O superior dos jesuítas: reconciliação entre pessoas, povos e com a Criação

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20 Outubro 2016

Reconciliação entre pessoas, povos e com Deus, e também com a Criação. Este é o desafio que a Companhia de Jesus deve enfrentar neste momento da sua história. O novo superior geral da ordem fundada por Santo Inácio de Loyola em 1540, o venezuelano Arturo Sosa Abascal, de 68 anos, o explicou durante a sua primeira entrevista coletiva depois da sua eleição de sexta-feira passada. Não se trata de um programa de governo, mas da constatação de que (diante das guerras em andamento ou da crise migratória, diante da pobreza ou da urgência ecológica) os jesuítas são chamados a “buscar o impossível” com esperança, nada mais que “uma maneira de expressar a fé”. E para isso os jesuítas devem caminhar com as duas pernas do “serviço à fé” e da “profundidade intelectual”.

A reportagem é de Iacopo Scaramuzzi e publicada por Vatican Insider, 18-10-2016. A tradução é de André Langer.

“Buscar o impossível”, palavras que o padre Sosa utilizou desde a primeira homilia na Igreja do Gesù, “é a missão dos cristãos”. E ao responder às perguntas dos jornalistas, esclareceu: “é uma maneira de expressar a fé: quem tem fé é capaz de esperar o impossível, a esperança nos ajuda a fazer o que esperamos. Quando se analisa o mundo, quando se vê os poderes econômicos, os poderes das armas, do narcotráfico, do tráfico de pessoas, tão fortes que parecem imbatíveis, parece que não há nada a se fazer, pode-se tornar pessimista e, ao contrário, o improvável é possível: é possível viver em paz, é possível uma economia solidária, é possível ter estilos de vida que respeitem a Criação, ter comida para comer em casa, ter uma coisa, uma escola... tudo isto é um grande desafio para a Companhia de Jesus, e sem a fé não se faz nada”. Esta é a primeira das duas “pernas” com as quais os jesuítas caminham. “A outra perna é a profundidade intelectual”, porque para enfrentar estes desafios é necessário “compreender o que está acontecendo, aprofundar o conhecimento científico, cultural, pessoal, pensando e agindo ao mesmo tempo”.

O padre Sosa precisou: “Ainda não tenho claro como governar a Companhia, e também nem poderia, porque a Congregação que me elegeu acaba de começar, e agora passa à fase deliberativa”, com a aprovação dos decretos programáticos e com a eleição do governo central da Companhia de Jesus que ajudará o geral venezuelano: quatro assistentes “ad providentiam” e um “ammonitore”, que se ocupa de zelar pela sua saúde física e mental. “Mas – acrescentou o padre Sosa –, não se coloca em discussão o sentido da nossa missão, definido claramente depois do Concílio Vaticano II: o serviço da fé e a promoção da justiça tendo em conta as diversidades culturais e mediante o diálogo”. Em particular, as prioridades identificadas em 2008 pela congregação geral que elegeu o predecessor, o padre Adolfo Nicolás, seguem sendo atuais, ou seja: “o diálogo inter-religioso, a questão dos refugiados, os fluxos migratórios de todos os que mudam de país em busca de uma terra melhor, a crise econômica, a pobreza”.

Justamente o Pe. Nicolás, recordou seu sucessor venezuelano, ao convocar esta congregação geral, que foi preparada por uma fase instrutória nas diferentes províncias dos jesuítas de todo o mundo, convidou para identificar quais eram os “chamados” que o Senhor faz hoje à Companhia de Jesus. “Todas as congregações provinciais enviaram suas respostas, e, para mim – disse Sosa –, foi surpreendente que uma palavra aparecia praticamente em todas as respostas: reconciliação. Reconciliação entre todos em várias maneiras! Em todas as regiões do mundo se sente esta fratura, esta ferida profunda que nos divide e se sente também diante das situações graves. Penso na Venezuela, mas, pior, na Síria, no Iraque, nas guerras de que ninguém fala, nas pessoas obrigadas a migrar. Não pode existir o Reino de Deus se não nos reconhecemos entre nós, se não conseguimos viver em paz, se não nos reconciliamos entre nós e se não nos reconciliamos com a Terra que corremos o perigo de arruinar. Então, este é um grande chamado à reconciliação, é um grande desafio para nós que, como Companhia de Jesus que, em companhia de muitos que trabalham conosco, podemos contribuir pelo menos com um pequeno esforço: a reconciliação entre os seres humanos que, ao mesmo tempo, é reconciliação com Deus e com a Criação”.

