Só a misericórdia é infalível. Artigo de Andrea Grillo

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25 Novembro 2016

Neste artigo, o teólogo italiano Andrea Grillo reage à reflexão de Ghislain Lafont, sobre “Verdade, misericórdia e infalibilidade”. Segundo Grillo, “a defesa do Evangelho, quando se identifica como ‘resistência ao mundo’, perde a si mesma e se perverte. A ‘rendição à misericórdia’, que é o sal do Evangelho, não é menos desafiadora. Não é rendição ao mundo, mas rendição a Deus que salva o mundo, que é apaixonado pelo ser humano, que não se cansa de ficar ao seu lado”.

Grillo é professor do Pontifício Ateneu S. Anselmo, em Roma, do Instituto Teológico Marchigiano, em Ancona, e do Instituto de Liturgia Pastoral da Abadia de Santa Giustina, em Pádua.

O artigo foi publicado no sítio Settimana News, 22-11-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o artigo.

O porte das questões levantadas pelo magistério pastoral do Papa Francisco foi lucidamente fotografada pelas palavras do Pe. Ghislain Lafont. Sabemos bem como ele sabe ir fundo nas questões, de um modo tão direto, simples e clarividente.

Parece-me que o primeiro ponto sobre o qual é justo se deter é a compreensão do porte “amplo” e “geral” das questões levantadas pela Amoris laetitia. A reação é muito mais dura, sobre o tema matrimonial, do que a que se refere aos temas políticos ou culturais. Não é por acaso que isso acontece justamente neste campo moral e institucional.

A tradição eclesial, de fato, mudou de registro em relação aos estilos do século XIX, em quase todos os outros “campos”, há muito tempo: sobre os temas da liberdade, do compromisso político, da forma do ministério, da celebração ritual, passos notáveis foram dados.

Mas o matrimônio – junto com o tema da família e do amor – ainda é considerado como um âmbito no qual a defesa do Evangelho e da sociedade fechada tendem a se identificar. Falar de “misericórdia” é percebido, imediatamente, como um “cedimento ao moderno” e como “traição do Evangelho”.

Observo que não se fez isso em tantos outros campos: o contrato de “seguro”, por exemplo, tinha sido lido, inicialmente, como “negação da Providência”... mas, hoje, que cardeal falaria contra o seguro obrigatório dos automóveis, percebendo-o como “infração” de um direito de Deus ao exercício da Providência?

Uma questão de “teologia fundamental”

No seu texto, de modo pertinente, Lafont disse que, talvez, devêssemos pensar no debate em torno da Amoris laetitia como uma questão de “teologia fundamental”, que nos convida a pensar de modo mais adequado a relação entre misericórdia e verdade, entre graça e infalibilidade.

Trata-se de uma sugestão preciosa: tudo o que o Papa Francisco fez nesses quase quatro anos manifesta essa “visão abrangente”, que vem de longe e que é possível encontrar com muita clareza no pensamento e nos atos do Papa João XXIII.

A ideia de um “Concílio” como “ato de misericórdia” introduz na Igreja do século XX uma nova possibilidade de relação com a própria tradição e com o mundo moderno. A “misericórdia” como “forma da Igreja” – de acordo com a bela imagem que Stella Morra introduziu no seu livro Dio non si stanca. La misericordia come forma ecclesiale [Deus não se cansa. A misericórdia como forma eclesial] – se torna o critério para interpretar as suas relações ad intra e as suas relações ad extra.

Anunciar uma “comunhão mais vasta” no campo matrimonial e uma “comunhão mais vasta no campo ecumênico” – essas são as duas profecias principais dos últimos meses de pontificado, percebidos como vulnera por parte dos setores mais rígidos da Igreja – responde perfeitamente a esse desígnio de 60 anos atrás, que tomou forma no Concílio Vaticano II e que, hoje, encontra em Francisco um intérprete tão determinado quanto inesperado, embora não desprovido de “pressentimento” no corpo eclesial.

Com efeito, trata-se de uma grande “mudança de paradigma” em relação à configuração eclesial do século XIX e da primeira metade do século XX.

O fim de um desvio autoritário, também na teologia

Com efeito, todos nós, cristãos católicos, somos filhos de um “desvio autoritário” que o pensamento e a práxis católica elaborou – não sem resistências – a partir do início do século XIX e que encontrou no Código de Direito Canônico de 1917 uma figura sintética bastante poderosa dele. Aquilo que hoje não funciona mais, depois de um século exatamente, não é a presença de uma “lei canônica”, mas a sua forma de código.

A codificação “modernizou a Igreja”, mas subtraiu dela elasticidade, discernimento, discrição, movimento. Há um efeito paralisante, que, à época, respondia bem aos medos antimodernistas, mas que hoje é contraproducente. E é interessante notar como se combateu o modernismo com o seu próprio método: com a introdução de uma “autoridade central” mediada por leis universais e abstratas.

Napoleão é o mito escondido e insidioso da paralisia normativa na Igreja Católica do último século. E muitos canonistas não se dão conta, hoje, de que pensam como “funcionários napoleônicos” e não como “ministros da Igreja”.

Essa, no entanto, não é apenas uma questão de “marco institucional”, mas também de “teologia fundamental”. Uma Igreja que pensa a relação com a verdade e com a justiça em termos de “infalibilidade” e de “normas universais e abstratas” projeta sobre a tradição um ideal modernista sem se dar conta disso e não consegue mais mediar entre dogma e história. Permanece prisioneira dos esquemas modernistas que assumiu inconscientemente. E dos quais a mens de João XXIII, Paulo VI e Francisco nos liberta.

A aposta de João XXIII e de Francisco

A continuidade em relação a João XXIII e, em parte, a Paulo VI – e a descontinuidade em relação a João Paulo II e a Bento XVI – é, ao menos sob esse perfil, um dado de extrema relevância. E tem, como primeira consequência, um “trabalho sobre a linguagem” absolutamente primário.

Tanto João XXIII quanto Francisco serviam e servem a tradição “com outras palavras”. O primeiro trabalho teológico é hoje uma reformulação, uma tradução da tradição. E é normal que a primeira reação, diante das linguagens novas, seja de admiração e até mesmo de desconcerto. Resistência e rendição se manifestam, como sempre.

Mas, há 60 anos, entendemos, cada vez melhor, que a defesa do Evangelho, quando se identifica como “resistência ao mundo”, perde a si mesma e se perverte. A “rendição à misericórdia”, que é o sal do Evangelho, não é menos desafiadora. Não é rendição ao mundo, mas rendição a Deus que salva o mundo, que é apaixonado pelo ser humano, que não se cansa de ficar ao seu lado.

E, quando o ser humano sabe se render entregar ao Deus que se fez homem, a realidade se complica e se torna maravilhosa. Isso acontece hoje no campo ecumênico e no campo matrimonial, no campo ecológico e no campo formativo: a forma da Igreja está mudando, para que o Evangelho possa ser compreendida mais a fundo.

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