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12 Outubro 2016

O Governo é formado mais do que nunca por executivos de grandes empresas. Na Chefatura de Gabinete ocupam 70% dos cargos hierárquicos, ao passo que na Energia e na Fazenda beiram os 50%. A maioria não tem militância política.

A reportagem é de Tomás Lukin e publicada por Página/12, 11-10-2016. A tradução é de André Langer.

Três de cada 10 funcionários hierárquicos recrutados pelo Governo de Mauricio Macri já ocuparam um posto gerencial no setor privado. São 114 executivos das principais companhias e escritórios de advocacia do país que desembarcaram em algum dos 367 cargos de ministro, secretário e subsecretário que constituem a nova estrutura do Estado nacional. Os empresários e dirigentes corporativos romperam as barreiras das áreas econômicas, onde tenderam a posicionar-se ao longo da história recente, para colonizar a ala política do gabinete, transformando-se assim em atores decisivos na tomada de decisões nesses setores. Um levantamento exaustivo do Observatório das Elites Argentinas, do Instituto de Altos Estudos Sociais da Universidade Nacional de San Martín, revela que 53% dos funcionários provenientes do setor privado ocupavam um posto de alta ou média gerência antes de serem designados para suas respectivas pastas.

Shell, Techint, Socma, LAN, JP Morgan, HSBC, Axion, La Nación, Newsan, Pan American Energy, Deutsche Bank, Farmacity, ICBC e Consultatio são algumas das empresas onde os funcionários do Mudemos trabalharam. Educação em universidades privadas, falta de participação político-partidária e poucos antecedentes em cargos públicos são os traços particulares reiterados entre aqueles que desembarcaram no gabinete a partir de 10 de dezembro de 2015. Com cerca de 70% dos cargos hierárquicos ocupados por indivíduos provenientes do setor privado, a Chefatura de Gabinete é a dependência estatal com maior concentração de CEOs (Diretor Executivo). Completam o pódio os Ministérios da Energia e Comunicações, onde a porcentagem de gerentes atinge 50% do total. De acordo com o levantamento, é seguido de perto pelas pastas da Fazenda e Finanças (48%) e Interior e Obras Públicas (40%).

A equipe coordenada pelas sociólogas Ana Castellani, Paula Canelo e Mariana Heredia enfatiza que a análise das trajetórias sociotrabalhistas e educativas dos 367 funcionários hierárquicos do Estado nacional “permite compreender melhor os objetivos do Governo e o conteúdo de suas políticas públicas, identificar quais são as áreas de gestão mais poderosas e entender por que, conhecer quem são seus aliados sociais e políticos e descobrir que setores sociais poderão se beneficiar ou ser prejudicados com as medidas implementadas, entre outras importantes questões”.

O coletivo de 18 pesquisadores e 16 assistentes encarregados do trabalho que será publicado em novembro, ao qual o Página/12 teve acesso, não desconhecem que ao longo da história recente houve empresários ou dirigentes corporativos que integraram gabinetes nacionais, sobretudo nas áreas da gestão econômica e financeira. O inédito do processo aberto há 10 meses é a dimensão quantitativa e qualitativa que a penetração corporativa adquiriu.

Como contraponto dos argumentos sobre a suposta “expertise”, “eficiência” e “modernização” que trariam à gestão estatal, as doutoras Canelo e Castellani levantam uma série de advertências: a) o viés antiestatal, antipolítico e pró-mercado que impregna a ideologia dos CEOs e gerentes; as lealdades que trazem para o interior do Estado e do governo aqueles que desenvolveram suas trajetórias no setor privado, aumentando a probabilidade de conflitos de interesses e a permeabilidade às pressões dos atores econômicos; c) as dificuldades para formar um corpo coeso de funcionários caracterizado por compromissos políticos frágeis; e, d) a extrapolação de critérios organizacionais próprios do management à administração pública.

Uma velha tradição

Ao longo da história recente, em especial durante ditaduras e nos anos de aplicação de reformas estruturais, a presença de empresários ou dirigentes corporativos nos gabinetes concentrou-se nas áreas da gestão econômica e financeira. Desde que Macri assumiu, esse âmbito envolve quatro ministérios com um total de 82 cargos hierárquicos, onde a característica sobressalente é precisamente a presença de funcionários com trajetórias ocupacionais em cargos de alta direção no setor privado. O Ministério da Energia, cujo titular Juan José Aranguren trabalhou mais de 30 anos na Shell, concentra o maior número de funcionários com trajetórias privadas “puras”: 50% dos cargos são ocupados por ex-CEOs. “É o plantel que apresenta os maiores riscos por conflitos de interesse, já que grande parte destes funcionários ocupou altos cargos em empresas do setor energético”, indicam Canelo e Castellani.

De acordo com os dados do levantamento, Agroindústria e Produção são “o reino das corporações setoriais”. A totalidade de seus integrantes registra trajetórias trabalhistas no setor privado e cerca de 45% estavam ocupando um cargo desse tipo antes de ingressar no gabinete. Ao contrário de Energia, a presença dos CEOs é relativamente menor (27% na Agroindústria e 39% na Produção). No entanto, Canelo, Castellani e Heredia remarcam que mais de 80% trabalharam em corporações representativas dos interesses empresariais (UIA [União Industrial Argentina], SRA [Sociedade Rural Argentina], CAC [Câmara Argentina de Comércio], entre outras).

Colonizar a ala política

“Uma característica chave para compreender o gabinete macrista é a colonização que os CEOs realizaram da área política, espaço tradicional dos funcionários políticos, integrada pela Chefatura de Gabinete, Presidência e os Ministérios do Interior e Modernização”, apontam as pesquisadoras da Universidade de San Martín. Com 70% dos cargos hierárquicos ocupados por ex-gerentes e diretores de grandes empresas, a Chefatura de Gabinete, conduzida por Marcos Peña, encabeça a lista ultrapassando inclusive o Ministério da Fazenda e Finanças, onde Alfonso Prat-Gay incorporou em diferentes cargos hierárquicos ex-diretores de grandes bancos, como JP Morgan e Deutsche Bank. Para os responsáveis do Observatório das Elites Argentinas, a Chefatura de Gabinete consolidou-se como “a gerência política geral” do governo de Macri.

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