EUA. Igrejas e partidos políticos estão em apuros

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25 Outubro 2016

"A semelhança entre os problemas encarados pelas instituições políticas e religiosas não nos devem surpreender. Ambas as instituições são compostas de pessoas. Ambas as instituições estão lutando para lidar com questões mais importantes que a humanidade tem enfrentado. As instituições políticas e religiosas têm experimentado problemas há séculos, mas de alguma forma a humanidade conseguiu superá-los".

O comentário é de Thomas Reese, jesuíta e jornalista, em artigo publicado por National Catholic Reporter, 20-10-2016. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Eis o artigo. 

No começo da semana passada, num painel sobre as eleições presidenciais ocorrido na Fordham University, me perguntaram: “Há alguma semelhança entre a insatisfação e a falta de engajamento que vemos entre os americanos junto às instituições religiosas com o mesmo fenômeno dos partidos políticos?”

Eis aí uma pergunta instigante. Há alguns paralelos interessantes entre o que acontece nas arenas políticas e religiosas.

Em primeiro lugar, a porcentagem de pessoas que não se identificam com um partido político vem aumentando assim com a porcentagem das pessoas que não se identificam com uma religião. Esta é uma notícia ruim tanto para os partidos quanto para as igrejas.

Em 2014, 39% dos americanos se identificavam como independentes, 32% como democratas e 23% como republicanos, de acordo com o Centro de Pesquisas Pew. Um relatório emitido pelo grupo informa que “esta é a porcentagem mais alta de independentes em mais de 75 anos de pesquisa”.

Da mesma forma, o número de pessoas que se identificam como “sem religião” tem crescido. Hoje, segundo a PRRI [organização sem fins lucrativos dedicada a conduzir pesquisas de opinião pública nos EUA], 25% da população americana se identifica como sem religião. Aproximadamente o mesmo número de pessoas que se identificam como católicos.

É especialmente entre os jovens que a porcentagem dos sem religião tem aumentado. Quase 40% dos americanos abaixo dos 30 anos dizem não estar filiados a alguma religião. O afastamento dos jovens das instituições religiosas é um fenômeno crescente.

Os jovens tendem a se identificar como independentes em termos políticos mais do que os mais velhos.

Este afastamento crescente não soa bem para os partidos políticos nem para a religião organizada.

Os motivos pelos quais as pessoas abandonam a religião organizada e os partidos políticos se assemelham:

• A instituição não satisfaz as suas necessidades. Os partidos e as igrejas não estão servindo às necessidades de muitas pessoas, especialmente as mais jovens.

• Elas não acreditam nas plataformas dos partidos (e nos ensinamentos das igrejas). Os partidos e as igrejas estão falando a ativistas e às elites, não às pessoas reais.

• Elas estão desiludidas com as lideranças institucionais. Líderes políticos e religiosos foram pegos em mentiras e acobertamentos. Inúmeros foram pegos em escândalos sexuais e improbidades financeiras. Elas não creem na transparência. Os seus líderes usam os cargos para a melhoria das condições de vida de si próprios ao invés de servir ao povo. Consequentemente, vê-se que somente 3% dos americanos têm uma forte confiança em que as autoridades eleitas atuarão para o bem público. Os líderes religiosos recebem uma avaliação ligeiramente melhor aqui: 13%.

Em suma, as pessoas se sentem traídas e abandonadas pela instituição, e a resposta que dão é abandoná-la – seja um partido, seja uma igreja.

Os conflitos intrapartidários e nas organizações religiosas também são significativos. Vários grupos se debatem internamente nas instituições, sejam igrejas ou partidos.

O Partido Republicano divide-se entre evangélicos, elites empresariais, ativistas conservadores e políticos do establishment. As divisões são tão grandes que muitos analistas ficam se perguntando se o partido irá sobrevier a esta eleição.

Os democratas dividem-se entre ativistas progressistas e políticos do establishment. Não está sendo fácil para Hillary Clinton conseguir o apoio dos que preferiam Bernie Sanders como o candidato do partido. Sem eles, a candidata está em perigo.

Da mesma forma também, as igrejas estão divididas. Os ativistas católicos progressistas não gostam de Bento e, agora, as elites católicas conservadoras estão insatisfeitas com Francisco. Como é possível ver nos e-mails hackeados da campanha de Clinton e divulgados pelo WikiLeaks, católicos progressistas criticam católicos conservadores, enquanto uma leitura em blogs conservadores irá mostrar conservadores fazendo o mesmo para com os católicos do outro lado do espectro.

Estas disputas religiosas e políticas são interpretadas em termos apocalípticos: o mundo chegará ao fim se meus opositores vencerem. Aqueles que estão neste combate veem tudo como uma questão de princípio, que não pode ser comprometido. As lutas são em geral amargas com as pessoas abandonando o partido ou a igreja caso percam.

Uma diferença entre os conflitos políticos e os conflitos religiosos é que aqueles que se dão no segundo grupo diminuíram nos EUA, enquanto que os conflitos partidários aumentaram.

Os católicos, por exemplo, possuem uma melhor relação com os protestantes históricos, com os evangélicos, com os judeus e com os mórmons do que em qualquer outro momento da história americana. Não é perfeita, mas a atitude dos organismos religiosos entre si está muito melhor do que já fora no passado. A única grande exceção é o Islã, que vem sofrendo com o antagonismo crescente no país.

Em resumo, o ecumenismo vem tendo sucesso onde o bipartidarismo fracassou. O partidarismo alcançou novos patamares quando o Congresso de maioria republicana decidiu, em princípio, se opor a qualquer coisa que viesse da pauta de Obama.

Mas os grupos religiosos são mais duros contra os dissidentes em suas próprias fileiras do que contra os fiéis de outras tradições religiosas. Eu ainda me surpreendo com o fato de que durante os últimos dois papados os líderes católicos se mostravam dispostos a dialogar com as pessoas de qualquer outra religião ou igreja, mas o mesmo não acontecia para com os católicos dissidentes.

Por outro lado, os membros partidários odeiam os opositores políticos dentro e fora de suas fileiras partidárias. Muitas vezes a única coisa que une os membros de um partido é a oposição que fazem a um outro grupo. Nas primárias eles podem brigar como malucos, mas se unem contra o outro partido durante a convenção.

As igrejas, em sua maior parte, superaram isso e não mais querem brigar umas contra as outras.

Uma última semelhança é que os seguidores religiosos e partidários estão em busca de um líder messiânico para implementar os seus planos e salvar o mundo. Os católicos conservadores viam este líder em João Paulo II, enquanto os católicos progressistas olham para Francisco. Os democratas do antiestablishment voltaram-se para Bernie Sanders, e os republicanos antiestablishment voltaram-se para Donald Trump. Tipos comuns do establishment gostam de Hillary Clinton e Jeb Bush.

O problema em colocar as esperanças em um líder é que se pode acabar decepcionado, como muitos democratas ficaram com o presidente Obama. Este não conseguiu realizar tudo o que prometeu, embora os seus defensores vão ressaltar que foi o Congresso republicano que o deteve.

A semelhança entre os problemas encarados pelas instituições políticas e partidárias não nos devem surpreender. Ambas as instituições são compostas de pessoas. Ambas as instituições estão lutando para lidar com questões mais importantes que a humanidade tem enfrentado. As instituições políticas e religiosas têm experimentado problemas há séculos, mas de alguma forma a humanidade conseguiu superá-los.

Hoje, no entanto, as apostas são muito altas. Precisamos acertar. Precisamos descobrir como fazer estas instituições trabalharem para o bem comum de toda a humanidade.

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