O Papa Francisco está lutando por padres casados?

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19 Dezembro 2016

Apenas algumas semanas após o fechamento do Ano da Misericórdia, a vida de seminaristas e sacerdotes homossexuais da Igreja Católica deu uma guinada em direção à falta de misericórdia.

A reportagem é de Jamie Manson, publicada por National Catholic Reporter, 16-12-2016. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

Como amplamente divulgado na semana passada, o Papa Francisco aprovou um documento chamado "O dom da vocação presbiteral"
que proíbe gays de participarem de seminários e de serem ordenados.

Ou, pelo menos, a maioria deles. O documento afirma:

"... A Igreja, embora respeitando profundamente as pessoas em questão, não pode admitir ao Seminário e às Ordens sagradas aqueles que praticam a homossexualidade, apresentam tendências homossexuais profundamente radicadas ou apóiam a chamada 'cultura gay'."

Embora o Vaticano deixe na imaginação o que precisamente é a 'cultura gay', as diretrizes sugerem que os seminaristas homossexuais que agirem como heterossexuais, esconderem sua sexualidade, reprimirem seus desejos sexuais e se opuserem a qualquer campanha pelos direitos LGBT podem ter uma pequena janela de oportunidade clerical.

As orientações demarcam, ainda, que "estas pessoas encontram-se, de fato, em uma situação que constitui um grave obstáculo a um correto relacionamento com homens e mulheres" e, portanto, "de modo algum se hão de descuidar as consequências negativas que podem derivar da Ordenação de pessoas com tendências homossexuais profundamente radicadas".

Se a Igreja tem mesmo um "profundo respeito" por eles, demonstra isso de uma forma bastante torta.

Menos divulgada na semana passada foi a homilia celebrada pelo Papa Francisco na Casa Santa Marta, no dia 9 de dezembro, um dia após o lançamento de "O dom da vocação presbiteral".

Embora Francisco pretendesse usar a sua mensagem para criticar "sacerdotes mundanos e inflexíveis", uma história misógina e homofóbica em seu texto pareceu amplificar a restrição de homens homossexuais à ordenação do dia anterior.

De acordo com a Rádio Vaticano, o Papa disse:

“Sobre rigidez e mundanidade, aconteceu há algum tempo, que veio a mim um Monsenhor idoso da Cúria, que trabalha, um homem normal, enamorado de Jesus e me contou que havia ido ao ‘Euroclero’ (loja de roupas do clero) para comprar algumas camisas e viu diante de um espelho um jovem – de cerca de uns 25 anos, segundo ele, o padre jovem ou prestes a tornar-se padre –, com uma manta, grande, larga, de veludo, com uma corrente de prata. E depois pegou o Saturno, chapéu clerical de abas largas, o colocou e ficou se olhando. Rígido e mundano. E o sacerdote - é sábio o Monsenhor, muito sábio – conseguiu superar a dor, e, com uma história de bem-humorada, acrescentou: “E depois se diz que a Igreja não permite o sacerdócio às mulheres!”.

Francisco descreve o monsenhor idoso como um "homem normal, um homem bom", talvez como um contraponto ao jovem anormal, 'almofadinha', vestindo-se em frente ao espelho. O monsenhor idoso é "apaixonado por Jesus" - o único homem, aparentemente, por quem um sacerdote deve se apaixonar.

O monsenhor fica tão angustiado por este jovem e vaidoso clérigo, conta Francisco, que a única maneira de aliviar a sua dor é fazer uma piada. Infelizmente, esta "saudável dose de humor" acaba ridicularizando as duas mais graves ameaças para o sacerdócio católico romano: mulheres e homossexuais.

Se o Papa estava simplesmente comentando sobre como a postura orgulhosa do rapaz era uma demonstração do poder corruptor do clericalismo, sua lição é válida. Mas, ao repetir uma piada que zomba da sexualidade do homem e menospreza a luta pela igualdade das mulheres na Igreja, o Papa revela um ressentimento preocupante de mulheres e homossexuais que querem servir à Igreja no ministério ordenado.

O final da história do monsenhor idoso é tão homofóbico quanto misógino. Caracteriza o comportamento feminino como vaidoso e afetado. E o pior de tudo é que sugere que a pior maneira de diminuir um homem é compará-lo a uma mulher.

É irônico que o Papa Francisco use uma história tão humilhante para falar de humildade e um tom tão julgador para condenar a rigidez. É estranho que ele critique um jovem padre mundano e pretensioso promovendo uma visão excludente e elitizada do sacerdócio.

Embora alguns possam argumentar que a piada foi duma observação improvisada, há muitos indicativos de que uma campanha mais calculada pode estar vindo por aí.
É interessante notar que, nesta mesma homilia, o Papa Francisco afirma que podemos saber "que tipo de sacerdote um homem é por sua atitude com as crianças".

