“Como Wojtyla convenceu Fidel a festejar o Natal”

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27 Novembro 2016

“Falei seis horas com Fidel Castro. Ele tinha muita curiosidade sobre João Paulo II, e, mesmo sendo zeloso de sua interioridade, se compreendia que ele queria ir mais a fundo... Eu lhe disse que era um homem de sorte, porque o Papa rezava todos os dias por ele. Por um momento ficou em silêncio”. Joaquín Navarro-Valls, o porta-voz de João Paulo II na época da histórica visita de Wojtyla a Cuba, em 1998, teve um papel que foi muito além do papel oficial de diretor da Sala de Imprensa vaticana. E fala sobre isso nesta entrevista que concedeu a La Stampa.

A entrevista é de Andrea Tornielli e publicada por Vatican Insider, 27-11-2016. A tradução é de André Langer.

Eis a entrevista.

Como se chegou à visita do Papa, que tinha contribuído para a queda do Muro de Berlim, a um dos últimos baluartes do comunismo?

Durante cerca de 10 anos, João Paulo II enviou os seus delegados a Cuba. Também foi o “ministro do Exterior” vaticano, Jean Luis Tauran. O Papa tinha o desejo de visitar a Ilha, mas o convite não vinha. Finalmente, em novembro de 1996, Castro veio a Roma para uma reunião da FAO e foi recebido no Vaticano. Aí convidou formalmente o Pontífice.

Como a viagem foi preparada?

Durante todo o ano de 1997 trabalhou-se na sua organização. Três meses antes, em outubro desse mesmo ano, fui a Havana e me encontrei com Fidel. Foi um encontro longo, que durou seis horas e terminou quase às três horas da manhã. Castro tinha muito curiosidade, queria saber tudo sobre João Paulo II: de que família veio, como viveu. Queria saber mais sobre a pessoa Wojtyla e deixava entrever sua admiração por ele. Percebia-se que queria ir mais a fundo. Eu lhe disse: “Senhor presidente, eu o invejo”. “Por quê?” “Porque o Papa reza todos os dias por você, reza para que um homem da sua formação volte a encontrar o caminho do Senhor”. O presidente cubano, por sua vez, ficou em silêncio.

O que você pediu a Castro por conta da Santa Sé?

Eu lhe expliquei que, como a data da visita já estava fixada, dia 21 de janeiro de 1998, era interessante que fosse um grande êxito. “Cuba deve surpreender o mundo”, falei. Fidel disse estar de acordo. Então, eu acrescentei algo sobre as surpresas que o Papa esperava. Pedi a Castro que o Natal, que estava próximo, fosse celebrado em Cuba como uma festa oficial pela primeira vez desde o início da revolução.

Como o Líder Máximo reagiu?

Ele disse que seria muito difícil, porque o Natal caía em plena época da colheita da cana de açúcar. Respondi: “Mas o Santo Padre gostaria de poder lhe agradecer publicamente este gesto desde a sua chegada ao aeroporto de Havana. Então, depois de uma longa discussão, Castro acabou cedendo. Embora tivesse acrescentado: “Mas poderia ser apenas este ano”. Limitei-me a dizer: “Muito bem, o Papa estará muito agradecido. E quanto ao próximo ano, vamos ver”. Como se sabe, a festa do Natal continuou a ser desde então uma festa civil.

O que o Papa Wojtyla pensava sobre Castro?

Durante o voo para Havana, um jornalista perguntou ao Papa o que o presidente dos Estados Unidos lhe teria aconselhado sobre a posição que devia manter com Cuba: “To change!”. Seu conselho era mudar. Depois lhe perguntaram o que esperava do presidente de Cuba. João Paulo II respondeu: “Espero que me explique sua verdade, como pessoa, como dirigente e como comandante”. Eu não estava no avião, já estava em Havana. Recebi o texto daquela resposta e a mostrei a Castro enquanto esperávamos que o Papa aterrissasse. Assim, já havia uma ordem do dia escrita para o seu encontro. O encontro frente a frente durou muito, e na saída ambos estavam serenos e sorridentes.

Lembro da missa na Praça da Revolução, com os irmãos Castro na primeira fila e a multidão que acompanhava a homilia com o grito “Liberdade, liberdade!” E lembro das palavras com que Fidel se despediu de João Paulo II no aeroporto antes de retornar a Roma: “Agradeço-lhe por todas as palavras que disse, até por aquelas de que posso não ter gostado”. Ele tinha esta elegância humana, enquanto Wojtyla sorria. Com essa visita, inaugurou um tempo de lentas, mas reais aberturas.

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