Bispo-pai: "Sem proximidade, há apenas palavra sem carne": o desafio do papa aos prelados de hoje

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09 Dezembro 2016

Depois da nomeação dessa quinta-feira de Dom Marek Jędraszewski como novo arcebispo de Cracóvia, Polônia, propomos novamente o diálogo entre o Santo Padre e o então bispo de Łódź no último dia 27 de julho na catedral de Cracóvia, onde o Papa Francisco se encontrou com os bispos poloneses para uma conversa com quatro perguntas e quatro respostas. A pergunta de Dom Jędraszewski dizia respeito à pastoral a ser adotada para permanecer fiel à tradição cristã.

O trecho foi publicado no sítio Il Sismografo, 08-12-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Dom Marek Jędraszewski – Santo Padre, parece que os fiéis da Igreja Católica e, em geral, todos os cristãos na Europa ocidental encontram-se cada vez mais em minoria no âmbito de uma cultura contemporânea ateu-liberal. Na Polônia, assistimos a um debate profundo, a uma luta enorme entre fé em Deus, por um lado, e, por outro, um pensamento e estilos de vida como se Deus não existisse. Na sua opinião, Santo Padre, que tipo de ações pastorais deveriam ser empreendidas pela Igreja Católica no nosso país, para que o povo polonês permaneça fiel à sua já mais do que milenar tradição cristã? Obrigado.

Papa Francisco – Excelência, o senhor é bispo de...?

Dom Marek Jędraszewski – De Łódź, onde começou o caminho de Santa Faustina, porque justamente ali ela ouviu a voz de Cristo para ir a Varsóvia e tornar-se freira, justamente em Łódź. A história da sua vida começou na minha cidade.

Papa Francisco – Você é um privilegiado! É verdade, a descristianização, a secularização do mundo moderno é forte. É muito forte. Mas alguns dizem: sim, é forte, mas se veem fenômenos de religiosidade, como se o sentido religioso se despertasse. E isso também pode ser um perigo. Eu acho que nós, neste mundo tão secularizado, também temos outro perigo, a espiritualização gnóstica: essa secularização nos dá a possibilidade de fazer crescer uma vida espiritual um pouco gnóstica. Lembremos que foi a primeira heresia da Igreja: o apóstolo João bate nos gnósticos – e como, com que força! – onde há uma espiritualidade subjetiva, sem Cristo. O problema mais grave, para mim, dessa secularização é a descristianização: tirar Cristo, tirar o Filho. Eu rezo, sinto... e nada mais. Isso é gnosticismo.

Há outra heresia que também está na moda, neste momento, mas eu a deixo de lado, porque a sua pergunta, Excelência, vai nessa direção. Há também um pelagianismo, mas deixemos ela de lado, para falar sobre isso em outro momento. Encontrar Deus sem Cristo: um Deus sem Cristo, um povo sem Igreja. Por quê? Porque a Igreja é a Mãe, aquela que lhe dá a vida, e Cristo é o Irmão mais velho, o Filho do Pai, que faz referência ao Pai, que é Aquele que lhe revela o nome do Pai. Uma Igreja órfã: o gnosticismo de hoje, por ser justamente uma descristianização, sem Cristo, nos leva a uma Igreja, digamo-lo melhor, a cristãos, a um povo órfãos. E nós devemos fazer com que o nosso povo sinta isso.

O que eu aconselharia? Vem à minha mente – mas eu acho que é a prática do Evangelho, em que há justamente o ensinamento do Senhor – a proximidade. Hoje, nós, servidores do Senhor – bispos, sacerdotes, consagrados, leigos convictos – devemos estar próximos do povo de Deus. Sem proximidade, há apenas palavra sem carne. Pensemos – eu gosto de pensar nisto – nos dois pilares do Evangelho. Quais são os dois pilares do Evangelho? As Bem-aventuranças e, depois, Mateus 25, o “protocolo” com a qual todos nós seremos julgados. Concretude. Proximidade. Tocar. As obras de misericórdia, tanto corporais quanto espirituais. “Mas o senhor diz essas coisas porque está na moda falar da misericórdia este ano...” Não, é o Evangelho! O Evangelho, obras de misericórdia.

Há aquele herético ou descrente samaritano que se comove e faz aquilo que deve fazer e também põe em risco o dinheiro! Tocar. Há Jesus que estava sempre entre as pessoas ou com o Pai. Ou em oração, a sós com o Pai, ou entre as pessoas, ali, com os discípulos. Proximidade. Tocar. É a vida de Jesus... Quando Ele se comoveu, às portas da cidade de Naim (cf. Lc 7, 11-17), ele se comoveu, foi e tocou no caixão, dizendo: “Não chore...”. Proximidade. E a proximidade é tocar a carne sofredora de Cristo. E a Igreja, a glória da Igreja, são os mártires, certamente, mas são também tantos homens e mulheres que deixaram tudo e passaram a sua vida nos hospitais, nas escolas, com as crianças, com os doentes...

