Lutero e o Evangelho da graça incondicional: uma resposta a Eugenio Scalfari. Artigo de Paolo Ricca

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10 Novembro 2016

"Não é fácil entender quais fontes o fundador do jornal La Repubblica, Eugenio Scalfari, obtém as suas informações sobre a Reforma protestante."

O teólogo e pastor valdense italiano Paolo Ricca, professor emérito da Faculdade Valdense de Teologia e professor convidado do Pontifício Ateneu Sant’Anselmo de Roma, responde, neste artigo, a um recente editorial do jornalista italiano Eugenio Scalfari, fundador e diretor do jornal La Repubblica.

O artigo foi publicado no sítio Riforma, 08-11-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

 

Eis o texto.

 

Não é fácil entender quais fontes o fundador do jornal La Repubblica, Dr. [Eugenio] Scalfari, obtém as suas informações sobre a Reforma protestante e, particularmente, sobre Lutero, que ele também declara ter "estudado muito a fundo". Refiro-me ao seu editorial do domingo, 30 de outubro. Permito-me algumas notas à margem.

1) A afirmação de que Lutero, com as 95 teses do dia 31 de outubro de 1517, "inaugurou oficialmente a religião luterana" é uma afirmação totalmente fora da realidade histórica: "a religião luterana" (seria mais correto falar de "confissão luterana" dentro da "religião cristã") começaria a existir apenas 13 anos mais tarde, em 1530, com a apresentação à Dieta de Augsburgo (com a presença do imperador Carlos V) de uma Confissão de fé, redigida por Melâncton, e conhecida como Confissão de Augsburgo. É aí que o luteranismo ganha corpo.

2) Entre Lutero e Zuínglio, contemporâneo de Lutero, reformador de Zurique, da Suíça alemã e da Alemanha do sul, houve um forte contraste doutrinal sobre a interpretação da presença de Cristo na Ceia (ou eucaristia), mas não houve nenhuma guerra (senão de palavras). Calvino, depois, e os huguenotes, que pertencem à segunda geração da Reforma, não têm nada a ver aqui.

3) A crítica de Lutero ao mercado das indulgências indubitavelmente teve uma notável repercussão, mas, no fim das contas, foi marginal na reflexão de Lutero, que dizia respeito à verdadeira natureza da penitência cristã, que o comércio das indulgências corria o sério risco de falsear. A Reforma não nasceu da crítica da Igreja, mas a partir de uma prolongada e aprofundada meditação sobre as Sagradas Escrituras do Antigo e do Novo Testamento, nas quais Lutero descobriu o Evangelho da graça incondicional, imerecida e gratuita de Deus. A crítica não à Igreja em geral ou ao papa (que Lutero, ao contrário, defendeu justamente nas 95 Teses!), mas aos abusos graves então correntes, não foi a causa nem a ocasião, mas a consequência da descoberta do Evangelho.

4) A afirmação de que Lutero, depois de 1520, "quis ser o soberano absoluto da sua Igreja" parece pressupor que existisse, naqueles anos, uma "Igreja Luterana". Mas isso não corresponde à realidade: havia "Igrejas luteranas" (que não se chamavam assim!) deslocadas em diversos territórios, sem um governo central, muito menos exercido por Lutero, que era teólogo e não bispo.

5) Em vez disso, o Dr. Scalfari tem razão quando fala da superação da "intermediação dos sacerdotes entre os fiéis e Deus" e da "relação direta" de cada alma com Deus, característica da Reforma luterana. Apenas é preciso salientar que essa "relação direta", na realidade, também é mediada, mas não por um sacerdote ou por um pastor, mas pelo próprio Cristo. De fato, Lutero fala do "feliz intercâmbio" entre a alma e Cristo: a alma dá a Cristo ansiedades, culpas e toda pena, e Cristo dá à alma paz, perdão e grande serenidade.

 

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