Quatro cardeais não fazem um cisma

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10 Dezembro 2016

Semana passada, um jornalista me perguntou se eu achava que a Igreja Católica estava em perigo de um cisma por causa da questão da Comunhão aos fiéis divorciados e recasados. Essa polêmica tem recebido uma atenção renovada em decorrência da carta escrita por quatro cardeais que desafiaram o magistério do papa em Amoris Laetitia. Ela recebeu uma atenção especial do colunista Ross Douthat, do New York Times.

A minha breve reposta foi “não”.

O comentário é de Thomas Reese, jesuíta e jornalista, em artigo publicado por National Catholic Reporter, 08-12-2016. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Para haver um cisma, é preciso que um bispo rompa com o papa e ordene padres e outros bispos para a igreja cismática. É preciso também que as pessoas sigam o bispo no cisma.

O único grande cisma do século XX é aquele liderado por Dom Marcel Lefèbvre, que se opôs à revisão e à tradução da liturgia bem como ao magistério do Vaticano II sobre o ecumenismo e as relações com os judeus. Lefèbvre fundou a Fraternidade São Pio X em 1970 e foi excomungado por ordenar quatro bispos sem a aprovação papal em 1988. Segundo o sítio eletrônico da Fraternidade, o grupo têm 603 padres com 772 Centros de Missa, números significativos porém minúsculos em comparação com a Igreja Católica.

Duvido que algum bispo, incluindo estes quatro cardeais, estaria disposto a liderar um cisma por causa da questão da Comunhão aos católicos divorciados. E mesmo se estivesse, poucas pessoas o seguiria nesse caminho.

O Papa Francisco é muito querido entre os católicos. Em 2015, entre 81 a 90% dos católicos americanos tinham uma opinião favorável dele. Os índices não favoráveis ficam entre 4 e 8%. Nossos políticos fariam qualquer coisa para ter estas avaliações. Nenhum entre os opositores do papa tem este tipo de popularidade entre os católicos.

Além disso, 2 em cada três fiéis gostariam de ver uma mudança no ensino da Igreja concernente à Comunhão para os divorciados e recasados. Somente 31% dos católicos dizem que a Igreja não deve autorizar que as pessoas recasadas, sem a anulação matrimonial anterior, recebam a Comunhão.

Verdade seja dita, 31% dos católicos é muita gente. Mas será que estes católicos se preocupam tanto com isso a ponto de deixarem a Igreja? Duvido.

Na verdade, o Papa Francisco nunca disse que todos os católicos divorciados e recasados deveriam comungar. Ele faz objeção aos que fazem uma leitura literal, que dizem que a Comunhão é impossível a tais pessoas, e aos progressistas extremos, que querem acolher a todos à Comunhão sem pensar muito.

O problema em ambos os lados é que eles querem uma resposta simples, universal a todas as situações. Francisco não acha que a vida seja tão simples assim. Como pastor, ele reuniu-se com mulheres empobrecidas que foram abandonadas pelos maridos e então voltaram a se casar. Elas precisavam de alguém que pudesse ajudá-las sustentar os filhos e precisavam prover um pai para eles. Eram pessoas boas e amáveis, que estavam criando os filhos como boas católicas e contribuindo positivamente em suas comunidades.

É para essas pessoas que Francisco descreve a Igreja como um hospital de campanha para os feridos, não como um clube social para os bonitos. A Comunhão é o alimento para os feridos, não um prêmio aos perfeitos, segundo ele.

Francisco ficaria ao lado da mulher que conheceu o seu marido na faculdade de direito, mas que depois foi trocada por uma outra, mais jovem e bonita. Ela agora está casada com um encanador amoroso, um bom pai para os filhos de ambos os casamentos.

Dizer a esta mulher para abandonar o atual marido ou viver como irmão e irmã não só é um absurdo, mas injusto.

Por outro lado, duvido que Francisco ofereceria a Comunhão a um bilionário, casado pela terceira vez, alguém que tem uma história de galanteador e que diz que nada tem a se desculpar.

A direita e a esquerda querem respostas fáceis. Francisco se nega a dar respostas. Em vez disso, quer que aprendamos como pensar, como discernir em situações complexas.

Antes do século XX, divorciar-se e voltar a casar era raro e, quase sempre, errado porque, numa sociedade patriarcal, o homem poderia deixar sua esposa e ela tinha poucos recursos. Na época de Jesus, ela não seria aceita de volta na casa do pai; não obteria pensão alimentícia ou sustento para os filhos; estava na rua sem meios para se sustentar. Isso significava mendigar e se prostituir.

A oposição de Jesus ao divórcio tinha mais a ver com proteger a mulher e os filhos do que com sexo.

Na história da Igreja, sob a influência do direito romano, os ensinamentos de Jesus foram sistematizados e codificados. Isso tornou mais fácil formar padres para lidar com a maioria dos casos morais que encontrassem. O melhor dos teólogos e mestres sempre soube da necessidade da flexibilidade na aplicação das leis, mas muitos dos seus alunos simplesmente aplicavam as regras mecanicamente. Para os padres que careciam de formação ou sofisticação, seguir a regra era seguro. Flexibilidade demais alimentaria a incerteza e o caos.

Isso levou a uma perversão do ensinamento de Jesus que forçava a mulher a permanecer em relacionamentos abusivos apenas porque estavam casadas. Na medida em que menos mulheres morriam em decorrência dos trabalhos de parto, na medida em que elas buscavam formação e se tornavam capazes de sustentar a si próprias, e na medida em que os casais passaram a viver mais tempo, o matrimônio se transformou. Ele passou a ter mais a ver com o desenvolvimento e crescimento humano e menos com a segurança econômica. O declínio da família estendida também gerou alguns efeitos.

A realidade se transformou. O divórcio atinge cerca de 40% dos casamentos. Divorciar-se e voltar a casar é um fato da vida. O divórcio ainda é trágico, mas as leis protegem a mulher e os filhos mais do que o faziam no passado.

Como a Igreja deveria responder a esta nova realidade? Francisco não dá respostas simples; ele pede para refletirmos sobre as circunstâncias concretas de cada caso. É preciso discernimento, e não um livro de regras, para descobrirmos onde Deus está chamando.

As pessoas divorciadas devem se perguntar como elas contribuíram para o rompimento do matrimônio. Estão arrependidas pelos pecados cometidos? Na justiça, o que elas devem ao ex-cônjuge e aos filhos? Será que estão agora onde Deus quer que estejam?

Quais as obrigações agora? Abandonar um segundo parceiro a esta altura seria injusto e cruel? O amor pelo novo parceiro é agraciado? Como viver essa vida nova de uma maneira melhor?

Comecei a escrever este artigo na terça-feira quando a primeira leitura da missa era de Isaías 40: “‘Consolem, consolem o meu povo’, diz o Deus de vocês”. Na segunda-feira, o Evangelho de São Lucas (5,17-26) nos fala do problema de Jesus com os escribas e fariseus por ele perdoar os pecados de um homem.

Quando era mais jovem, pensavam que as histórias sobre Jesus com os escribas e fariseus eram sobre eventos antigos que não possuíam relevância para a vida contemporânea. Ou, o que era pior, elas eram antissemitas. Hoje reconheço que os escritores dos evangelhos incluíram essas histórias por que sabiam que pensar como os escribas e fariseus é uma tentação constante na Igreja. Sempre haverá pessoas para as quais as regras importam mais que a compaixão.

O Papa Francisco está sendo atacado por ser demasiado compassivo. Assim foi Jesus.

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