Durante a entrevista coletiva do novo superior geral dos jesuítas, alguns jornalistas recordaram a expressão que o Papa Francisco dirigiu aos jovens argentinos durante a Jornada Mundial da Juventude no Rio de Janeiro – “Façam barulho!” e o Padre Sosa respondeu: “Já participei de muitos barulhos, e haverá outros novos! O que penso que o Papa queria dizer – prosseguiu – é que não devemos ter medo de mergulhar profundamente nos acontecimentos dos seres humanos, porque a Igreja e a Companhia de Jesus não foram feitas para defender a si mesmas das situações difíceis”.

O Padre Sosa, que falou em espanhol, italiano e inglês (“Posso responder a essa pergunta em inglês?”, “Em spanglish”, brincou), começou recordando brevemente sua eleição: “Estou bem, estou sereno, muito surpreso (ainda tenho que me acostumar com a ideia), e ao mesmo tempo muito agradecido ao Senhor, pronto para responder com alegria a este chamado, mas também sinto que necessito de uma grande ajuda: não é uma coisa que possa fazer sozinho. Esta é a Companhia de Jesus e, então, confio em que Jesus se encarregue de sua Companhia, e eu procurarei não colocar obstáculos demais”.

Durante a entrevista coletiva, moderada pelo responsável pelas comunicações da cúria geral, Patrick Mulemi, o padre Federico Lombardi destacou que o padre Sosa “é o primeiro superior não europeu, o primeiro latino-americano, embora os três superiores anteriores tenham nascido na Europa, mas vivido toda a sua vida na Ásia: os horizontes internacionais já estavam muito claros nas décadas recentes, e agora temos um representante da América Latina, particularmente significativo com um Papa que também provém da América Latina”.

Não faltaram perguntas específicas dos jornalistas sobre a situação na sua Venezuela natal, que o padre Sosa (doutor em Ciências Políticas) estudou durante sua carreira acadêmica: “Não se pode compreender o que acontece na Venezuela – destacou – se não se tem claro que o país vive dos ganhos do petróleo, e esta renda é administrada direta e exclusivamente pelo Estado”, ou seja, uma situação que “dificulta a formação de uma sociedade democrática”, provocando “muito sofrimento”, que nem “o modelo político do comandante Chávez e, agora, do presidente Maduro”, nem a atual oposição parecem capazes de superar, assim como “a sociedade e o povo venezuelano gostariam”, para dirigir-se a um “sistema não de renda, que é a única maneira de sair da situação atual”.

Quanto à China, o padre Sosa recordou que no país há uma dúzia de jesuítas que ensinam línguas, economia ou cientistas sociais nas universidades, com a autorização do governo central e sem desempenhar nenhuma atividade apostólica. E também recordou as atividades de Taiwan, Hong Kong e Macau, onde, por exemplo, os jesuítas se ocupam da formação teológica de cerca de 100 estudantes.

No blog da 36ª Congregação Geral, outro jesuíta italiano, Antonio Spadaro (diretor da revista La Civiltà Cattolica), descreveu alguns momentos da eleição. Durante a Congregação, “o clima era de silêncio e profundo recolhimento interior. Eu lhe mostrei o caderninho em que fazia algumas anotações. Na capa estava gravada uma frase de Santo Inácio em inglês: “Go forth and set the world on fire”, ou seja, “Vão em frente e incendeiem o mundo”. Seu comentário tinha sido este: ‘Sim, mas hoje o mundo já está em chamas, infelizmente em outro sentido’...”.

Depois, durante o momento crucial, “a contagem dos votos já indicava que sua eleição era iminente. E ele estava tão sereno como antes do começo da votação, como no dia anterior... Quase sem pensá-lo, estendi o braço como para consolá-lo pelo peso que estava caindo sobre suas costas. Dei-me conta de que o estava abraçando. Ele, tão sereno quanto antes, limitou-se a balbuciar algo como: ‘Se é preciso comer a galinha, não resta alternativa senão ferver a água’. E ao final, recordou que um dia, falando com o padre Sosa, este lhe disse que conheceu Jorge Mario Bergoglio “durante a Congregação Geral 33, em 1983. Arturo tinha apenas 35 anos, era muito jovem para ser ‘padre congregado’. Bergoglio (que na época tinha 47) o via jovem e forte. Por isso, deu-lhe um apelido: ‘potrillo’ [potrilho, potranco]. A recomendação que o Papa lhe deu quando recebeu a notícia da sua eleição como geral foi: ‘Seja corajoso’”.

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