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14 Dezembro 2016

“O populismo é Marx mais a construção contingente de um sujeito da emancipação a partir dos antagonismos instituintes do social. Onde se deve incluir sempre a análise da lógica do capital e sua reprodução ilimitada. Caso não se incluir a análise da construção populista no marco histórica da estrutura do poder capitalista contemporâneo, é impossível construir e assumir os verdadeiros antagonismos. Por esta razão, considero que o verdadeiro populismo só pode ser de esquerda”, escreve Jorge Alemán, psicanalista e escritor, em artigo publicado por Página/12, 12-12-2016. A tradução é de André Langer.

Eis o artigo.

Depois de Ernesto Laclau, o populismo ganhou uma nova complexidade teórica. Laclau produziu uma ruptura com as categorias sócio-históricas nas quais o populismo era pensado, para passar a construir uma teoria pós-marxista e pós-estruturalista do mesmo. Mencionar este contexto nos dá uma ideia da nova complexidade do termo. Uma primeira aproximação exige considerar o seguinte ponto de partida: em Laclau, a sociedade está organizada materialmente pela linguagem, que é a materialidade e a condição primeira do vínculo social. Mas, a linguagem é construída de tal modo que, embora configure a realidade (não há realidade pré-discursiva), ela não consegue nomear a totalidade da realidade. A isso que a linguagem não pode nomear chamamos de “real”. É um buraco na realidade que só pode ser contornado por um limite.

Este limite pode ser nomeado apenas de maneira incompleta e inconsistente, a saber, a hegemonia, a construção de povo, em suma, o populismo. Neste aspecto, depois de Laclau, o populismo é uma teoria política de como se engendra a significação quando a linguagem é uma estrutura incompleta para representar a totalidade da realidade.

Esta complexa questão revela que o populismo não apenas não é, para Laclau, uma anomalia da política, nem um conjunto de técnicas retóricas e demagógicas, nem uma maneira de evitar a “luta de classes”. Pelo contrário, Laclau considera que na estrutura da própria linguagem está implícito o populismo, já que sempre haverá antagonismos, porque a estrutura da linguagem não pode se fechar em uma totalidade. Portanto, as brechas, a falhas, contaminam todos os vínculos sociais, dando lugar a antagonismos irredutíveis que só podem ser abordados por uma lógica de articulação hegemônica que nomeie essas falhas, que assuma a brecha e que, em definitiva, se encarregue politicamente dos antagonismos que instituem o social.

Assim como o inconsciente, que era considerado como um saco de instintos escuros e desconhecidos, até que foi encontrada a sua estrutura lógica e ética no cruzamento de linguagem e pulsão, a partir de Freud e Lacan. Como acontecia antes de Marx, a economia era uma mera troca que encobria seu fato fundamental: a extração da mais-valia. Assim como com a técnica em Heidegger, que, depois de sua reflexão, já não é um conjunto de instrumentos que desumanizam o homem, mas o resultado de uma “história do ser”, que começou na Grécia. Como nestes exemplos, o populismo de Laclau propõe-se como uma ruptura radical que o separe definitivamente das concepções que o mantinham capturado em uma indeterminação que valia para exemplos políticos e históricos absolutamente incompatíveis.

Mas, mesmo que o conceito de populismo tenha sido esclarecido em sua estrutura e em uma nova lógica, Laclau, em seu projeto de construir uma ontologia geral do político, de um modo ambivalente, aceitou que o populismo era uma estrutura que pode emergir em qualquer processo político, tanto na esquerda, como na direita.

Da minha parte, tento apoiar-me em uma nova definição de populismo, onde pretendo enfrentar Laclau com o próprio Laclau, esclarecendo que esta é uma operação que se permite apenas aos grandes pensadores. Sem ignorar as categorias sócio-históricas que constituíram a tradição populista, nem desconhecendo o modo como os próprios Laclau e Mouffe situaram o populismo, como um momento que de modo irremediável está distribuído entre a esquerda e a direita.

Minha posição é que o populismo é sempre pós-marxista e que se contrapõe aos aspectos essenciais de algumas leituras marxistas-leninistas com respeito ao sujeito histórico. As condições formais da heterogeneidade, da diferença, do deslocamento, da fronteira antagônica, termos todos tributários ao “buraco da realidade” a que fazíamos alusão no começo deste artigo, só existem no interior de uma lógica emancipatória de novo cunho, que assume de saída o caráter não objetivável nem totalizante da realidade.

Com outras palavras, trata-se de uma emancipação sempre inconclusa, aberta e que sempre deve recomeçar. Por isso são tão difíceis de sustentar em sua aposta, dada a tendência mortal de todos os grupos sociais de se fecharem sobre si mesmos de um modo mortificante e identitário. Por esta razão, considero que o populismo não tem nada em comum nem com o fascismo, nem com as técnicas retóricas das demagogias, na medida em que são recursos que, de um modo ou de outro, se apoiam na conquista de uma identidade sem falhas, sem brecha nem buraco, ameaçada pelas “impurezas ou excessos do estrangeiro”.

Por tudo isso, seria muito importante, para além das diferenças, assumir a ruptura laclausiana. É definitivamente importante travar um combate em relação ao termo populismo e não dar de presente à direita e à socialdemocracia neoliberal a equivalência que leva a colocar Trump, Podemos, Le Pen ou o peronismo no mesmo lugar homogêneo. Na minha opinião, não é apenas um erro teórico, mas também político e ético.

O populismo é Marx mais a construção contingente de um sujeito da emancipação a partir dos antagonismos instituintes do social. Onde se deve incluir sempre a análise da lógica do capital e sua reprodução ilimitada. Caso não se incluir a análise da construção populista no marco histórica da estrutura do poder capitalista contemporâneo, é impossível construir e assumir os verdadeiros antagonismos. Por esta razão, considero que o verdadeiro populismo só pode ser de esquerda.

Uma esquerda para a qual a palavra revolução e seu sujeito histórico já não têm eficácia simbólica alguma e, portanto, a nova radicalidade, o ir “à raiz das coisas”, é pensar uma nova lógica emancipatória, uma vez que já não dispõe da entrada de um sujeito garantido. Em suma, o projeto populista emancipador deve tentar inventar e construir um sujeito com todos aqueles que são atingidos pela terrível erosão dos vínculos sociais gerados pela marcha incessante do capitalismo.

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