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25 Janeiro 2017

Ex-reitor da Faculdade de Arquitetura (UBA) reflete sobre o Cantri (nome surgido do estrangeirismo "country"), cidade construída pela organização liderada por Milagro Sala, e define-o como uma experiência onde "a habitação foi trabalhada como sendo um problema integral de inclusão".

A entrevista é de Alejandra Dandan, publicada por Página/12, 24-01-2017. A tradução é de Henrique Denis Lucas.

"Se este governo compreendesse, a experiência do bairro Túpac lhe traria muitas contribuições, porque o que a organização fez foi tornar realidade os objetivos do milênio estabelecidos pela Unesco". Jaime Sorín é arquiteto, ex-reitor da Faculdade de Arquitetura da Universidade de Buenos Aires (UBA), e nesta entrevista reflete sobre a cidade construída pela organização da líder Milagro Sala, em Alto Comedero: o Cantri do Túpac Amaru, visitado por especialistas europeus - conta ele - que o enxergaram como um possível modelo de cidade pós-capitalista. A rede de casas, conjuntamente a uma escola, um centro comunitário, um centro de saúde e um parque aquático, tem como mirante a réplica do templo de Kalasasaya, espaço sagrado das comunidades Aymara, na Bolívia. Sorín está convencido de que esse ponto no alto do vale também explica por que motivo foi possível fazer essa cidade. "Ao transformar um instrumento de política de moradia em 'outra' política, que colocava o foco na defesa dos direitos sociais e econômicos de sujeitos até então estigmatizados por uma ordem hierárquica, étnica e social, o Túpac impôs o direito à cidade como um espaço socialmente compartilhado, introduzindo a possibilidade de construir uma cidade em que todo mundo tenha o direito de transformá-la para viver dignamente", disse Sorín.

Eis a entrevista.

Qual foi sua primeira impressão no bairro?

Foi uma surpresa encontrar uma estrutura urbana nada comum em bairros tradicionais de planificação federal, concebidos como bairros-dormitório. Mas em um segundo momento, ao entrar no bairro não apenas se vê um entrelaçado urbano, mas uma estrutura social que apoia um projeto de vida. Além de casas, foram construídas fábricas e oficinas que contribuíam para o surgimento das casas. Mas ao fundo, encontras o Parque dos Dinossauros, por exemplo, o que é realmente impressionante, porque ninguém espera que haja um parque de diversões para as crianças no meio de um bairro, com atividades para as famílias, com espaços repletos de sombra e quiosques para churrasco. E então, a enorme explanada de água, que não teve profissionais que a pensassem com o uso de geometrias. E ao subir ao templo, o que é visto lá de cima é notável, porque expressa sobretudo uma outra maneira de encarar a vida, que não é a dos profissionais, nem a do estado.

Deste lugar se enxerga o vale com os tanques de água com imagens de Túpac, Che e Evita. E também podem ser vistas as frases escritas nas paredes. Quando se entra na fábrica têxtil - onde existe uma disciplina de trabalho que muitas oficinas comerciais invejariam -, uma parede tem um enorme cartaz dizendo: camponês, o patrão não comerá mais de tua pobreza.

Tudo é extremamente impactante, uma cidade feita por pessoas desocupadas, porque o Colégio de Arquitetos cobrou honorários muito elevados e tampouco houve uma universidade para articular o trabalho. As pessoas se auto-formaram.

Agora há pouco você falava do templo. O que uma cidade está falando quando está atravessada por essa dimensão simbólica?

O Templo é o lugar de onde se enxerga a cidade. Mas também o local para celebrações (Nota do editor: Inti Raymi, o dia de Pachamama, entre outras cerimônias). Nesse lugar é que pude me dar conta por quais motivos este bairro pôde ser feito.

Quando você vê a planimetria de um bairro feito pelo Estado, você nota a mão do profissional. No entanto, aqui você nota a mão da vida. Surge uma escola. O centro social. O centro de saúde. Essa escola impressionante para aqueles que possuem capacidades distintas. E depois, os locais de trabalho. Creio que isso foi o que mais impactou lá fora, o que foi tomado como exemplo pelas revistas europeias.

Você contrapôs este modelo aos bairros-dormitório e ao paradigma habitacional, de pura construção por metros quadrados. Existem outros modelos assim?

