Os jesuítas, os papas e um papa jesuíta

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09 Novembro 2016

Um pontífice eleito entre as fileiras da Companhia de Jesus nunca tinha sido visto na história. Nunca tinha sido registrado o discurso de um papa a uma Congregação Geral que revelasse um conhecimento tão profundo da espiritualidade inaciana, como o proferido pelo Papa Francisco na Cúria Generalícia no dia 24 de outubro. E não podia ser de outra forma para um religioso como Bergoglio, que fala do carisma do fundador e da missão da sua ordem.

A reportagem é de Maria Teresa Pontara Pederiva, publicada no jornal La Stampa, 04-11-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Mas, se essa é a crônica de hoje, o que se pode dizer da relação entre os jesuítas e o papado retrocedendo ao longo dos anos?

Só podia ser um historiador como John W. O 'Malley, professor da Georgetown University, em Washington, autor de textos que se tornaram marcos (como "O que aconteceu no Vaticano II", Edições Loyola), mas, acima de tudo, proveniente também ele das fileiras da Companhia de Jesus, para se envolver na obra de reconstrução minuciosa das vicissitudes que marcaram a história da ordem desde a sua constituição.


Foto: Capa do Livro de O'Malley | Divulgação

Ainda no ano posterior à chegada de Francisco – cuja eleição tinha parecido ser uma eventualidade quase impensável durante séculos, provocando uma onda de curiosidade sobre a sua ordem religiosa – O'Malley tinha publicado um texto com um título significativo: "Jesuítas. Uma história de Inácio a Bergoglio", com um retrato de 360° da Companhia, entre supressões forçadas e refundações audazes, quase como um romance que narra as vicissitudes de tantas figuras que marcaram ao longo dos séculos a cultura europeia nos campos mais diversos, da poesia à arquitetura, passando pela ciência.

Porém, como o próprio autor escreve na introdução, embora outros historiadores – pensemos apenas no coirmão padre Giuseppe De Rosa – tenham se aventurado em uma história da ordem, ninguém tinha abordado um tema mais específico, mas fundamental, como a relação entre a Companhia de Jesus e o papado.

Ainda na introdução, estão contidas alguns esclarecimentos ou, melhor dizendo, conselhos para a leitura: por um lado, que não se trata de uma história dos jesuítas, mas apenas do relato de uma parte da história mais ampla; por outro, que a relação em questão não nasce no momento da fundação, mas bem antes, e se inscreve em um confronto de alcance muito mais longo que começou muito antes entre o papado e as ordens religiosas.

Com uma diferença substancial: a relação que liga jesuítas e papas pode ser considerada, sim, como uma colaboração – que dura cinco séculos, "sinal de que o que une é maior do que o que divide" – na qual ambas as partes têm o mesmo objetivo, isto é, o bem-estar das pessoas, mas não se pode esquecer que a relação nunca foi e não pode ser igual.

O papado, escreve o historiador, pode muito bem abrir mão dos jesuítas, enquanto estes últimos não podem subsistir sem o papado: foi o Papa Paulo III, com a bula Regimini militantis ecclesiae que lhes conferiu o direito de existir e atuar dentro da da Igreja.

Eis, então, que, na ótica que explica a relação entre papas e ordens religiosas, O'Malley parte das ordens mais antigas como a fundada no século VI por Bento de Núrsia, em Subiaco e Montecassino, uma ordem que determinou um desenvolvimento extremamente significativo da vida religiosa e da evangelização de todo o Ocidente, influenciando também toda a cultura europeia.

A novidade da "Regra" beneditina, ao lado das regras das ordens "mendicantes", dominicanos e franciscanos no século XIII, pôde se expressar e se difundir apenas graças às autorizações papais que as tornaram um braço indispensável para a renovação da Igreja da época e o seu reforço nos anos seguintes. "Um desenvolvimento muito importante para a história da cristandade", comenta O'Malley.

O historiador ilustra as características fundamentais que marcaram a história de uma relação que, na conclusão do Concílio de Trento (1563), tornou-se mais do que sólida. Na época, a Companhia já tinha completado 25 anos e se diferenciava das outras ordens pelo acréscimo do "quarto voto". Aos clássico votos de pobreza, castidade e obediência, os jesuítas devem fazer um voto especial, que os obrigava a se oferecer como resgate para a libertação de um cristão prisioneiro (uma escolha imitada bem cedo, com outras modalidades, por outras congregações, que acrescentavam, por exemplo, o voto de educar a juventude mais pobre).

Em 1540, quando o Papa Paulo III aprovou a Companhia, o quarto voto se tornou uma espécie de obediência mais estrita ao pontífice, entendido como "voto explícito de ir a qualquer lugar aonde Sua Santidade lhe enviar entre os fiéis e os infiéis" (§ 7). Em outras palavras, "a promessa solene de estar pronto para viajar por todo o mundo como missionário", que. a partir de 1550, tornou-se "em defesa e propagação da fé".

É significativa a distinção de O'Malley entre o papado como instituição e os pontífices individuais, com alguns dos quais eles também tiveram momentos de tensão, enquanto, com outros, a relação foi de grande colaboração, principalmente Gregório XIII, o "grande patrono".

O relato, depois, atravessa a dramática situação do século XVIII, quando "o céu escureceu" e, depois de longas vicissitudes entrelaçadas com a política, o Papa Clemente XIV, com o Dominus ac Redemptor, decretou, em 1773, a supressão da Companhia e, depois, a sua reconstituição em 1814, por vontade de Pio VII.

Um amplo espaço é dedicado à missão dos jesuítas no contexto cultural com instituições de prestígio que ainda hoje permanecem no topo, como o Pontifício Instituto Bíblico ou a Universidade Gregoriana.

O pós-Concílio, a parábola do geral Arrupe e a sua atividade no Terceiro Milênio são história de hoje, uma história que ficou constantemente entrelaçada com a do papado, com "problemas de porte grave ou leve".

O que surpreende, conclui O'Malley, é que "essa relação sobreviveu a tantas adversidades e se manteve sólida". A história dessa relação está longe de estar concluída, e hoje assistimos a uma fase absolutamente especial: pela primeira vez, os jesuítas são chamados a interagir com um papa jesuíta. Uma história a ser totalmente escrita.

  • John O’ Malley. I gesuiti e il papa. Editora Vita e Pensiero, 172 páginas.

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