Cheiro de velas apagadas: a Reforma na Suécia, aos olhos do povo

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24 Outubro 2016

Intitula-se "O cheiro das velas apagadas", em sueco "Doften av rykande vekar", e é o livro mais discutido nos círculos culturais católicos e luteranos nestes meses de expectativa para a comemoração da Reforma em Lund.

A reportagem é de Angela Ambrogetti, publicada no sítio ACI, 21-10-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O livro, editado pelo jesuíta Fredrik Heiding e por Magnus Nyman, historiador e sacerdote, recolhe estudos e aprofundamentos sobre a história da Reforma Luterana na Suécia, a partir de uma perspectiva "popular": como os fiéis simples viveram esse turbilhão?

Entre as contribuições, além de historiadores e estudiosos católicos, também uma reflexão do pastor Per Äkerlund, que defende que a profunda reflexão teológica presente há séculos nas Igrejas Católica e Ortodoxa e a sua liturgia e espiritualidade fazem com que seja necessário "dirigir-se a elas no futuro quando se quiser saber o que é a fé cristã".

A entrevista a seguir é com Magnus Nyman, um dos editores do livro.

Eis a entrevista.

O livro de vocês foi recebido com espanto. Por quê?

Primeiro, os historiadores da Igreja e muitos historiadores em geral descreviam a Reforma como a vitória da razão. O pensamento de fundo era a passagem das trevas à luz. Não é mais assim. Agora, quase todos concordam que a Reforma na Suécia foi imposta de cima para baixo e que, inicialmente, havia muito pouco apoio popular. Isso é o que nós dizemos na nossa coleção de estudos, e parece que isso foi acolhido como uma provocação na Svenska kyrkan [Igreja da Suécia]. Eu acho que o principal problema deles é que os nossos diversos capítulos, no fim, dão uma visão bastante triste daquilo que a Reforma deu à Suécia em termos culturais: o fechamento de conventos, hospitais, escolas das catedrais, da Universidade de Uppsala, menos contato internacional etc., e também uma liturgia dominada pela palavra, pela escuta e pela homilia. As cinco revoltas durante o século XVI, até mesmo contra a nova doutrina, confirmam a imagem de resistência popular. O paradoxo é que muito do que foi proibido daquela vez volta agora como peregrinações, visitas a mosteiros, ícones, sinal da cruz, literatura católica. O livro afirma que as tradições católicas e a literatura e a teologia católica se encontram novamente no centro da vida de muitos cristãos. Talvez isso também seja um pouco uma provocação para o establishment luterano.

A história da Reforma é dramática na Suécia. Como vocês a contaram?

Não concentramos a atenção nos grandes pensadores – Lutero já foi abordado a partir de muitas perspectivas diferentes – mas sim nas reações do "povo" às novidades. Nós, que escrevemos os estudos, representamos diversas disciplinas históricas, e todos somos especialistas naquele período. Escrevemos como estudiosos, mas para um público mais amplo. Abordamos as revoltas populares, as ideias do povo, a dissolução das associações religiosas e o fechamento de todos os 200 mosteiros e conventos nos países nórdicos, aquilo que aconteceu com os habitantes dos mosteiros, como foi articulada a nova ideologia litúrgica, a tentativa dos jesuítas de tentar se estabelecer na Suécia e os jovens suecos que estudaram com eles em outros países.

Que importância tiveram as ordens religiosas para a fé católica?

Uma importância muito grande. Acima de tudo, era importante denegrir e expulsar as ordens mendicantes. Elas se encontravam nas cidades e podiam contrastar a primeira propaganda luterana que aparecia justamente nas cidades. Eu escrevi um capítulo justamente sobre esse assunto. Em muitos lugares na Suécia, houve muita violência durante o fechamento dos conventos. Lendo as descrições, tem-se a impressão de que aqueles que entram nos conventos são mais bandidos do que reformadores. Três dos franciscanos em Ystad morrem enquanto são expulsos. Evidentemente, os freis eram vistos como um perigo para os novos pensamentos. O último convento que é fechado na Suécia é o brigidino em Vadstena, em 1595. Com o seu fechamento, a Igreja Católica perde a sua última base na Suécia.

Como historiador, ex-luterano e hoje padre católico, como você vê o futuro do cristianismo na Suécia?

Eu nunca me vi como "luterano". Ainda quando adolescente, eu me inspirava na teologia católica e, especialmente, na ideia dos mosteiros através das viagens pelo continente. Esperava poder trabalhar como padre na Svenska kyrkan de maneira ecumênica para aproximá-la da Igreja Católica. Mas logo entendi que se tratava de uma ilusão. Ao contrário, as diferenças só aumentavam. A minha família se converteu quase 33 anos atrás. Eu me tornei padre católico há 15 anos e foram anos fantásticos. A Igreja Católica está crescendo nos países nórdicos, há confiança no futuro e muito entusiasmo, e então é fácil esquecer que apenas 5% da população sueca vai a uma liturgia aos domingos, e que o número está caindo, exceto entre nós, católicos, e entre os ortodoxos. Estou convencido de que o cristianismo terá um futuro na Suécia, mas, para o futuro mais imediato, será uma minoria. Provavelmente com essa minoria a Igreja Católica terá uma tarefa importante.

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