Não. A partir dos bairros construídos pelos britânicos, temos os bairros-dormitórios, alguns um pouco mais integrados no tecido urbano, outros menos. Nos últimos 30 anos também foram construídos bairros periféricos com a lógica de operação imobiliária. Bairros nos subúrbios e no interior do país com moradias à mais ou menos três quilômetros dos centros. Quando as pessoas têm um problema de saúde, devem ir com urgência a uma cidade. O mesmo acontece com a educação. Isso começou a mudar nos últimos anos com o desenvolvimento dos centros de integração comunitária.

Quando você conheceu o bairro, falou de construção de cidadania.

É algo fundamental. Para uma pessoa que tem problemas de moradia, provavelmente, este não seja seu primeiro problema.

Para chegar a um problema de habitação é porque há muitos problemas anteriores: um problema de trabalho geralmente combinadas a questões de saúde e educação. O problema de habitação é o último elo de uma cadeia de problemas para uma pessoa que termina excluída. Por esse motivo discutimos a ideia de resolver o déficit habitacional a partir da construção de uma casa. Por isso, a experiência do bairro Túpac é também singular, pois a habitação foi trabalhada como um problema integral de inclusão. Nesse ponto podemos enxergar uma aposta na construção de cidadania por meio da inclusão. O bairro não resolve apenas a questão da moradia, resolve a questão da saúde, da educação, do trabalho. Quando tudo isto é reunido, a pessoa se sente incluída como cidadão. Nesse sentido, creio que se o bairro de Túpac fosse compreendido por este governo, esta seria uma grande contribuição, porque o que Túpac Amaru fez foi tornar realidade as Metas do Milênio que foram estabelecidas pela Unesco. Trata-se de oito pontos, entre eles, a habitação, a saúde e a educação. O trabalho não estava listado. O trabalho foi o nono ponto, incluído pelo governo nacional em 2004, como "trabalho decente". Os outros oito são monitorados pela Organização das Nações Unidas. E a verdade é que este é o único bairro, a única obra, que pode ter uma pontuação positiva em todos estes anos, uma vez que preenche os objetivos em sua totalidade. Isto é, é o único bairro que serviu muito, inclusive ao Estado. Com certeza, é verdade que o Estado construiu muito na última década, mas com a lógica habitacional: construir metros quadrados.

Você fala dos planos Procrear?

Tudo é metro quadrado. Apenas em 2009, quando surge o Programa de Interação Social e Comunitária, a necessidade de que os bairros contenham lógicas de integração começa a ser compreendida. Algumas reuniões dos ministérios foram feitas e alguns programas tiveram financiamento logo após entenderem que apenas com as moradias não poderia ser resolvida a emergência habitacional. A emergência não era apenas colocar um teto nas cabeças das pessoas, mas integrar as populações ao que são considerados os direitos dos cidadãos. A partir de 2009, o financiamento do Túpac veio no âmbito desse Plano que permitia pensar outro tipo de obras e habilitou a formação de cooperativas, porque as obras eram para as cooperativas.

No bairro Túpac as pessoas contam que no início não acreditavam no que eles iriam fazer.

Deram-lhes a primeira obra, mas lhes disseram: já sabemos que eles não vão conseguir, mas vamos dar-lhes seis meses para tentar. Eles conseguiram isso em quatro. Assim, o Governo notou que havia uma realidade diferente em Jujuy e continuou.

Essa é uma outra característica: o bairro foi construído com o financiamento do Estado, mas sem a sua intervenção. A comunidade organizou a produção com equipes de trabalhadores em um sistema diferente da lógica privada, para aproveitar melhor o tempo e os recursos despendidos. As economias produzidas por esta administração comunitária foram reinvestidas em outros tipos de obras. 

Então, por que a perseguição?

Tudo isso não é algo conveniente para as empresas. Isso cria-lhes um problema, porque mostra que tudo pode ser resolvido com um custo menor e bem mais rápido. Não convém inclusive para as burocracias estatais, porque lhes tira o poder.

Tampouco para os agentes imobiliários. Um dos maiores problemas é a gestão da terra. Quando as cooperativas se expandem, também discutem isso. E, obviamente, isto incomoda as empresas de construção de Jujuy. Restou para a comunidade de Túpac a sua enorme produção.

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