Francisco: do “ecumenismo do lobo” à “unidade na diferença”

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02 Novembro 2016

No dia 31 de outubro de 1517, o monge agostiniano Martinho Lutero pregava na porta do Castelo de Wittenberg suas 95 teses, que davam luz à Reforma protestante.

A reportagem é de José Manuel Vidal, publicada por Religión Digital, 01-11-2016. A tradução é do Cepat.

Desde então, 500 anos de separação e ódio entre católicos e protestantes, carregados de excomunhões e de todos os tipos de ataques de ida e volta, com guerras sangrentas, fogueiras e inquisições incluídas. Um ódio só explicável a partir da ótica dos dois irmãos que lutam para ficar com a herança do pai.

Lutero escreve, por exemplo, que “toda a Igreja do papa é uma Igreja de putas e hermafroditas” e que o próprio Papa é “um louco furioso, um falsificador da história, um mentiroso, um blasfemo”. E para muitos protestantes a Igreja católica foi, durante séculos, “a grande prostituta da Babilônia” ou “a grande rameira”. Por sua parte, os católicos também não pouparam críticas e insultos aos protestantes e ao próprio Lutero, que estigmatizaram como “herege” e chegaram a pintar como um monstro de sete cabeças.

Lutero não queria romper a unidade eclesial, mas reformar a Igreja de sua época, Igreja que, já desde o século XIII, se sentia necessitada de purificação, mas sua hierarquia não a permitia. , Valdo de León e Francisco de Assis tentaram fizeram esta tentativa muitos anos antes de Lutero. O primeiro foi declarado herege e o segundo reconduzido à ordem e “normalizado” após sua morte.

A gota que entornou o copo de Lutero foi a grande campanha de vendas de indulgências impulsionada por Roma para erguer a Basílica de São Pedro, com a promessa do céu aos contribuintes. Tanto que proclamava que “a alma voa ao céu no mesmo instante em que soa a moeda jogada no recipiente”. O monge agostiniano se rebelou contra esta fraude simoníaca e propôs a essência da doutrina evangélica: a salvação não se compra, mas se alcança só pela fé e a graça de Deus. Ressaltou, então, que o amor de Deus não se merece e que, na vida cristã, a primazia tem que ser da Escritura e da graça-amor gratuito de Deus.

E o cisma ocorre, ainda que Lutero não quisesse a ruptura, mas a surdez absoluta de Roma para suas reivindicações reformadoras a tornou inevitável. E o Papa Leão X excomungou Lutero de imediato.

Desde então, as tensões se mantiveram vivas até o Concílio Vaticano II, que mudou de ótica e colocou em marcha o diálogo ecumênico. Um diálogo que, a partir dos anos 1960, atravessou diversas etapas. Em um primeiro momento, a Igreja católica apostava no ecumenismo do lobo: comer as ovelhas protestantes para, assim, uni-las ao rebanho. Depois, foi se avançando para um ecumenismo mais respeitoso. E, hoje, o Papa Francisco advoga pelo ecumenismo da unidade na diferença. O cristianismo como poliedro, formado por diferentes rostos e diversas igrejas unidas no essencial, sem que cada uma perca sua própria identidade.


Fonte: Religión Digital

Esta nova dinâmica, que pode conduzir, enfim, à unidade plena, encontra profundas resistências nas alas mais ideologizadas e ‘talibanizadas’ das duas confissões. Os rigoristas católicos e protestantes preferem a desunião e acusam de herege o Papa que tenta cumprir o desejo de Cristo: “Pai, que todos sejam um”. Um gesto sem precedentes, ainda que Francisco já tenha nos acostumado com tais tipos de ações inovadoras. No fundo, o que Bergoglio fez na Suécia é uma reabilitação fática de Lutero que “deu um passo para colocar a Palavra de Deus nas mãos do povo” e, portanto, aproximar a Igreja de suas fontes evangélicas.

Assumindo as bondades da Reforma protestante, o Papa quer demonstrar (fazendo o caminho ao caminhar) que a Igreja pode viver a unidade. Em Lund, ao lado dos luteranos, Francisco reinventa o ecumenismo da carne do pobre e do refugiado. O ecumenismo prático de uma Igreja unida na consciência samaritana, que descobre nos descartados a carne de Cristo. “Exortamos luteranos e católicos a acolher juntos o estrangeiro”, aos que “se veem obrigados a fugir por causa de guerras e perseguições” e “defendamos os direitos dos refugiados e dos que buscam asilo”, clamou na catedral.

Junto ao ecumenismo da misericórdia, o Papa estimulou, em Lund, o “ecumenismo do sangue”, ou seja, o testemunho oferecido pelos mártires de todas as confissões cristãs, que entregam sua vida, cruel ou incruentamente, para que resplandeça o rosto de Deus.

Um ecumenismo humilde e tenaz, que o Papa busca, baseado na cultura do encontro, do diálogo, do conhecimento e da proximidade com o outro. Um ecumenismo que derruba muros e barreiras e faz com que, 500 anos depois, o impossível se torne possível, e católicos e luteranos possam rezar juntos ao seu mesmo Deus. “Temos a possibilidade de reparar, superando os mal-entendidos” e “anunciar juntos a misericórdia de Deus”, disse Francisco na oração conjunta na catedral sueca de Lund.

E, depois, em evento ecumênico, lançou aos cristãos, a todos os cristãos, uma campanha mundial, na qual todos juntos “protagonizemos a revolução da ternura”. Após 500 anos, os irmãos separados se abraçam e decidem caminhar juntos para a unidade plena nas fileiras da misericórdia, o máximo distintivo de Deus.

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