Leigos “em saída”: por um laicato adulto e minoritário. Artigo de Franco Ferrari

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02 Fevereiro 2017

“Muitos grupos leigos desenvolvem atividades de animação bíblica e espiritual, de cultura teológica ou de animação eclesial, e são sensíveis a uma visão eclesiológica participativa, poderíamos dizer sinodal. Trata-se de realidades que vivem e operam em nível de base, de povo, um universo um pouco borderline que opera mais na praça da igreja do que na sacristia.”

A opinião é de Franco Ferrari, presidente da Associação Viandanti, em artigo publicado na revista Coscienza, n. 3/2016, publicação trimestral do Movimento Ecclesiale di Impegno Culturale (Meic). A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Il brutto anatroccolo [O patinho feio] é o título de um ensaio sobre o laicato católico italiano escrito por Fulvio De Giorgi. Tendo aparecido nas livrarias há oito anos, ele ainda é de grande atualidade. Mesmo na Igreja de Francisco. O autor, como estudioso de Rosmini, indica as cinco chagas que afligem o laicato, e a quinta em particular - “carência da dignidade fraterna do leigo”, isto é, a incapacidade de saber “transformar em realidade de vivência eclesial a plena igualdade batismal de todos os cristãos, homens e mulheres, superando todo paternalismo e toda forma de persistente clericalismo” (p.105) – indubitavelmente tem muito a ver com a afonia duradoura dos leigos dentro e fora da Igreja.

O obstáculo do clericalismo

Os leigos e a sua posição na Igreja são objeto de frequente atenção nos discursos e nos documentos do bispo de Roma. É interessante notar que a questão é, muitas vezes, senão sempre, conectada a outra: o clericalismo. Ao Papa Francisco, parece que os dois temas não podem ser tratados separadamente: “Não podemos refletir sobre o tema do laicato ignorando uma das maiores deformações […] o clericalismo” [1]; “Na maioria dos casos, trata-se de uma cumplicidade pecadora: o padre clericaliza, e o leigo lhe pede, por favor, que o clericalize, porque, no fundo, lhe é mais cômodo” [2]; conceitos retomados no discurso de abertura da 68ª Assembleia Geral da Conferência Episcopal Italiana, quando ele relembra a exigência de “reforçar o indispensável papel dos leigos dispostos a assumir as responsabilidades que lhes competem”, os quais, para fazer isso, “não deveria precisar do bispo-piloto, ou do monsenhor-piloto, ou de um input clerical” [3].

O ruído do silêncio

Sobre a valorização e a importância dos leigos, desde o Vaticano II, não se economizou tinta na produção de documentos, mas, no plano concreto, a questão não deu novos passos. Em pelo menos três passagens oficiais ou de estudiosos, podemos encontrar uma admissão “certificada”.

“O lento caminho de difusão da igual dignidade de todos os batizados encontra as suas razões na carência em torno do estatuto teológico do leigo”, escreve a Conferência Episcopal Italiana na sua contribuição para o Sínodo sobre os Leigos de 1987 [4]; o sociólogo Garelli, na conferência ao 3º Congresso Eclesial de Palermo (1995) observa que, nas comunidades eclesiais, “sobre muitas questões decisivas”, gerou-se “a prática do silêncio, um grande frio, para evitar que o debate e a dialética interna colocassem em discussão a matriz religiosa comum” [5]; mais uma confirmação, e muito pontual, é fornecida por Xeres [6], citando uma contribuição de Giuseppe Savagnone na revista Aggiornamenti Sociali: “[Os leigos] nem sempre conseguem estabelecer uma real comunicação com o pároco e com o bispo. Sobre os problemas mais relevantes, eles têm a impressão de que a sua opinião não importa nada, mesmo quando ela é oficialmente solicitada”.

A fragmentação

A grande renovação trazida pelo Concílio não parece ter sido suficiente para realinhar a Igreja com as mudanças da sociedade, quase confirmando aquilo que, muitos anos depois, Carlo Maria Martini diria: “A Igreja ficou 200 anos para atrás”. De fato, nos anos imediatamente posteriores ao Concílio, iniciou-se uma agitação interna à Igreja, que assumiria formas diferentes e desembocaria na crise das associações católicas oficiais ou promovidas pela hierarquia, na contestação e na dissidência eclesial, em um distanciamento que assumiu, ao longo do tempo, uma ampla gama de nuances.

Ao lado do fenômeno mais conhecido dessa fragmentação, o das comunidades de base, pouco a pouco, nasceram muitos outros grupos e realidades que se movem com grande autonomia em relação às paróquias e às iniciativas mais oficiais. Um universo definido, ao longo do tempo, de diferentes maneiras: os católicos “não alinhados”, da “dissidência”, da “fermentação”, do “desconforto”.

A exigência de olhar longe

Muitos desses grupos desenvolvem, com caráter de estabilidade, atividades de animação bíblica e espiritual, de cultura teológica ou de animação eclesial, e são sensíveis a uma visão eclesiológica participativa, poderíamos dizer sinodal. Trata-se de realidades – mais ou menos estruturadas, maiores ou menores – que vivem e operam em nível de base, de povo, que, em muitos casos, interceptam aquela porção do Povo de Deus que não participa, por motivos diversos, da vida das associações ou dos movimentos reconhecidos, das paróquias; em suma, um universo um pouco borderline que opera mais na praça da igreja do que na sacristia.

Uma “distância” que permite permanecer às margens dos mecanismos institucionais, garantindo uma liberdade de escolha e de ação que assegura a possibilidade de explicar plenamente a própria responsabilidade de leigos adultos, seja dentro da vida da Igreja, seja no compromisso com a “animação das realidades terrenas”, sem a necessidade do “monsenhor-piloto”.

