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08 Novembro 2016

Passo a passo, a reconstrução da intervenção direta do Papa Francisco e de seus emissários na crise venezuelana, em artigo de Sandro Magister, jornalista italiano, publicado por Chiesa.it, 07-11-2016. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

Mistério da informação vaticana. L’Osservatore Romano é apreciado, justamente, pela vastíssima cobertura que proporciona, todos os dias, dos fatos que ocorrem em todo o mundo. No entanto, para saber que o Papa Francisco recebeu em Santa Marta o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro Moros, na tarde do dia 24 de outubro, seus leitores tiveram que esperar o dia 3 de novembro. E ficaram sabendo com as palavras pronunciadas pelo Papa, durante o voo de retorno da Suécia a Roma, citadas na última página do jornal.

Tanto L’Osservatore como o boletim oficial da Santa Sé mantiveram um silêncio total sobre o papel do Vaticano no início dos colóquios entre o regime de Maduro e a oposição, que começaram justamente após o inesperado encontro entre o Papa e o presidente venezuelano.

Efetivamente, a partir do dia 24 de outubro, L’Osservatore Romano publicou, todos os dias, notícias muito detalhadas sobre os acontecimentos na Venezuela, mas sem dedicar uma só frase ao que mais era notícia, a saber: o compromisso direto do Papa e da Santa Sé nas ocorrências venezuelanas, com seus emissários no país.

Reconstruamos, então, esta história, partindo dos antecedentes.

A primeira tentativa de diálogo entre o governo e a oposição, com a presença na mesa de negociações do núncio na Venezuela, Aldo Giordano, remonta ao mês de abril de 2014. Também nessa ocasião o Papa se expôs pessoalmente para apoiar tal diálogo, em especial com uma mensagem dirigida ao presidente Maduro, aos membros do governo, aos representantes da oposição e aos membros da União das Nações Sul-Americanas (UNASUL).

A tentativa morreu ao nascer e não serviu para nada uma segunda chamada do Papa, no mês de setembro daquele mesmo ano, lida pelo núncio Giordano, durante um encontro inter-religioso pela paz promovido em Caracas pelo conselho nacional dos leigos da Venezuela.

Passarão dois anos antes que uma chama se acenda. Enquanto isso, a Venezuela cai em uma crise cada vez mais devastadora.

No dia 25 de julho de 2016, o secretário geral da UNASUL, o ex-presidente colombiano Ernesto Samper Pizano, escreve uma carta ao Papa em seu nome e de outros três ex-presidentes: o espanhol José Luis Rodríguez Zapatero, o panamenho Martín Torrijos e o dominicano Leonel Fernández.

Na carta, os quatro solicitam à Santa Sé que participe do grupo dos “facilitadores” do diálogo entre governo e oposição na Venezuela.

O Papa não responde a carta, quem faz isto é seu secretário de Estado, o cardeal Pietro Parolin, que conhece muito bem a Venezuela, pois foi núncio neste país de 2009 a 2013. Em sua resposta de 12 de agosto, Parolin declara a disponibilidade da Santa Sé, com a condição de que sejam as partes interessadas, governo e oposição, as que formulem o convite e se demonstrem “receptivas em acolher as prováveis sugestões”.

No entanto, muitos dos bispos da Venezuela são céticos. “Um governo que não proporciona alimentos e remédios aos cidadãos, que proíbe as organizações religiosas e sociais aliviar o sofrimento da população, carece de autoridade moral para invocar o diálogo e a paz”, disse o arcebispo de Cumaná, Diego Padrón Sanchez, presidente da conferência episcopal, no último mês de julho.

O arcebispo de Mérida, Baltazar Enrique Porras Cardozo, que no dia 9 de outubro foi incluído pelo Papa Francisco na lista dos próximos novos cardeais, é ainda mais crítico a respeito do regime de Maduro.

