Usus, abusus, fructus: os três pilares do capitalismo financeiro. Entrevista com Gaël Giraud

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25 Novembro 2016

Gaël Giraud é uma daquelas pessoas que fogem dos rótulos. Estéticos, acima de tudo. Intelectual herético em relação ao mainstream, ele se apresenta como banqueiro: terno azul impecável, expressão de funcionário, frases secas. O que de mais distante se possa imaginar de um revolucionário, enquanto delineia um cenário de “autêntica turbulência da sociedade”.

A reportagem é de Giuseppe Salvaggiulo, publicada no jornal La Stampa, 23-11-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Economista? Ambientalista? Cientista? Filósofo? De tudo um pouco. Entre as pirâmides de Ponzi e citações evangélicas. Depois de se formar em matemática, das consultorias para grandes bancos e dos cargos de pesquisador e de professor de teoria dos jogos, economia e finanças, ao voltar de uma viagem para o Chade, entrou na Companhia de Jesus.

Ordenado padre em 2013, há um ano, é economista-chefe da Agência Francesa para o Desenvolvimento, 8,5 bilhões de euros por ano para projetos internacionais. Único jesuíta funcionário do governo francês, ele contribuiu para a elaboração de trechos da encíclica papal Laudato si’, “um projeto de civilização que trouxe a Igreja novamente para a vanguarda, depois de meio século”.

Nos últimos dias, ele apresentou na Itália o livro-manifesto Transizione ecologica [Transição ecológica] (EMI).

Eis a entrevista.

O que é a transição ecológica?

É um projeto em que os instrumentos típicos das finanças se põem a serviço da redução da dependência das fontes energéticas fósseis. Ela está para o nosso tempo como a imprensa no século XV.

Como ela pode se desenvolver?

Em três etapas. A primeira é a adequação térmica do patrimônio imobiliário, voragem energética das nossas economias. A segunda é o desenvolvimento de uma mobilidade menos “energívora”, complexa, porque envolve uma reordenação territorial. A terceira é a reconversão verde dos processos industriais e agrícolas. A última é a mais difícil, mas não a mais urgente.

Quanto custa e quem paga?

As estimativas de custo para toda a União Europeia giram em torno dos três bilhões de euros distribuídos por uma década, menos do que os quatro mil disponibilizados pelos Estados aos bancos desde 2008. Sem calcular as vantagens: a requalificação da mão de obra, os benefícios fiscais e os efeitos antideflacionistas em economias estagnadas.

Você pensa em instrumentos financeiros?

Com bonds do Banco Central Europeu de taxa controlada e adequadamente garantidos. Uma aposta menos arriscada do que a que foi feita para salvar o sistema bancário.

Em que ponto está o projeto?

Na França, estamos trabalhando nele desde 2012, com 50 especialistas, envolvendo 170 mil pessoas em milhares de debates e reunindo 1.200 contribuições individuais na web. Avaliamos uma dezena de cenários. Estaríamos prontos.

Por que usa o condicional?

Porque, na Europa, as elites não acreditam mais na capacidade do Estado para salvar o continente e, acessoriamente, o planeta. O principal obstáculo, portanto, é político, e não econômico.

A União Europeia poderia adotar o projeto?

Ela já o teria feito se não estivesse fundada em dogmas incompreensíveis: a concorrência perfeita, que considera distorcido todo investimento necessário para o nosso projeto, e a área monetária ótima. Assim, ela corre o risco de ter o mesmo fim que a URSS.

Por que o euro é um dogma?

O euro é um projeto autoritário, cuja sustentabilidade está fundamentada, ela mesma, em um dogma. A prova disso é que, nas gavetas dos bancos centrais, existem planos B.

Por exemplo, um euro forte para os países do Norte e um fraco para os mediterrâneos?

Falsa solução. Interpelados, os técnicos do banco central francês responderam que a França iria com a Alemanha. Estúpidos! Assim, ela se tornaria a Grécia do Norte.

Países como a Itália e a França deveriam sair da zona do euro?

Seria uma loucura, nem mesmo a Alemanha poderia resistir fora do euro.

E então?

É preciso transformá-lo de moeda única a moeda comum. O euro permaneceria para transações internacionais, ao lado de moedas nacionais depreciáveis para o mercado interno: euro-lira, euro-franco, euro-marco...

Qual seria o resultado da desintegração europeia?

A da URSS produziu miséria por 10 anos: PIB pela metade, expectativa de vida em queda, máfias. Um resultado autoritário.

Qual é o ponto final da transição ecológica?

O capitalismo financeiro se baseia nos três pilares do direito de propriedade herdados do direito romano: usus, abusus, fructus. No fim da transição, permanecerá apenas o usus.

O que isso significa?

O futuro é a partilha dos bens comuns, em vez da privatização. Trata-se de um conceito antigo que a tecnologia torna hipermoderno. O bike sharing é um exemplo de que fazemos experiência todos os dias. Ou a Wikipédia, mais confiável do que a Enciclopédia Britânica. Blablacar e Airbnb.

A sharing economy não é apenas o destino progressivo da partilha, mas também o destino regressivo da evasão fiscal, da destruição do trabalho, da anomia financeira.

O Airbnb nasceu para pôr em comum a hospitalidade, mas vai para a Bolsa, se privatiza. Não anseiam por um voluntarismo anárquico, mas por regras para disponibilizar uma inteligência comum e evitar a “uberização” da sociedade, cavalo de Troia de novas escravidões.

É um programa de esquerda?

A esquerda comunista não pode aceitá-lo, porque está fundado na gestão comunitária, não pública e estatista. A esquerda social-democrata não o entende, porque se converteu ao neoliberalismo. Hollande fez com que votassem uma lei para separar bancos de negócios dos comerciais. Uma pena que ele fez com que os próprios bancos a escrevessem, tornando-a vã.

E os Verdes?

São um movimento melancia: verde por fora e vermelho por dentro, “gauchistas” radicais decepcionados com o comunismo. A única força em que podemos esperar são as ONG e a sociedade civil. Mas isso leva tempo.

Como você vê a ascensão dos populistas?

Assim como nos anos 1930, ele crescem na deflação, alimentados pelo dogmatismo de Bruxelas. Mas eles também existiriam sem o euro. E agora dão mais medo, porque a vitória de Trump liberou todas as inibições residuais: se os Estados Unidos fazem isso, por que não nós?

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