Aleppo, o diário do pároco

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21 Outubro 2016

Publicamos trechos do diário do frei Ibrahim Alsabagh, o pároco da igreja franciscana da cidade de Aleppo, a poucos metros da linha do fronte.

O texto foi publicado no jornal La Repubblica, 20-10-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

26 de janeiro de 2015

Há alguns dias, o governo anunciou um aumento do preço do diesel, do gás, da gasolina. Consequentemente, o custo do pão e de todos os alimentos aumentou consideravelmente. Respira-se um ar de desespero: idosos doentes que sofrem o frio além de qualquer medida, crianças e mulheres com fortes sintomas de desnutrição, famílias que não conseguem mais pagar o aluguel, pessoas, principalmente pais, que não se preocupar mais em se cuidar e que, portanto, relatavam graves danos à saúde, chegando a causar a morte.

Nesta manhã, vieram até nós um pai e uma mãe de cinco filhos universitários; a mãe me sussurrou que tem uma doença nos olhos e que deveria se submeter a uma cirurgia, mas, com os poucos recursos restantes, prefere pagar as mensalidades dos filhos. Algum tempo atrás, uma senhora idosa me mostrou uma pistola carregada, dizendo estar pronto para tirar a própria vida "de modo digno", caso não conseguisse mais suportar as dores e o desespero.

No dia 5 de janeiro, começou o período das provas universitárias; nas casas, faltam eletricidade e aquecimento. Eu decidi abrir uma sala de leitura na paróquia: ela pode acomodar até 60 jovens.

Ontem, notando que diversos jovens ficavam sem comer, compramos pão e chocolate: foi o melhor presente.

29 de setembro de 2015

Um míssil caiu justamente atrás da nossa igreja de São Francisco, no bairro de Azizieh. No dia seguinte, vi uma imensa extensão de ruínas e escombros. Um pai me confessou que já tinha reformado a casa duas vezes, mas agora não conseguia nem mesmo pensar em recomeçar os trabalhos. Assim, ele fugiu com a esposa e os filhos. Ontem, para complicar a situação, faltou água de novo. A vida em Aleppo é absurda, e eu não pergunto mais por que as pessoas tentam emigrar, porque se confiam ao mar arriscando tudo, a própria vida. De acordo com a razão humana, permanecer aqui é uma loucura.

07 de fevereiro de 2016

O resultado dos bombardeios incessantes é sempre o mesmo: morte e destruição. Dois cristãos foram mortos, vários feridos, e inúmeras são as casas danificadas. Como não desanimar? Tínhamos acabado de reparar os danos dos mísseis que já caíram, quando chegaram novas bombas. Além da acolhida e do serviço espiritual, nós, frades, compartilhamos o bem mais precioso que existe hoje em Aleppo: a água do nosso poço.

Os lançamentos de mísseis por parte dos grupos jihadistas e rebeldes continuaram também durante a noite entre 4 e 5 de fevereiro. As explosões atingiram o bairro de Midan, que é a área de maioria cristã.

A destruição foi total. Tentem imaginar o que significa estar aqui enquanto caem mísseis e bombas. Uma idosa chorava, contando que as pessoas não sabiam o que fazer: sair das casas e fugir com o perigo de encontrar a morte pelas estradas? Ou ficar fechado dentro de casa, com o risco de que os mísseis as destruam?

Algumas famílias decidiram passar a noite no frio, na entrada das suas casas, outras no porão. Uma senhora que segurava nos seus braços o seu bebê bateu na nossa porta pedindo ajuda e nos contando sobre as muitas pessoas que ficaram debaixo dos escombros. De nada valeram os seus gritos: ninguém interveio para prestar socorro. Os feridos ficaram enterrados durante horas, junto com os cadáveres.

Mas não não nos rendemos. Distribuímos alimentos. Muitos, especialmente famílias com crianças pequenas, batem na nossa porta aterrorizados.

A maioria não consegue sequer fugir: é preciso muito dinheiro, e essas famílias não têm nem para a comida. Permanece o problema da água potável, mas também de encontrar água para a higiene pessoal. As pessoas estão tão desesperadas que andam por aí debaixo dos mísseis, a fim de pegar água das torneiras pelas ruas.

01 de maio de 2016

Hoje, durante a missa, caíram mísseis com a igreja muito lotada, mas mesmo assim conseguimos continuar a celebração. Em Er-Ram, durante a missa das 18 horas, estavam presentes mais de 70 pessoas. Várias pessoas que até agora conseguiram resistir e não queriam emigrar agora começam a pensar na fuga. Muitos também são tomados por ataques de pânico e colapsos nervosos.

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