O novo Superior Geral cinco estrelas dos jesuítas

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19 Outubro 2016


Durante a 36ª Congregação Geral dos jesuítas, no fim da missa na Gesù, o recém-eleito Pe. Arturo Sosa, SJ, da Venezuela, reza diante do túmulo de Santo Inácio. (Foto cortesia da ordem jesuíta)

A partir do que os jesuítas vinham dizendo antes da eleição de sexta-feira (e a partir do que disseram desde então), o novo Superior Geral Arturo Sosa, venezuelano especialista em política, consegue reunir praticamente tudo o que os membros da ordem religiosa buscavam.

Quando perguntei a jesuítas na Colômbia e no Equador algumas semanas atrás que tipo de Superior Geral eles acreditavam que fosse necessário para o próximo capítulo na história notável da Companhia de Jesus, eu, evidentemente, não obtive uma única resposta.

Os jesuítas são notoriamente individualizados – “uma orquestra de primeiros violinistas”, como às vezes eles se descrevem jocosamente. (Uma expressão equivalente é: “Três jesuítas = quatro pareceres”.)

A reportagem é de Austen Ivereigh, jornalista, foi editor da revista britânica The Tablet e diretor de Assuntos Públicos do ex-arcebispo de Westminster, o cardeal Cormac Murphy-O'Connor, publicada por Crux, 17-10-2016. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Mas, depois de muitas conversas com jesuítas jovens e idosos em residências universitárias em Bogotá, Guayaquil e Quito, consegui chegar ao número cinco. O novo Geral, aprendi, deve ser:

1. Capaz de, pelo menos, manter-se em sintonia com o Papa Francisco, quem está impondo, acreditam eles, um ritmo e objetivos que efetivamente moveram a fronteira para Roma.

2. Um homem de governo, capaz de gerir as implicações estruturais de um organismo em queda livre na Europa e em um rápido crescimento na Ásia e na África, permitindo que a Companhia se consolide melhor em todo o mundo.

3. Um defensor do apostolado social, um visionário capaz de inspirar e articular o compromisso dos jesuítas para com os pobres do mundo inteiro, com a ecologia e com a diversidade humana, como fez Pedro Arrupe, o Geral que dirigiu a Companhia no período de renovação pós-Vaticano II.

4. Não muito idoso (isto é, que não esteja acima dos 70 anos), porque aposentar-se depois de menos de 10 anos soa estranho diante da insistência de Santo Inácio de Loyola para que os Gerais fossem eleitos para toda vida; por fim, mas não menos importante:

5. Um latino-americano, pois é chegada a hora de a liderança da Companhia refletir uma mudança gravitacional em direção ao sul global, tanto na ordem quanto na Igreja de forma mais ampla, não sendo ainda o momento para a Ásia e a África, regiões em que os jesuítas muitas vezes carecem de conhecimento da Igreja universal.

O Pe. Arturo Sosa Abascal foi um dos poucos nomes a mim mencionados como uma das possibilidades. Olhando de novo para esta lista e ouvindo, desde sexta-feira, os jesuítas na Congregação Geral ou aqueles que conhecem Sosa, claro está que ele recebe todas as cinco estrelas.

Primeiro, conhece Francisco desde que ambos estiveram juntos na Congregação Geral de 1983, que elegeu Peter-Hans Kolvenbach. Sosa acabou se aproximando do papa desde que se mudou para Roma em 2014 para assumir o comando das casas dos jesuítas em Roma.

“A amizade atual deles irá, sem dúvida, ajudar os jesuítas a melhor colaborar com a Santa Sé”, diz o Pe. Luis Ugalde, jesuíta espanhol na Província da Venezuela que conhece bem Sosa e que foi o provincial antes dele.

Segundo, Sosa tem uma vasta experiência no comando dos jesuítas e na política em geral, o que é tanto uma profissão da família (o seu pai foi ministro de governo) quanto uma formação acadêmica: Sosa possui doutorado em ciência política pela Universidade Central da Venezuela e uma extensa lista de publicações na área.

O Dr. Rafael Luciani, teólogo venezuelano professor na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, trabalhou com Sosa.

Luciani o descreve como “um grande intelectual na área de ciências políticas e sociais”, que tem sido “um dos principais pensadores dentro da Companhia de Jesus na América Latina”, tecendo críticas tanto ao modelo “neoliberal” de crescimento econômico nas décadas de 80 e 90 quanto à resposta populista-totalitária de Hugo Chávez e Nicolás Maduro – um equilíbrio que, mais uma vez, o põe dentro dos moldes do Papa Francisco.

Sosa foi o primeiro provincial nascido na Venezuela, cujo período (1996-2004) acabou sendo mais demorado do que os habituais seis anos porque o provincial anterior renunciou antes do final previsto.

Esses elementos juntamente com o fato de que ele conduziu, com habilidade, os jesuítas durante um momento de turbulência, de divisão interna num contexto de um regime autoritário, torna o seu passado curiosamente semelhante ao de Jorge Mario Bergoglio, que comandou os jesuítas durante a ditadura argentina na década de 1970.

