Para além de um veto aos homossexuais, uma visão integral da formação presbiteral. Entrevista com dom Jorge Carlos Patrón Wong

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16 Dezembro 2016

Para além de um veto aos homossexuais. A Santa Sé incentiva uma visão integral na formação dos futuros sacerdotes. Para isto, acaba de publicar O dom da vocação presbiteral, um texto de 90 páginas que constitui a ratio fundamentalis da instituição sacerdotal. Os elementos básicos que devem orientar a formação de presbíteros.

Embora o texto tenha reafirmado a explícita instrução de que se evite aceitar os gays nos seminários, na realidade aponta para algo mais. Foi o que explicou um de seus artífices, o secretário para os Seminários da Santa Sé, Jorge Carlos Patrón Wong. Em entrevista ao Vatican Insider, pediu para superar visões reducionistas e rótulos.

A entrevista é de Andrés Beltramo Álvarez, publicada por Vatican Insider, 14-12-2016. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

O que este novo documento propõe?

Inclui as principais linhas para a formação presbiteral nos seminários e também para os sacerdotes, porque uma das coisas originais deste texto é que une o caminho disciplinar desde o batismo, tudo o que uma criança e um jovem aprendem no seguimento de Jesus, a descoberta de sua vocação dentro da pastoral vocacional, sua formação permanente, na vida e ministério dos sacerdotes.

Como se chegou a sua redação?

Durante três anos, foram consultados cardeais, bispos, reitores e formadores dos cinco continentes, as congregações nacionais de seminários, todas as conferências episcopais do mundo e dicastérios da Cúria Romana. É um documento sinodal de amplo impacto.

Qual é a principal novidade?

A unidade, o fio condutor é ser discípulo e missionário de Jesus, até a certo ponto começar a se configurar com o coração do Cristo bom pastor, um bom pastor que está perto de seu povo, que é servidor, que é sacerdote, que faz de sua vida uma entrega de serviço e que conduz o povo com a sua simplicidade de vida. É um documento que reúne as experiências positivas da Igreja com a novidade pastoral que o Papa Francisco dá a esta Igreja próxima. O sacerdote de hoje conduz, mas também caminha com o seu povo, está a serviço do Evangelho, sempre deve estar muito perto de Deus e de seu povo. A unidade na vida do sacerdote é amar a Deus e a seu povo com toda a alma, com toda a vida, com todas suas forças.

Quando o documento foi publicado, a imprensa destacou que o Vaticano reafirmou seu veto ao ingresso de homossexuais nos seminários. O texto propõe algumas mudanças?

Não há mudanças no direito canônico, há uma continuidade ainda que, sim, exista uma novidade, que está no acompanhamento pessoal e no discernimento, pessoal e grupal. São temas que o Papa Francisco propõe. A partir daí, busca-se fazer avaliações que incluem a vida afetiva, a vida humana, de relações, a vida espiritual, o valor apostólico e o intelectual, mas de uma maneira integral. Desse modo, evitamos reducionismos, visões curtas. Infelizmente, as pessoas que não estão trabalhando na formação sacerdotal podem ter visões reducentes e temáticas. Centrar-se nesta da homossexualidade é isso. Nós desejamos uma leitura mais ampla da pessoa que é chamada a ser um servidor de seu povo. Não podemos reduzir os candidatos a estes títulos e muito menos a quem experimenta um chamado de Deus para ser seu servidor.

Por que fazer o documento, se não são introduzidas mudanças?

Na realidade, existe toda uma novidade: pela primeira vez, integra a espiritualidade, a pastoral, o desenvolvimento humano, acompanhamento, discernimento, ciências humanas e experiências vividas. Um documento de 90 páginas, que contou com a contribuição de pessoas que vivem e trabalham, hoje, com aqueles que serão sacerdotes. Quando se lê o texto, se encontra refletido o sacerdócio de hoje e de amanhã.

Quais são os defeitos ou fracassos na formação de sacerdotes que o documento pode ajudar a sanar?

Todos, incluindo os jovens, vivemos em um mundo que reduz nossa vida a elementos que não são totais. Todos nós sofremos isto. São supervalorizados alguns aspectos da pessoa humana. A resposta dos seminários deve ser integral, todo o homem, tocado pela experiência humana e espiritual de Jesus. O documento é muito personalista e muito comunitário, traz o mais avançado de todas as ciências humanas para colocar o seminarista e sacerdote nessa formação permanentemente, para melhorar a cada dia.

Como este documento será aplicado?

O último documento da Santa Sé sobre este tema data de 1971 e foi publicado em latim. Hoje, este novo texto está na internet e é possível baixar em sete idiomas. Todos poderão lê-lo, inclusive os seminaristas, sacerdotes e bispos. A partir de agora, pedimos a cada conferência episcopal que prepare um texto semelhante, mas de caráter nacional, com linhas mestras para cada país, nas quais todos estejam envolvidos. Nós simplesmente faremos o serviço de aprovação, mas haverá muita liberdade. Desse modo, estamos diante de um processo de renovação, em movimento, que é o desejo do Papa Francisco. Será um tempo positivo, propositivo, esperançoso. Os próprios seminaristas e formadores nos disseram: “Isto é o que desejávamos: uma plataforma certa, segura, integral para correr todos os riscos”.

O que o Papa disse deste trabalho?

Muito aprovado. Não só o leu, como também trouxe contribuições concretas e pontuais. Uma vez me telefonou para pedir que eu ampliasse a ênfase sobre o discernimento: o sacerdote como um homem de discernimento, não apenas em sua vida, mas em todas as situações que deve enfrentar para ajudar seu povo. Outra vez, fez-me notar a importância da comunidade, da família e da Igreja que forma a pessoa, e da pessoa que forma comunidade. Insistiu muito no acompanhamento e no estímulo aos futuros sacerdotes.

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