Na tarde do dia 24 de outubro, golpe de cena. Maduro faz uma escala em Roma, em seu retorno de uma viagem a alguns Estados petrolíferos do Oriente Médio, e é recebido na Residência Santa Marta pelo Papa Francisco. O encontro é privado e não existem nem fotos, nem comunicados oficiais. Mas, a presidência venezuelana e diferentes órgãos de imprensa, entre os quais a Rádio Vaticana e o blog Il Sismografo, publicam a notícia com imagens da audiência anterior de Maduro, em 2013 – que foi oficial, razão pela qual ocorreu no Palácio Apostólico -, como se estivesse apoiando uma nova “bênção” do Papa a seu hóspede.

Na Venezuela, as primeiras reações entre os críticos ao regime são de desconcerto. Desconcerto que aumenta quando chega a Caracas como enviado do Papa, no dia 25 de outubro, o núncio da Argentina, Emil Paul Tscherrig, com o mandato de iniciar um diálogo exatamente no momento em que “o país está no limite” e o “muro contra muro” entre Maduro e a oposição está em seu ápice, como intitula L’Osservatore Romano.

O recém-nomeado cardeal Baltazar Porras declara que não havia sido informado da chegada de um enviado da Santa Sé, ao passo que o núncio em Caracas, Giordano, silencia, aparentemente retraído por seu colega procedente de Buenos Aires, por ordem do Papa.

Tscherrig, ao contrário, fala e atua. Reúne-se em separado com expoentes do governo e da oposição - embora por uma parte desta lhe rejeite -, e anuncia uma primeira roda de conversas na ilha de Margarita.

A tensão atinge seu nível máximo na sexta-feira, 28 de outubro, com o país paralisado por uma greve geral e “à beira do abismo”, como intitula, novamente, “L’Osservatore Romano”.

Contudo, depois, lentamente, algumas peças começam a se encaixar. Tscherrig sai de cena e em seu lugar chega de Roma o “verdadeiro” emissário do Papa, o arcebispo Claudio Maria Celli, anteriormente presidente do dissolvido Pontifício Conselho para as Comunicações Sociais e, sobretudo, diplomata com uma grande experiência internacional, desde China até América do Sul.

Celli chega a Caracas trazendo em mãos uma carta “em nome do Papa Francisco”, dirigida a todas as partes envolvidas.

A carta exorta a não desqualificar ninguém como um “inimigo absoluto e eterno”, porque também “o inimigo mortal de hoje pode se tornar um companheiro indispensável no caminho para o futuro”.

Novamente, “em nome do Papa Francisco” pede que “acordem”, no início deste processo, “alguns gestos concretos que demonstrem boa vontade das duas partes”.

Efetivamente, isto é o que acontece. A Mesa da Unidade Democrática, a coalizão anti-regime que no parlamento tem a maioria, suspende o procedimento para destituir o presidente Maduro e cancela a marcha de protesto programada para o dia 3 de novembro até o palácio presidencial. Por sua parte, Maduro liberta um pequeno grupo de mais de cem prisioneiros políticos detidos nas prisões venezuelanas.

E assim, no domingo, dia 30 de outubro, as partes se reúnem pela primeira vez. Não na ilha de Margarita, como estava previsto inicialmente por razões de segurança, mas em Caracas, no Museu Alejandro Otero. Os expoentes da oposição presentes são cinco, entre os quais o presidente da  Mesa da Unidade Democrática, Jesus Torrealba. Por outro lado, não estão presentes os representantes da Vontade Popular, cujo líder, Leopoldo López, é o mais famoso dos prisioneiros políticos ainda na prisão.

As partes ficam com o compromisso de voltar a se reunir no dia 11 de novembro e iniciar quatro mesas de discussão concretas, a saber: o respeito ao estado de direito, as indenizações às vítimas, a agenda eleitoral e, por último, a situação econômica do país.