Como Francisco, Sosa também é um líder natural, acostumado com o exercício da autoridade: foi coordenador de um importante centro de pesquisa social na Venezuela, reitor universitário e, nos últimos anos, diretor de casas dos jesuítas em Roma (a Cúria, a Universidade Gregoriana, o Instituto Bíblico e o Observatório). Em 2008, foi nomeado conselheiro geral pelo Padre Adolfo Nicolás, Superior Geral que renunciou este ano.

O Pe. Gerry Whelan, professor irlandês jesuíta na Gregoriana, descreve Sosa como “um homem de decisão, familiarizado e confortável com funções de liderança”, alguém que “não tem medo de entrar no meio de situações complexas ou tensas a fim de trabalhar para um bom resultado”.

“A maioria dos jesuítas ficariam um pouco intimidados ao serem nomeados para este posto de Superior Geral”, disse ao Crux o Pe. Damian Howard, SJ, eleitor pela Província Jesuíta da Inglaterra, depois que os delegados saíram sexta-feira do processo de escolha do novo líder. “Ele parece estar levando isso a seu ritmo, o que é um dos motivos pelos quais muitos de nós se sentiram em condições de colocar esse fardo sobre os seus ombros”.

Terceiro, ele é um homem do apostolado social, no espírito de Pedro Arrupe. Os seus confrades jesuítas recordam os oito anos em que trabalhou na remota e empobrecida fronteira entre a Colômbia e a Venezuela, bem como lembram a sua liderança do Centro Gumilla, instituto de ação e pesquisa social dos jesuítas, a partir de 1979, o qual, sob a sua presença, atraiu uma grande atenção nos debates públicos.

Tendo sido o país mais rico da região, a Venezuela rica em petróleo, em meados da década de 1980, entrou numa onda de corrupção e pobreza crescente, o que levou à explosão social de 1992, elevando Hugo Chávez ao poder. Luciani lembra como Sosa foi um dos principais críticos do crescimento venezuelano dependente do petróleo e da desigualdade social, mas nunca pensou que a alternativa socialista desse líder tivesse legitimidade.

Ugalde lembra que ele e Sosa foram ver Hugo Chávez pouco depois que este último se tornar presidente. “No início, a situação estava tão ruim que tínhamos certa esperança em Chávez, e Arturo e eu fomos vê-lo para lhe apresentar a análise que tínhamos do que estava faltando na Venezuela. Nada saiu dessa reunião. Vimos imediatamente o que era óbvio: estávamos nas mãos de um soldado”.

Em uma palestra que deu em 2014 na cidade de Medellín, Colômbia, sobre o regime de Chávez, Sosa disse que estava claro, desde o início, que “a lógica militar constituía uma parte essencial do sistema de dominação do regime”.

Na sua primeira homilia como Superior Geral no dia 15 deste mês, Sosa adotou um tom que decididamente lembrou Arrupe ao dizer que queria que os jesuítas trabalhassem “por aquilo que muitos hoje consideram impossível: uma humanidade reconciliada na justiça, vivendo em paz em uma casa bem cuidada, onde há espaço para todos, já que nos reconhecemos irmãos e irmãs, filhos e filhas de um mesmo e único Pai”.

Ugalde contou ao sítio Crux que Sosa está “claramente comprometido com o Concílio Vaticano II e em seguir a Jesus com uma fé capaz de trabalhar por um mundo mais justo, sem barreiras de ódio e discriminação”.

Quarto, aos 67 anos – Sosa completa 68 em novembro –, o novo Superior Geral também atende o desejo que muitos jesuítas manifestaram de um líder vigoroso que vai manter o curso das ações.

“Assim como o papa, ele não tem medo de abraçar e beijar”, diz Ugalde. “Ele acredita nos leigos, nas redes e tem um grande senso de humor. Para os jesuítas venezuelanos, Sosa sempre foi um ponto de referência”.

Ugalde diz que o novo líder “goza de boa saúde, embora às vezes se queixe de dor ciática” (coincidentemente, uma doença que ele compartilha com Francisco), acrescentando: “Ele será um grande Geral que vai durar”.

Whelan concorda. “Sosa é um extrovertido que demonstra calor humano. Ele vai ser um bom líder”.

E, quinto, ele é latino-americano. “Muitos de nós chegaram na cidade com a esperança de que a mudança regional na demografia pudesse, desta vez, vir acompanhada de um líder”, diz Howard, “e acabamos recebendo isso”.

Luciani crê que Sosa representa a maturidade da Companhia de Jesus latino-americana, que absorveu as transformações pós-Vaticano II sob Arrupe e que, neste momento, estão gerando frutos.

Acredita que os jesuítas latino-americanos têm “opções pastorais e teológicas bem definidas, capazes de responder aos desafios do momento presente”, e que “Arturo vai desempenhar um papel muito importante nesse contexto, assim como fez na Venezuela”.

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