Outra causa dessa busca de autonomia, sem dúvida, é o restrito horizonte das realidades paroquias. A sua vida é muito autocentrada; a propósito, é de se destacar aquilo que Dom Galantino disse aos participantes do Festival da Azione Cattolica dei Ragazzi: “Não basta estar na paróquia. É preciso aprender a ver com os próprios olhos e com o próprio coração o que há ao redor da paróquia e também o que há longe. [...] Fora da paróquia há muitas coisas boas que podem fazer vocês crescerem” (10-09-2016; Agência SIR).

Para romper o silêncio

Dessa realidade fragmentada, com tantas presenças vivas, animadas e puntiformes, foi tentado um inventário [7], mas eu diria que o empreendimento é quase impossível. Muitos fazem coisas também de valor, mas todos estão isolados, e o seu agir normalmente não supera o nível territorial, não gera opinião na realidade mais ampla da Igreja italiana e, muitas vezes, da Igreja local.

Porém, é preciso observar que a “distância” de que se falou mais acima é recíproca. A instituição (párocos, bispos) também não estabelece relações, não considera essas realidades que, provavelmente, criariam algumas dificuldades por não serem enquadráveis nos planos pastorais, por manifestarem opiniões e posições autônomas demais e/ou críticas demais, por não pedirem autorizações prévias.

No entanto, muitíssimos participantes desses grupos têm uma passagem pelas associações católicas, continuam estando presentes individualmente na vida paroquial; em muitos casos, também são presbíteros.

O faro do rebanho

Na variedade das iniciativas, é possível captar algumas constantes, e pode ser útil considerá-las brevemente, sem a pretensão da completude:

a) os congressos, muitas vezes, dizem respeito a temas de fronteira ou pouco frequentados em nível oficial;

b) as iniciativas são caracterizadas pela pluralidade das vozes de orientação e pertencimento diversos;

c) publicam revistas de debate, mas que permanecem de nicho (por exemplo: Esodo, Tempi di Fraternità, Il Gallo, Koinonia, L’Altrapagina, Matrimonio, Oreundici etc.);

d) animam encontros de caráter bíblico e teológico;

e) apresentam e aprofundam criticamente os documentos mais importantes do magistério;

f) fazem a memória de figuras e momentos significativos da vida eclesial (ex:. Romero, Mazzolari, Battistella, Bachelet, Vaticano II, João XXIII, Martini etc.).

Em suma, se poderia dizer que essa também é uma expressão do faro do rebanho de que fala o Papa Francisco. Uma atividade que podemos definir como de busca, com um olhar que vai além do contingente, que geralmente não diz respeito à tradução do tema pastoral anual ou dos planos pastorais (talvez aqui está a reserva em relação a eles).

Fazer rede

Realidades tão fragmentadas, frutos de percursos e de histórias muito diferentes, dificilmente são homologáveis nas tradicionais formas associativas. A rede, pela sua natureza de conexão ágil sem formalizações, que respeita as várias identidades, parece ser o instrumento que pode permitir que se criem as condições para um salto de qualidade, para adquirir visibilidade e para contribuir com uma opinião pública responsável dentro da Igreja italiana.

Com essa direção comprometeu-se, há alguns anos (2010), a Associação Viandanti (www.viandanti.org), dando origem a uma rede homônima que organiza congressos nacionais bienais, que começou a se encontrar com os bispos disponíveis para apresentar o seu ponto de vista sobre diversos problemas da vida eclesial, de acordo com o que é sugerido pela LG 37.

Nestes anos, outras duas experiências foram assinaladas como momentos de aglutinação desses grupos. Trata-se de Il Vangelo che abbiamo ricevuto (de 2009 a 2014, organizou seis congressos sobre os temas da transmissão da fé) e de Chiesa di tutti, Chiesa dei poveri (de 2012 a 2015, organizou quatro assembleias-congressos para reler o Vaticano II e os seus documentos).

Um recurso

Sem dúvida, estamos falando de uma realidade minoritária que, mesmo assim, com as iniciativas e as publicações, alcança ambientes nem sempre tocados pela pastoral comum e muitos que, muitas vezes, estão em busca. Trata-se de um recurso que poderia ser valorizado sem tentar homologá-lo.

Para iniciar esse caminho, porém, é preciso estar atento a vários elementos. É preciso superar as desconfianças e o temor do conflito. Francisco, na Evangelii gaudium (226-230), sugere aceitá-lo e saber governá-lo. É preciso pôr-se na ótica de um diálogo em igualdade e instaurar uma comunicação real: o encontro é com leigos conscientes que se colocam os problemas da Igreja, não com crianças. É preciso adquirir a ótica do trabalho de grupo e saber estar em um plano de igualdade. Não por último, talvez seja preciso tomar consciência de que esses grupos são, no fim das contas, associações privadas de fiéis que podem se organizar com grande autonomia.

Trata-se de um estilo novo que todos devemos aprender, mas poderia ser um dos muitos caminhos que uma “Igreja em saída” deve tomar e saber percorrer.

Notas:

1. Carta ao presidente da Pontifícia Comissão para a América Latina, 19 de março de 2016.
2. Discurso aos bispos responsáveis do CELAM, Rio de Janeiro, 28 de julho de 2013.
3. Discurso na abertura da 68ª Assembleia Geral da Conferência Episcopal Italiana, Roma, 18 de maio de 2015.
4. Ver Il Regno Documenti de 1987, p. 589.
5. F. Garelli. Credenti e Chiesa nell’epoca del pluralismo. Bilancio e potenzialità. Il Regno Documenti, 1995, p. 655.
6. S. Xeres; G. Campanini. Manca il respiro. Milão: Ancora, 2011, p. 79.
7. V. Giant; L. Kocci. La Chiesa di tutti. Milão: Altraeconomia, 2013.

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