Enquanto padres são mortos no México, dúvidas e tensões aumentam

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07 Outubro 2016

Mesmo em uma comunidade mexicana rural que cresceu acostumada com notícias de assassinatos brutais, o sequestro e assassinato de um querido padre local desencadeou um grande choque e uma ira profunda.

A reportagem é de Stephen Woodman, publicada por Religion News Service, 04-10-2016. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

O corpo baleado do Pe. Jose Lopez Guillen foi encontrado no dia 24 de setembro numa rodovia fora de Puruandiro, no estado de Michoacan, região assolada pelo conflito violento no México. O clérigo de 43 anos tinha sido levado de casa nas redondezas de Janamuato cinco dias antes.

“Ele era uma pessoa engajada”, diz Maria Solorio, que frequentava as missas do falecido. “Ele era um excelente padre e extremamente dedicado à comunidade (...). Isso que aconteceu com ele foi uma grande injustiça”.

Injustiças como esta vêm aumentando e levantando dúvidas sobre se a Igreja está sob ataque, ou se estes assassinatos estão sendo apenas mais um efeito colateral da onda mais ampla de violência que perpassa o país.

Lopez foi sequestrado em 19 de setembro, no mesmo em dia que as autoridades civis descobriram os corpos de dois padres mortos no estado de Veracruz; estes números elevam o total para 15 padres assassinados nos últimos quatro anos.

Essas mortes ocorrem num momento de relações tensas entre a Igreja e o Estado mexicano, em parte porque os bispos recentemente apoiaram os protestos em massa contra uma proposta de legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo.

Na esteira dos assassinatos, a Igreja abandonou também a sua relutância costumeira de criticar o governo, e vem acusando publicamente autoridades estatais de Michoacan e Veracruz de estarem dirigindo uma campanha de difamação contra a Igreja.

O México é o país com a segunda maior população católica do mundo, com quase 100 milhões de pessoas, ou mais de 80% da população, identificando-se como católicos. O país, porém, tem uma longa história de anticlericalismo e, no século passado, o governo oficialmente – muitas vezes com violência – suprimiu a Igreja.

Esta dinâmica transformou-se drasticamente depois das reformas constitucionais de 1992, com o governo e a hierarquia tendo de boas relações na maioria das vezes.

Ainda não se sabem os motivos para os recentes assassinatos, mas o Centro Multimídia Católico observa que a violência contra o clero ocorre de modo desproporcional em estados com altos níveis de crime organizado, como Veracruz e Michoacan.

O Centro registra 31 mortes de padres no México desde 2006, ano que o então presidente Felipe Calderon enviou tropas a Michoacan numa iniciativa de desmantelar o narcotráfico.

Uma década depois, a guerra no território mexicano tirou mais de 150 mil vidas, enquanto Michoacan continua sendo um reduto de crimes e insurgência civil.

Papa Francisco visitou a capital estadual, Morelia, durante a sua estada no país em fevereiro, no que foi uma demonstração de caridade com as pessoas mais afetadas pelo crime organizado.

A intensidade da violência em Michoacan tem forçado alguns padres a entrarem no ativismo social, muito embora estes movimentos sejam raramente vistos com bons olhos pela hierarquia católica.

Um desses padres é o Rev. Jose Luis Segura Barragan, uma das principais autoridades a fazer oposição aos cartéis de drogas no estado.

Depois de ser nomeado pároco para o município de La Ruana em 2013, Barragan vem manifestando o seu apoio aos grupos de autodefesa armados que surgiram em resposta à insegurança rampante na região. Grupos de moradores locais logo tentaram tirá-lo da paróquia.

“Porque eu não saí, as pessoas meteram bala, atiraram pedras e fogos de artifício contra a Igreja”, disse ele ao Religion News Service.

Barragan, que finalmente deixou La Ruana quatro meses atrás, tornou-se o centro das atenções da imprensa por causa de suas opiniões. No entanto, para o clero, estar em um cargo do baixo escalão não é garantia de segurança. Nos estados mais perigosos do México, qualquer resistência contra os cartéis, por menor que seja, pode ser um motivo para morrer.

“Os padres se acham envoltos a problemas quando se recusam a prover um serviço religioso a traficantes, como um batismo ou uma missa”, diz Segura.

Observadores concordam, no entanto, que a violência contra o clero deve ser vista dentro do contexto mais amplo da guerra contra o narcotráfico.

“Não é honesto dizer que estamos tendo uma perseguição específica aos padres ou à Igreja”, declara o Pe. Hugo Valdemar Romero, porta-voz da Arquidiocese da Cidade do México. “Mas o fato de alguém ser padre não o liberta do risco de assalto, assassinato ou tortura”.

Embora o anticlericalismo não seja o culpado, o Pe. Omar Sotelo, do Centro Multimídia Católico, afirma que o papel do clero os torna particularmente vulneráveis ao crime. Os padres, evidentemente, entram em contato com uma ampla variedade de pessoas, algumas das quais podem ser criminosos.

“A violência contra padres muitas vezes tem a ver com o trabalho pastoral que eles realizam”, diz Sotelo. “Estes crimes não são crimes comuns”.

Alguns críticos têm acusado os bispos mexicanos de estarem se concentrando em temas sociais como o casamento homoafetivo, ao mesmo tempo em que estariam fazendo vista grossa ao tema politicamente sensível da violência.

“A Igreja está focada em questões sexuais”, diz o Pe. Alejandro Solalinde, famoso ativista no país. “Eles não organizam muitas marchas para protestar contra a injustiça, a corrupção no governo ou a impunidade”.

Mas tentativas de promotores de associar os padres recentemente assassinados com o crime organizado e criminosos parecem ter convencido as autoridades eclesiásticas a falar com ousadia contra o governo.

Câmeras de vigilância aparentemente mostrando Lopez a entrar num hotel com um menor de idade vazou para a imprensa em Michoacan. A situação causou um furor geral até que, nas mídias sociais, uma mulher identificou o par como sendo o seu ex-marido e seu filho, não o padre assassinado.

Do mesmo modo, o procurador-geral estadual Luis Angel Bravo Contreras foi criticado por afirmar que os dois padres de Veracruz haviam bebido além da conta na companhia de seus assassinos antes dos crimes.

As autoridades eclesiásticas responderam com uma resposta vigorosa em nome das vítimas.

“Exigimos que nenhum padre, ninguém, seja insultado, especialmente antes de as investigações serem concluídas”, escreveu a Conferência dos Bispos em 26 de setembro, um dia depois que o corpo de Lopez fora descoberto.

“É uma estratégia comum”, afirma Solalinde. “Eles criminalizam as vítimas num esforço para conter o clamor público”.

Neste contexto mexicano de crimes, corrupção e impunidade, Solalinde acredita que a violência contra padres sugere que eles estão vivendo verdadeiramente a vocação cristã.

“Esta perseguição é um sinal de que os padres estão defendendo os direitos humanos”, disse.

O próprio Solalinde foi a ameaçado por criminosos em várias ocasiões.

“Se um dia algo acontecer, aconteceu”, disse. “Mas eu me recuso a permitir que algo assim me preocupe”.

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