Ecumenismo hoje: um fruto do Concílio

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03 Novembro 2016

O Santo Padre parecia impecável durante sua visita à Suécia para celebrar a Reforma juntamente com os luteranos. O evento é digno de comentário a partir de muitas perspectivas diferentes, mas, sem dúvidas, a ênfase renovada sobre o ecumenismo é um dos frutos mais óbvios do Concílio Vaticano II.

O comentário é de Michael Sean Winters, publicado por National Catholic Reporter, 01-11-2016. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

O Papa Francisco falou calorosamente dos presentes da Reforma para a Igreja, para toda a Igreja, e mais especificamente por ter trazido a Bíblia de volta para as mãos do povo de Deus. Na verdade, não fosse pela Reforma, a noção bíblica da Igreja como o povo de Deus dificilmente poderia ter desempenhado o papel central que teve na eclesiologia do Vaticano II. A constituição dogmática Dei Verbum restabeleceu a apreciação católica pela Escritura e sua centralidade à vida cristã, recebendo a atenção que merecia entre os outros textos conciliares somente de alguns anos para cá.

Uma das marcas do Vaticano II foi seu afastamento da declaração tradicional de anátemas contra as doutrinas julgadas erradas. O Papa João XXIII, ao abrir o Concílio, indicou que esperava uma abordagem diferente. "A Igreja sempre se opôs a esses erros e muitas vezes até mesmo os condenou, na verdade, com grande austeridade", disse o Papa. "Mas no momento, a esposa de Cristo prefere usar o remédio da misericórdia ao invés das armas da austeridade, acreditando atender às necessidades de hoje ao explicar a validade da sua doutrina mais plenamente em vez de condenar". Seu desejo foi realizado pelo Concílio, que, em vez de condenar os "irmãos separados", emitiu o decreto Unitatis redintegratio sobre o ecumenismo, declarando que: "O Senhor dos séculos, porém, prossegue sábia e pacientemente o plano de sua graça a favor de nós pecadores. Começou ultimamente a infundir de modo mais abundante nos cristãos separados entre si a compunção de coração e o desejo de união. Por toda a parte, muitos homens sentiram o impulso desta graça. Também surgiu entre os nossos irmãos separados, por moção da graça do Espírito Santo, um movimento cada vez mais intenso em ordem à restauração da unidade de todos os cristãos".

Este mesmo documento também levou a longas discussões entre teólogos católicos e luteranos. Essas discussões atingiram grande sucesso em 1999, com a emissão da "Declaração Conjunta sobre a Doutrina da Justificação". Na época da Reforma, este foi sem dúvida o ponto teológico mais controverso entre os dois grupos cristãos, mas, através do diálogo paciente, os teólogos e líderes da Igreja concluíram que  eles compartilhavam um mesmo entendimento da própria doutrina atual, resguardadas as polêmicas atribuídas a essa discussão no século XVI. Ora, isso não aconteceu. Esse foi o resultado de um diálogo longo e paciente. Não preciso nem dizer que a visão do Papa João XXIII de um Concílio que evitasse a condenação foi uma vez mais vista como uma fonte de graça e bênção no documento posterior, que nunca teria sido possível caso o próprio diálogo não tivesse sido uma das conquistas do Concílio.

Muitos de nós aprendemos um monte de bobagens desde a infância. Eu achava que os católicos eram os únicos que acreditavam na Presença Real do Senhor. Lutero também acreditava na Presença Real, mas simplesmente negava a doutrina da transubstanciação, acreditando que o pão ainda estava presente também, da mesma maneira que a humanidade de Jesus ainda estava presente na união hipostática. A leitura da Bíblia tornou-se parte da espiritualidade dos meus pais bem depois, quando eles começaram a frequentar um pequeno grupo de estudos bíblicos na nossa paróquia: eles tinham sido ensinados que isso é apenas tarefa dos sacerdotes.

Mais tarde, estudei sobre as duas Reformas. Não se sabe como teríamos encarado os desafios eclesiais do início do século XVI. Gosto de pensar que eu teria ficado ao lado de Contarini e Pole entre os católicos reformistas, e que houve uma verdadeira Reforma Católica, e não apenas uma Contrarreforma, mas não há como saber. Lutero foi o maior teólogo de seu tempo e talvez a excitação intelectual levaria a melhor. Talvez eu tivesse suspeitado de Cranmer, que não duvidava de suas intuições e sempre mantinha sua esposa bem longe de seu rei. Eu sei que a austeridade de João Calvino, assim como agora, teria tido pouco apelo.

Em 2000, quando fui à Polônia com meu pai, visitei uma igreja em Lublin que tinha um par de púlpitos, um de cada lado da nave. O arcebispo, o grande Jozef Zycinski, nos explicou que a Polônia foi o único país onde a tolerância reinou naquele tempo e que os pregadores protestantes foram convidados a debater com um católico. Nessa ocasião, acontecia uma espécie de debate Lincoln-Douglas eclesial, com um pastor em cada púlpito.

O Papa Francisco analisou o passado para que todos refletissem sobre os mal-entendidos ocorridos e os erros de cada lado. Mais do que isso, ele olhou para o presente e, especificamente, para o vasto testemunho comum de todos os seguidores de Jesus Cristo. Assim como o próprio Cristo veio para curar um mundo ferido, seus seguidores hoje são chamados para o mesmo fim. Isso é o que implica o seu ministério e o que o nosso mundo precisa. O Santo Padre destacou, em especial, as vítimas de guerra, os migrantes e refugiados, o chamado por justiça em nossas sociedades, bem como a necessidade urgente de enfrentar a mudança climática. Se você falar com alguém dos Serviços de Auxílio Católico ou dos Serviços Luteranos Mundiais, saberá o quanto cada um respeita e colabora com o trabalho do outro para trazer o toque da cura de Cristo a quem está perdi do e solitário no nosso mundo.

Feridas de quinhentos anos não são curadas com uma visita. E as divisões que foram deixados pela Reforma ainda são feridas que precisam ser curadas para um dia, quem sabe, se tornarem cicatrizes. Uma cicatriz é uma ferida curada, que ainda - e para sempre - testemunha o machucado original, assim como o poder da cura. Ainda há um longo caminho a percorrer. O Concílio Vaticano II deu os primeiros passos, agora considerados frutíferos. Abençoado Papa Paulo VI, Papa João Paulo II e Papa Emérito Bento XVI continuaran o diálogo e a construção de respeito mútuo. Papa Francisco agora faz a sua intervenção, sempre inteligente e generoso. É obra do Espírito Santo. E fruto do Concílio.

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