Eu me lembro que, na África Central, uma freirinha, tinha 83-84 anos, magra, boa, com uma menina... Ela veio me cumprimentar: “Eu não sou daqui, sou do outro lado do rio, do Congo, mas todas as vezes, uma vez por semana, eu venho aqui fazer as compras, porque são mais convenientes”. Ela me disse a idade: 83-84 anos. “Há 23 anos eu estou aqui: sou enfermeira obstétrica, dei à luz 2-3 mil crianças...” “Ah... e a senhora vem aqui sozinha?” “Sim, sim, pegamos a canoa...” Aos 83 anos! Com a canoa, levava uma horinha e chegava. Essa mulher – e tantas como ela – deixou o país – é italiana, da Bréscia – deixou o seu país para tocar a carne de Cristo. Se formos a esses países de missão, à Amazônia, à América Latina, nos cemitérios, encontramos os túmulos de tantos homens e mulheres religiosas que morreram jovens, porque, para as doenças daquela terra, eles não tinham os anticorpos e morriam jovens. As obras de misericórdia: tocar, ensinar, consolar, “perder tempo”. Perder tempo.

Eu gostei muito, uma vez, de um senhor que foi se confessar e estava em uma situação tal que não podia receber a absolvição. Ele foi com um pouco de medo, porque tinha sido mandado embora algumas vezes: “Não, não... vá embora”. O padre o ouviu, explicou-lhe a situação, disse-lhe: “Mas você reza. Deus te ama. Vou lhe dar a bênção, mas você vai voltar, me promete?”. E esse padre “perdia tempo” para atrair esse homem aos sacramentos. Isso se chama proximidade. E, falando aos bispos sobre proximidade, eu acho que devo falar da proximidade mais importante: a com os sacerdotes. O bispo deve estar disponível para os seus sacerdotes.

Quando eu estava na Argentina, ouvi de sacerdotes – muitas, muitas vezes, quando eu ia dar os Exercícios, eu gostava de dar os Exercícios. Eu dizia: “Fale com o bispo sobre isso...”. “Mas não, eu o telefonei, a secretária me disse: não, ele está muito, muito ocupado, mas vai receber você em três meses”. Mas esse sacerdote se sente órfão, sem pai, sem a proximidade e começa a cair. Um bispo que vê na folha de telefonemas, à noite, quando volta, o telefonema de um sacerdote, ou naquela noite ou no dia seguinte deve telefonar para ele de imediato. “Sim, estou ocupado, mas é urgente?” “Não, não, mas coloquemo-nos de acordo...” Que o sacerdote sinta que tem um pai. Se nós tiramos dos sacerdotes a paternidade, não podemos lhes pedir que sejam pais. E, assim, o sentido da paternidade de Deus se afasta. A obra do Filho é tocar as misérias humanas: espirituais e corporais. A proximidade. A obra do Pai: ser pai, bispo-pai.

Depois, os jovens, porque se deve falar de jovens nestes dias. Os jovens são “chatos”! Porque sempre vem dizer as mesmas coisas, ou “eu penso assim...”, ou “a Igreja deveria...”, e é preciso ter paciência com os jovens. Eu conheci, quando jovens, alguns padres: era uma época em que o confessionário era mais frequentado do que agora, passavam horas ouvindo ou os recebiam no escritório paroquial, escutando as mesmas coisas... mas com paciência. E, depois, levar os jovens para o campo, para as montanhas... Mas pensem em São João Paulo II, o que ele fazia com os universitários? Sim, fazia escola, mas depois ia com eles para as montanhas! Proximidade. Ele os escutava. Estava com os jovens...

E uma última coisa que eu gostaria de enfatizar, porque eu acho que o Senhor me pede isso: os avós. Vocês, que sofreram o comunismo, o ateísmo, sabem disto: foram os avós, foram as avós que salvaram e transmitiram a fé. Os avós têm a memória de um povo, têm a memória da fé, a memória da Igreja. Não descartem os avós! Nesta cultura do descarte, que está justamente descristianizada, descarta-se aquilo que não serve, que não vai bem. Não! Os avós são a memória do povo, são a memória da fé. E conectar os jovens com os avós: isso também é proximidade. Ser próximos e criar proximidade. Eu responderia assim a essa pergunta. Não há receitas, mas devemos entrar em campo. Se esperarmos que toque o telefone ou que batam na porta... Não. Devemos sair para buscar, como o pastor que vai buscar os perdidos. Não sei, é isso que me vem. Simplesmente.

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