O humanismo diante da Reforma. Entrevista com Franco Buzzi

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21 Outubro 2016

Dos dois centenários, um está às portas, o outro quase no fim. Porém, não se entende o ano de 1517 (não totalmente, ao menos) se não se levar em conta 1516. Antes das 95 teses de Martinho Lutero sobre a legitimidade das indulgências, de fato, no ano anterior, em Basileia, houve a publicação do Novum Instrumentum Omne, ou seja, a edição crítica do texto grego do Novo Testamento preparada por Erasmo de Rotterdam com grande abundância de aparatos e com uma tradução latina que, deliberadamente, ignorava a ditado da Vulgata.

A reportagem é de Alessandro Zaccuri, publicada no jornal Avvenire, 18-10-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

"O Novum Instrumentum de 1516 é bem conhecido por Lutero – lembra o prefeito da Biblioteca Ambrosiana de Milão, Mons. Franco Buzzi –, que o usa no mesmo ano para o seu comentário ao capítulo 8 da Carta aos Romanos. Cinco anos mais tarde, em 1521, quando em poucas semanas Lutero traduziu para o alemão todo o Novo Testamento, ainda é do trabalho de Erasmo que ele se vale e, para ser exato, da segunda edição do Novum Instrumentum, que apareceu em 1519 em uma veste muito maior".

É uma trama que o Mons. Buzzi conhece bem. Um dos fundadores da Academia de Estudos Luteranos na Itália (Asli), ele dedicou contribuições importantes à época da Reforma, sem, por isso, desprezar a divulgação de alto perfil (é muito recente o sintético La Bibbia di Lutero, realizado em coedição pela protestante e Claudiana e pela católica Emi, 96 páginas).

Há algum tempo, o estudioso está envolvido na reorganização dos seus ensaios em uma obra abrangente, La porta della modernità [A porta da modernidade], da qual a editora Jaca Book publicou em 2014 o primeiro volume, intitulado justamente a "Erasmo e Lutero" (292 páginas).

Nos últimos meses, foi publicado, pela mesma editora, o segundo volume, Religione, cultura e scienza a Milano. Secoli XVI-XVIII [Religião, Cultura e Ciência em Milão. Séculos XVI-XVIII] (546 páginas), em que se destacam os cardeais Carlo e Federigo Borromeo.

No terceiro, em preparação, a atenção irá para as questões cruciais da felicidade e da liberdade.

Eis a entrevista.

Voltemos por um momento ao encontro entre Lutero e Erasmo.

"O encontro, se quisermos usar esse termo, ocorreu no território do humanismo, que desempenha um papel importante na formação de Lutero", responde o Mons. Buzzi. "Penso de modo particular nos contatos com os círculos humanistas de Erfurt e de Wittenberg, dos quais decorre o interesse de Lutero por uma instrumentação que permita ter acesso aos textos em língua original. Com um duplo resultado: a correta filologia, por um lado, e, por outro, a constituição da moderna língua alemã, que, através da tradução da Bíblia realizada por Lutero, torna-se língua nacional."

E no plano teológico?

Aqui, Lutero só pode tomar distância do humanismo e, consequentemente, do próprio Erasmo. Nada está mais longe da sua visão de mundo do que um antropocentrismo que torna o homem dono do seu próprio destino, elevando-o a artífice da própria felicidade. Um pequeno deus do qual tudo depende, incluindo a organização política da sociedade. Para Lutero, isso é inaceitável, porque representa uma diminuição da glória de Deus por parte de uma criatura que traiu a própria vocação original de servir e adorar o próprio Deus na fé.

Mas se Lutero é anti-humanista, como é possível que o protestantismo seja considerado Iluminista?

Estamos diante de um equívoco posto em circulação pela historiografia do século XX e já presente, ao menos em parte, em alguns autores do século XIX, para os quais Lutero teria sido o paladino de uma liberdade que, para usar a terminologia kantiana, permite que o homem saia do estado de minoria. Lutero, na realidade, é tudo menos um precursor do Iluminismo. Ao contrário, nos seus escritos, encontra-se uma clara denúncia dos riscos decorrentes da domina ratio, ou seja, de uma razão absolutizada e transformada em divindade. Para Lutero, só existe uma liberdade, que decorre ao cristão do dom da graça, em virtude da qual o homem é libertado de si mesmo e do mal. Trata-se de um caminho espiritual, não de uma proclamação política: pela fé, o homem é livre de tudo e serve apenas a Deus; pela caridade, é servo de todos em tudo.

O humanismo poderia representar um caminho para impedir o cisma entre Lutero e a Igreja?

Nos primeiros anos da Reforma, uma recomposição ainda era possível, mas não através do humanismo. E não graças a Erasmo, poderíamos acrescentar. Lutero reconhecia a ele a superioridade em matéria linguística e filológica, mas não compartilhava, absolutamente, as suas posições teológicas, por mais que, em algumas questões particulares, as suas convicções fossem muito semelhantes.

A que você se refere?

Às críticas dirigidas à teologia da época e, neste caso, a uma pregação que se contentava em repetir as fórmulas vazias e abstratas da Escolástica tardia, sem se preocupar minimamente em ir ao encontro das autênticas exigências espirituais dos fiéis. Erasmo é animado por um sentido profundo do Evangelho, que, para ele, se coloca em sintonia perfeita com a razão. Lutero, ao contrário, se coloca na tradição da teologia agostiniana, que atribui uma função fundamental à ação da graça. Eis, o agostinianismo, muito mais do que o humanismo, poderia ter impedido que se consumasse a ruptura com Roma.

Isso significa que, originalmente, as posições não eram irreconciliáveis?

Não, na origem não. O repúdio recíproco poderia ter sido evitado, até porque a posição oposta à de Lutero, isto é, a que institui o primado das obras em relação à graça, já havia sido condenada há muito tempo sob a forma da heresia pelagiana.

Então, de onde vêm esses cinco séculos de contraposição?

Em boa parte, dos desenvolvimentos do pensamento de Lutero posteriores ao confronto frontal com Roma. O problema não é tanto a questão dos sacramentos, mas uma visão eclesial que desconhece a sucessão apostólica e desvaloriza o sacerdócio ministerial em total benefício da investidura sacerdotal decorrente do batismo.

Papa Francisco falou de Lutero como de um reformador da Igreja.

Sim, ele fez isso inserindo-se justamente em uma linha historiográfica já bem estabelecida. Hoje, sabemos que Lutero não tinha nenhuma intenção de fundar uma nova Igreja. O seu desejo era, no máximo, o de levar a única Igreja de volta à pureza das origens. O resto, além da obstinação dos teólogos, é o resultado da ação dos príncipes alemães, que, há muito tempo, esperavam a oportunidade para escaparem da esfera de influência de Roma. Patrocinando Lutero, a nobreza da Alemanha não fez nada mais do que favorecer os próprios interesses.

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