No primeiro encontro – e assim será no sucessivo – tomaram parte, no papel de “facilitadores”, os quatro ex-presidentes, Samper, Zapatero, Torrijos e Fernández, junto com o emissário vaticano Celli. Mas, acima de todos eles, percebe-se a presença decisiva do Papa Francisco, como destacou o próprio Celli em uma entrevista concedida a Rádio Vaticana:

“Esta era a consciência comum, e a própria oposição me repetiu várias vezes: ‘Estamos aqui só porque você está!’, ou seja, o papel que a figura do Papa Francisco possui neste contexto é fundamental. Os próprios ex-quatro presidentes destacaram, todos, que se a Santa Sé não estivesse presente neste caminho com a sua presença, este caminho não teria nem sequer começado. Posso dizer isto com muita serenidade. O próprio ex-presidente do governo Zapatero, espanhol, a respeito do qual todos nós conhecemos a trajetória e história, reconheceu oficialmente, em público, que tudo isto se deve à presença do Papa Francisco e, portanto, à presença da Santa Sé que acompanha este processo de diálogo”.

Também a presidência da conferência episcopal se associa à efetivação do diálogo, com um chamado às partes a uma “total adesão ao Santo Padre em seus esforços em favor do povo venezuelano”.

É neste momento que Francisco decide falar pessoalmente do acontecido. Faz isto no dia 1º de novembro, no voo de retorno a Roma da Suécia, país em que esteve para celebrar os quinhentos anos da Reforma Luterana.

Interpelado pela jornalista espanhola Eva Fernández, a respeito da audiência com Maduro e o início das conversas, o Papa responde textualmente:

“Sim, o Presidente da Venezuela pediu um encontro e uma audiência porque vinha do Oriente Médio, do Qatar, dos outros Emirados e fazia uma escala técnica em Roma. Havia pedido um encontro antes. Veio em 2013, depois pediu outra audiência, mas adoeceu e não pôde vir, e pediu esta. Quando um Presidente solicita, é recebido, mais ainda porque estava em Roma, em escala, e o ouvi por meia hora nesta audiência; ouvi, fiz alguma pergunta e ouvi sua opinião. Sempre é bom ouvir todas as opiniões. Ouvi sua opinião”.

“Em relação ao segundo aspecto, o diálogo: É o único caminho para todos os conflitos. Para todos os conflitos. Ou se dialoga ou se grita, mas não há outro caminho. Eu me esforço ao máximo, de coração, no diálogo e acredito que se deve ir por este caminho. Não sei como terminará, não sei, porque é muito complicado, mas as pessoas que se comprometeram com o diálogo são pessoas de uma estatura política importante. Zapatero, que foi duas vezes presidente do Governo da Espanha, e Restrepo [e todas as partes] solicitaram à Santa Sé que esteja presente no diálogo. E a Santa Sé designou o núncio na Argentina, Dom Tscherrig, que penso que agora está lá, na mesa de negociações. O diálogo que favorece a negociação é o único caminho para sair dos conflitos, não há outro... Se o Oriente Médio tivesse feito isto, quantas vidas teriam sido salvas”.

Tomadas ao pé da letra, estas palavras do Papa fariam pensar que ele, naquele momento, não sabia que Celli havia substituído Tscherrig; este é bem conhecido pelo Papa, e amigo, pois já era núncio na Argentina quando Jorge Mario Bergoglio ainda era arcebispo de Buenos Aires.

E este equívoco, junto ao assombroso silêncio de L’Osservatore Romano, poderia ser o sinal de uma não eficiente relação entre a Residência Santa Marta e a secretaria de Estado, ou seja, entre o Papa e o cardeal Parolin, na gestão de toda a operação.

Isto não diminui que, após ter descuidado muito deste país, a aposta do Papa Francisco e da Santa Sé sobre Venezuela tenha sido enorme.

E, curiosamente, atuaram coincidindo com a nomeação como novo superior geral da Companhia de Jesus, a qual o Papa pertence, de um jesuíta da Venezuela, o padre Arturo Marcelino Sosa Abascal, homem com uma grande predisposição às ciências políticas e hoje crítico, em partes iguais, ao “chavismo” ditatorial de Maduro, bem como à debilidade democrática das oposições.

“Audácia do impossível” é a palavra do novo geral dos jesuítas. Muito apropriada a uma iniciativa que está certamente no limite do impossível, como é a pacificação e o renascimento da Venezuela.

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