"Se souber como acariciá-la, sorrir para ela, brincar... quer dizer que sabe que isso significa rebaixar-se e aproximar-se das pequenas coisas", disse Francisco.
Será que sua homilia sugere que homens e pais heterossexuais são os melhores sacerdotes?

O Papa nunca se intimidou em louvar a santidade da unidade familiar heterossexual. Ele considerou a família a "obra-prima da sociedade" e frequentemente nos lembra que Jesus "começa seus milagres com esta obra-prima, em um casamento, uma festa de casamento: um homem e uma mulher".

Nas últimas seis semanas, o Papa deixou sua visão do sacerdócio nitidamente clara. No dia 1º de novembro, ele confirmou a proibição da ordenação de mulheres e agora vem reafirmando a da maioria dos seminaristas homossexuais.

Todas estas pistas nos levam a questionar se Francisco está preparando os fiéis para um novo modelo de sacerdócio: em que homens jovens e casados podem se candidatar à ordenação.

Muitos lamentaram sua proibição de seminaristas homossexuais como uma traição de seu lendário "Quem sou eu para julgar?". Mas talvez Francisco tenha pautas muito maiores em andamento e sua necessidade desesperada de preencher as vagas ao sacerdócio esteja acima de qualquer desejo seu de ser mais gentil com os gays.

Talvez o movimento para rechaçar seminaristas gays seja parte de um esforço planejado para tornar a vida do seminário mais masculina e heterossexual, em uma nova safra de candidatos hetero.

O Papa indicou claramente que está aberto ao diálogo sobre padres casados.

No último agosto, Austen Ivereigh, do Vatican Insider, escreveu um ensaio declarando que "o próximo Sínodo provavelmente focará a ordenação de homens casados".

Ivereigh cita exemplos de grupos de homens casados com famílias, na África do Sul e em Honduras, que foram escolhidos por suas comunidades para ministrar no turno em que não estavam trabalhando em suas profissões.

"Francisco já deu muitos sinais de estar disposto a abrir a questão da ordenação de homens casados, até mesmo incentivando as igrejas locais a apresentarem propostas", escreveu Ivereigh.

Alguns teólogos argumentam que a mudança para um sacerdócio de homens casados é relativamente simples. Ao contrário da proibição da Igreja da ordenação de mulheres e de relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo, que são "doutrinas", o ensino do celibato é considerado uma "disciplina" e, portanto, mais fácil de mudar.

A Igreja institucional tem muito a ganhar em instaurar este sacerdócio. Obviamente, afastaria a crise iminente da falta de padres.

E também poderia servir como ferramenta de evangelização e de promoção da família, uma vez que um sacerdote e sua esposa seriam modelos dos papéis complementares dos gêneros, frequentemente elogiados pelo Papa. O marido seria o pai tanto da paróquia quanto da família, e sua esposa seria a mãe que cuida e alimenta.

Pode trazer de volta todas as famílias heterossexuais que se preocupam menos com a justiça com as mulheres e as pessoas LGBT e mais com poder se identificar com um padre que também é marido e pai.

Esta mudança certamente inspiraria doadores ricos que financiam causas buscando erradicar o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Eles podem ver padres casados como uma referência aos valores da família e do "matrimônio tradicional".

Muitos católicos por vezes se queixam de que os nossos jovens seminaristas celibatários são muito conservadores. Mas eles devem saber que há muitos jovens heterossexuais, católicos e conservadores, casados com mulheres igualmente conservadoras, dispostos a exercer o sacerdócio. E eles defenderiam com gosto os ensinamentos da Igreja sobre mulheres, complementaridade entre os sexos, questões LGBT e até mesmo contracepção.

Se o Papa começasse a ordenar homens casados, ele seria imediatamente glorificado pela maioria das pessoas como um grande agente de mudanças. Mas quando consideramos a reafirmação da proibição de seminaristas homossexuais e de mulheres ao sacerdócio, é preciso se questionar se essa mudança realmente traria progresso genuíno, ou ao menos justiça, para nossa Igreja.

Permitir sacerdotes casados representaria um grande salto à frente para os homens heterossexuais, mas muitos passos para trás para as mulheres e os homens homossexuais que se sentem chamados à ordenação ministerial em sua Igreja.

Os que incentivam o sacerdócio de homens casados têm que encarar a realidade de que estão, intencionalmente ou não, defendendo o avanço da dominação e o privilégio masculino e heterossexual na Igreja. O que pode parecer um passo adiante em nossa Igreja pode, no fim, criar um sacerdócio ainda mais excludente.

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