A pluriculturalidade, uma forma de dominação do capitalismo

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09 Novembro 2016

Os conceitos de interculturalidade e pluriculturalidade que predominam na América Latina continuam sendo ferramentas de dominação a serviço do capitalismo porque neles não se pensa “com” nem “desde” as culturas indígenas e afrodescendentes, destacou Catherine Walsh, coordenadora do doutorado em Estudos Culturais Latino-Americanos da Universidade Andina Simón Bolívar, no Equador, durante a conferência inaugural da Cátedra de Multiculturalidade, organizada pela Universidade de Guadalajara (UdeG).

A reportagem é publicada por La Jornada, 07-11-2016. A tradução é do Cepat.

Para iniciar sua exposição, Walsh destacou que atualmente não são os projetos da esquerda tradicional na América Latina que estão trazendo verdadeiros elementos de conhecimento, mas estes vêm emergindo da base e das lutas da América Latina que partem do pensamento ancestral, com a resistência ao neoliberalismo e a ideia de repensar e reconstruir as sociedades e, inclusive, os Estados.

É daí que surgiram as agendas políticas e intelectuais mais importantes hoje em dia, opinou a acadêmica.

Assim, delineou o rumo de sua conferência, que esmiuçaria o conceito de interculturalidade, os eixos do pensamento colonial e decolonial e as relações entre interculturalidade crítica e decolonialismo.

Destacou que geralmente se entende interculturalidade como o reconhecimento da diversidade histórica étnico-cultural de um país ou região, como o atendimento às demandas dos povos ancestrais e a geração de políticas de reconhecimento e inclusão constitucional para eles.

Recordou inclusive que, nos anos 1990, o Banco Mundial pediu aos Estados o reconhecimento de suas etnias e culturas ancestrais, mas esclareceu que essas políticas e demandas possuem fins distintos daqueles que perseguem os povos originários: a interculturalidade assim entendida apresenta uma relação de intercâmbio entre as culturas e esta relação pode ser de igualdade ou desigualdade, o que limita a interculturalidade a um assunto de contato entre diferentes culturas e minimiza o problema que subjaz na relação entre elas, destacou a acadêmica.

Definiu, então, esta interculturalidade como “utilitária”, pois promove o diálogo e a inclusão sem tocar nas causas da dominação.

Walsh explicou que também existe uma perspectiva funcional da interculturalidade, da qual se desprendem conceitos como “pluriculturalidade”, que só promove a convivência entre culturas, e de “multiculturalidade”, que fala em tolerar e incluir a diversidade cultural, mas sem pensar na desigualdade. “Nenhuma muda nada”, disse.

Em sua opinião, estas perspectivas da interculturalidade casam perfeitamente com os projetos neoliberais e transnacionais.

Para explicar melhor este conceito, a acadêmica aprofundou as diferenças entre “multiculturalidade”, que encerra a noção neoliberal de Estados Unidos e o “interculturalismo” europeu. O primeiro – destacou – se ampara na democracia liberal, na liberdade de mercado, na tolerância à diferença e na própria diferença como valor agregado à venda; mercantiliza. O segundo se fundamenta em um “novo humanismo” do diverso e assim humaniza o neoliberalismo e a globalização; como exemplo disto mencionou a declaração universal da UNESCO sobre a diversidade cultural: “em nossas sociedades cada vez mais diversificadas, é indispensável garantir uma interação harmoniosa e uma vontade de conviver de pessoas e grupos com identidades culturais ao mesmo tempo plurais, variadas e dinâmicas. As políticas que favorecem a integração e a participação de todos os cidadãos garantem a coesão social, a vitalidade da sociedade civil e a paz. Definido desta maneira, o pluralismo cultural constitui a resposta política ao fato da diversidade cultural. Inseparável de um contexto democrático, o pluralismo cultural é propício para os intercâmbios culturais e o desenvolvimento das capacidades criativas que alimentam a vida pública” (Artigo 2. Da diversidade cultural ao pluralismo cultural).

Destas formas de entender a interculturalidade se desprendem os que para Walsh são “paradogmas”, que tem a ver com o desenvolvimento humano, a inclusão e coesão social, ao mesmo tempo com novas práticas políticas para gerar um “desenvolvimento humano integral” e uma “educação intercultural”.

O “desenvolvimento humano integral” é compreendido como fator para melhorar a qualidade de vida integral individual e social, tomando em conta que cada indivíduo é fator de desenvolvimento da sociedade; os problemas, então, são gerados no indivíduo e não na estrutura. Daí a necessidade de agregar as pessoas para controlar os conflitos étnicos e a estabilidade social que permita dar andamento à acumulação de capital.

Um fator determinante para isto, segundo Walsh, são as “re-formas” educativas, por meio das quais se assume a “cultura ocidental”, para que penetrem seus conceitos de modernidade, competitividade, valores, etc., na nova sociedade includente. Estas “re-formas”, ditadas a partir de entidades como o PNUD ou a UNESCO, também demandam a administração dos conflitos a essas instâncias. Como exemplo disto, a pesquisadora mencionou a reforma da política educativa mexicana, onde são ponderados aspectos como o amor à pátria, a tecnologia, as competências, entre outros conceitos.

Para Walsh, há uma terceira perspectiva da interculturalidade, que é a “interculturalidade crítica”, que não só é questão de “conduzir-se bem” e conviver, mas que também questiona a lógica do capitalismo e aponta para outra sociedade, transforma radicalmente as estruturas institucionais e as relações sociais, pois se trata de um projeto político, ético e epistêmico que não surge a partir dos Estados, nem a partir da academia, mas a partir dos movimentos indígenas andinos que surgiram nos anos 1980. “Não existe, é algo a ser construído”, destacou a pesquisadora.

Esta interculturalidade crítica se conecta, então, com o “decolonialismo” que pensando “desde” e “com” os povos indígenas e afrodescendentes tentar criar uma nova razão e humanidade que reverta a ideia do eurocentrismo e colonialismo do conhecimento; o uso da raça branca e do varão ocidental como hierarquia de poder; a valorização da razão sobre o sentir-existir como sinal de humanidade; a disposição do homem sobre a natureza.

São então, concluiu Walsh, a interculturalidade crítica e o decolonialismo projetos enlaçados e emergentes que, além disso, questionam o conhecimento único que é enaltecido pelas universidades, pois construir decolonialidade é transgredir, irromper e desmontar a matriz colonial.

Como exemplo de tudo o que foi mencionado, Walsh girou literalmente o mapa do globo terráqueo e sobre essa projeção explicou que em um país como Equador, que se define predominantemente mestiço, sua nova Constituição tem com eixo transversal o conceito de “sumak kawsay”, com o qual os povos quéchuas definiam o “bem viver”, unindo o tangível e o intangível, vivendo em harmonia e complementariedade, sem ter mais, nem menos que o outro.

“É uma concepção de política pública oposta ao capitalismo e o neoliberalismo, um esforço epistêmico, político e ético de pensar de outra forma o país”, finalizou.

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