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06 Outubro 2016

Xu Guangqi é o mais importante católico chinês da história, fundador da comunidade cristã de Xangai no início do século XVII. A conversão do "doutor Paulo" (assim ele é chamado nos escritos dos jesuítas), ocorrida em 1603, é um marco na história da evangelização da China.

A reportagem é de Gerolamo Fazzini, publicada no jornal Avvenire, 04-10-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Tendo vivido no período conclusivo da dinastia Ming, "ele foi um raro talento na sua época" (assim afirma a revista La Civiltà Cattolica). Ao longo da sua vida, ele se mostrou especialista em muitos campos, da matemática à astronomia, da hidráulica à agricultura. Mas ele se distinguiu sobretudo como literato e político, chegando a ocupar cargos importantes do governo: no auge da carreira, de fato, em 1632, Xu Guangqi foi eleito Grão-Chanceler do Império e se tornou um dos membros do Conselho de Estado.

O nome cristão que lhe foi atribuído com o batismo, Paulo, indicava a esperança dos missionários de que ele mesmo se fizesse apóstolo entre a sua gente. E ele atendeu plenamente as expectativas. Convencido de que o cristianismo não era contrário ao verdadeiro confucionismo, mas representava o seu cumprimento, jogou-se de cabeça no apostolado, tornando-se a "maior coluna" da cristandade na China, de acordo com uma expressão de Matteo Ricci. Como prova de que, sem o apoio dos cristãos chineses, os missionários (incluindo Ricci), não conseguiriam levar a cabo a sua missão.

Quase desconhecido na Itália, senão no estreito círculo dos especialistas, ele é muito conhecido, ao contrário, na China: em Xangai, surgiu um bairro inteiro que leva o seu nome e onde está ativa uma série de vibrantes realidades culturais católicas que se inspiram nesse personagem poliédrico, colaborador muito próximo e amigo do padre Ricci.

Quatro séculos depois, a sua memória ainda está viva: basta dizer que, em 1933, a diocese de Xangai, o mundo político e o mundo acadêmico celebraram solenemente, juntos, o 300º aniversário da morte de Xu Guangqi.

Quase 80 anos mais tarde, em 2012, por ocasião dos 450 anos do nascimento de Xu, foi o então bispo jesuíta de Xangai, Aloysius Jin Luxian, que reavivou a memória do seu ilustre concidadão com uma carta pastoral intitulada "Elogio de Xu Guangqi" e que iniciou o seu processo de canonização.

Alguns anos atrás, também foi realizado, por uma produtora dos jesuítas de Taiwan, um documentário em quatro episódios, exibido por uma TV de Nanjing. Para dar uma ideia da grandeza do personagem, cito uma anedota esclarecedora, relatada no livro Un cristiano alla corte dei Ming [Um cristão na corte dos Ming], organizado por Elisa Giunipero (Ed. Guerini e Associati, 2013). Um dos promotores dos estudos chineses sobre Xu Guangqi, Chen Lemin, ex-vice-presidente do Centro de Estudos Europeus da Academia Chinesa de Ciências Sociais, em 1990, acolhendo Samuel Huntington, arauto da controversa teoria do "choque de civilizações", em visita à China, apontou justamente para o laço profundo e fecundo entre Matteo Ricci e Xu Guangqi para refutá-la radicalmente.

Pois bem, justamente há 400 anos, exatamente em setembro de 1616 (Ricci tinha morrido há apenas seis anos), Xu Guanqi viveu uma fase particularmente delicada da sua vida cristã, comprometendo-se junto ao imperador em uma forte e louvável defesa dos jesuítas e da sua atividade apostólica, em um momento de grande dificuldade para estes últimos.

A perseguição tinha começado em maio, por obra de Shen Cui, um funcionário de Nanjing que tinha apresentado ao imperador-rei Wanli um "Memorial sobre a necessidade de expulsar os missionários estrangeiros", repleto de calúnias e ataques contra a Igreja Católica. Xu Guangqi, tendo ficado sabendo da notícia, decidiu escrever um documento em favor dos missionários que "chegaram à China com o único objetivo de convencer as pessoas a serem benevolentes".

Não só isso: Xu Guangqi se declarou disposto a garantir as suas afirmações e o correto comportamento dos jesuítas até mesmo com a própria vida: uma abertura ao martírio que não só prova uma fé corajosa, mas também é o selo de uma amizade muito profunda com os missionários.

O imperador Wanli rejeitaria a carta de Shen Cui, enquanto acolheria a de Xu Guangqi. Shen Cui, porém, não se resignou e, em setembro, enviou um novo memorial ao imperador, enquanto são enviadas tropas para cercar a igreja de Nanjing e prender sacerdotes e fiéis católicos. Xu Guangqi, então, redigiu um segundo memorial. Além disso, decidiu proteger, por sua conta e risco, os missionários que se encontram em Pequim, oferecendo-lhes a sua casa. Ao mesmo tempo, escreveu uma carta para ser enviada para toda a China para explicar a fé católica. Xu Guangqi conseguiria resistir a Shen Cui por nove anos, até a morte deste último, ocorrida em 1624.

Por que evocar hoje novamente uma figura tão distante no tempo? Porque Xu Guangqi, assim como Matteo Ricci, é um personagem-ponte entre a civilização europeia e a chinesa, que desperta admiração tanto no Oriente quanto no Ocidente. Portanto, redescobrir a sua estatura e a sua herança hoje, em tempos em que se espera que, entre Vaticano e China, as distâncias possam se reduzir, é um exercício de memória que abre ao futuro.

Além disso, a biografia de Xu Guangqi – convertido de grande estatura moral, mas também homem que dedicou a vida ao serviço do seu país – é uma clara demonstração de que não há contradição entre ser um bom cidadão e um cristão, como já ressaltava Bento XVI na sua "Carta aos católicos chineses" (2007). Uma mensagem mais do que nunca atual.

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