquez é um memorialista, pois ele fez do país memória.

Não que este país não tenha memória. Em termos de relatos, sim, houve. Mas não no povo. Hoje, o que o país está descobrindo é que as pessoas têm direito à memória e que essa memória seja levada em conta para fazer coisas com as pessoas. Que seja com ela, não utilizando-a, mas contando com ela, pois dessa forma há uma mudança radical.

Que espaço os jovens têm nesse movimento?

Eu diria que, primeiramente, eles são sujeitos e não somente um objeto sobre o qual pode-se contar coisas. São os jovens aqueles que têm de contar seus contos, suas histórias. Ninguém pode fazê-lo por eles. Nem tudo precisa ser escrito, existem muitas maneiras de contar agora. Para minha saúde mental, não estou no Facebook, porque só com os e-mails já tenho essa possibilidade. O dia que você me escreveu, também me escreveram outras seis ou sete pessoas e não convidei ninguém, não sei por que te convidei. Na verdade li algo que pareceu-me distinto, mas poderia ter se encaixado de acordo com o humor que tenho a cada manhã, quando me levanto.

Os jovens são os mediadores entre o que está acontecendo na escola e o que está acontecendo na sociedade. Mas a escola tem que assumir que os jovens são capazes de contar a sua memória, sua história, sua família, seu bairro, seu país. Mas de qual país os jovens falam? Onde estão aqueles que fazem livros com os relatos de gente jovem? O lugar onde isso poderia ser cozinhado de maneira a ter sentido é retirando-o da palavra tarefa. Isto não se faz por intermédio de tarefas. Onde a escola está desenvolvendo pessoas criativas e inovadoras? Em países onde a escola não é um somatório de tarefas, mas dimensões de vida com projetos.

Qual foi a sua sensação após o plebiscito, quando os jovens convidaram as pessoas a marchar e as ruas foram tomadas?

O que para mim foi lindo, foi o fato de que estavam nas ruas jovens, velhos, índios e inclusive pessoas enfermas dos hospitais, que pediam por ajuda. Lá estava um país pequeno, mas enormemente diverso e criativo. Foi realmente um movimento político em seu sentido mais profundo.

Foi uma surpresa para todos, porque esse país não existia, não era visto já há algum tempo. Sinto que os jovens colocaram a primeira pedra e, em seguida, deram continuidade. Foram eles que levaram o país a caminhar.

Você disse que o Ocidente se ferrou quando a diversão deixou de ser importante para a educação. Ao que você se referia com isso?

A um simpósio ao qual fui convidado, em Barcelona, deparei-me com um sociólogo alemão, que ficou em silêncio durante a metade da conferência e gritou "Quando o Ocidente se ferrou?", e ele próprio se respondeu "Quando separou o trabalho da diversão".

Houve um tempo em que trabalho e diversão estavam juntos e isso tinha a ver não apenas com a produção, mas com a criação que está relacionada muito mais com brincadeiras do que com outras coisas. Começando a partir do fato de que as crianças brinquem com seu corpo, o que elas podem fazer com o corpo? Pecados. Nascemos em igrejinhas católicas que nos trancafiaram a partir de diversos medos, porque o corpo era perigosíssimo, tanto o sexo quanto a imaginação eram os inimigos do mundo e da sociedade.

O ocidente perdeu a capacidade de pensar o seu próprio sentido: para onde está indo, o que quer, o que está fazendo. Donald Trump é um primeiro ponto de chegada para isso que começamos a perceber já há algum tempo. Gerentes são formados, ou seja, alguém que sabe como fazer as coisas, mas não sabe de fato, pois é um conhecimento instrumental. Não é um saber corporal, de bairro, de cidade, de país, não. É um conhecimento instrumental, assim que coloquemos um monte de títulos.

Um exemplo…

Estou pensando que o que estamos experimentando hoje é uma mutação à nível mundial, especialmente no Ocidente, uma mutação cultural. A modernidade foi uma época na qual a sua chave era o progresso. Foi muito bom porque a modernidade foi a liberação de muitas coisas: liberdade e criatividade. Isso ocorreu gradualmente.

O fenômeno jovem é estratégico para compreender a mutação. Quem está vivendo a mutação e, de alguma forma, desfrutando dela, são os jovens. A mutação tanto no sentido de transformação dos modos de escrita, leitura e diversão, de tudo. Está sendo mudado o jogo, portanto, está sendo alterada a chave da vida.

O conto se trata disto, se quisermos entender o mundo dos jovens temos que pensar sobre esta palavrinha, pois há uma mutação cultural, como se houvesse uma mutação genética.

Essa mutação cultural vai até aonde?

Não vai para apenas um lugar. Por exemplo, hoje as roupas são outra coisa. As roupas para os jovens são coisas bem diferentes do que foram para os seus pais, e não quero dizer que os jovens não tenham vaidade. O sentido da moda mudou.

Como a paz pode aterrissar nas escolas?

Perguntando às crianças, aos adolescentes e aos jovens sobre o país do qual eles vêm. Construindo com eles sujeitos problemáticos e complexos que são os sujeitos verdadeiros. A escola deve se conectar com as mudanças exigidas pelos alunos e trabalhar para construir uma imagem de um país que tenha a ver com eles e que conte com eles, todo o resto será muito passageiro.

O alvoroço que aconteceu com a educação, com as ministras de Santos, não se tornará nenhuma memória. Para que a escola gerencie as memórias, deve começar por saber do que estamos falando, porque a maioria dos professores pensa que quem possui memória mesmo, são os mais velhos. Já não há mais história da Colômbia nas escolas, o que me parece ser atroz, porque eles não têm ideia do que foi feito em seu país. Na maioria das casas deste país não há livros, então, os jovens não saberão de onde vieram, e se não se sabe de onde vieram, muito menos saberão para onde vão.

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