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30 Setembro 2016

Imperi paralleli [Impérios paralelos] (Ed. Il Saggiatore), de Massimo Franco, colunista do Corriere della Sera, conta dois séculos de relações entre Vaticano e EUA, marcados, primeiro, pela desconfiança, depois por uma atormentada aliança. Hoje, são como dois "impérios paralelos": os únicos com uma projeção planetária.

O jornal Corriere della Sera, 29-09-2016, publicou um trecho do livro. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

"Agora sabemos que até Donald Trump pode ganhar..." No início de julho de 2016, no Palácio Apostólico vaticano, reconhecia-se um dos possíveis resultados da campanha presidencial estadunidense, com uma pitada de autêntica inquietação. Davam-se conta de que, qualquer que fosse o resultado da votação de novembro, a Santa Sé corria o risco de "perder" as eleições para a Casa Branca. Trump, o bilionário escolhido, ou talvez seria melhor dizer "sofrido", pelo Partido Republicano, e a senadora de Nova York Hillary Clinton, candidata dos Democratas, eram vistos como adversários não só políticos e estratégicos, mas também culturais da Igreja Católica.

"Por motivos opostos, as duas candidaturas representam, para nós, o pior cenário", admitia-se no início do verão europeu de 2016, no círculo do Papa Francisco. "Trump é tudo aquilo que vai contra o ensinamento da Igreja: sobre a imigração, sobre a defesa dos mais fracos, sobre o choque entre civilizações e religiões. Sobre ele, o papa se expressou de modo direto: um estilo que, comumente, não é o da diplomacia vaticana. E não podemos saber o que restou das palavras papais na alma de Trump: é um ponto de interrogação. Quanto a Hillary Clinton, ela e o marido, Bill, são a encarnação da ideologia laicista inimiga dos valores católicos sobre temas sensíveis."

O confronto com Trump tinha ocorrido no dia 18 de fevereiro de 2016, no voo que levava Jorge Mario Bergoglio de volta para Roma, depois de uma visita à fronteira entre México e EUA. E tinha causado frisson em todo o mundo. O papa tinha querido parar na frente da fronteira entre os dois países, para lançar uma advertência contra todas as barreiras. Trump o tinha acusado de ser um "peão" do governo mexicano. Assim, quando foi perguntado ao pontífice o que ele pensava do muro de 2.500 quilômetros que o bilionário queria construir entre EUA e México, deportando cerca de 11 milhões de imigrantes ilegais, ele respondera: "Eu, um peão? Bem, eu deixo ao julgamento de vocês e ao julgamento das pessoas. Uma pessoa que só pensa em fazer muros e não em fazer pontes não é cristã. Votar nele ou não votar nele? Eu não me intrometo. Digo apenas que, se ele falou assim, esse homem não é cristão".

Trump não tinha se assustado minimamente. E sua resposta foi dura... Por outro lado, era ele que se apresentava como o defensor da "América profunda". Para aquela "América", a imigração não era a base para continuar crescendo, mas se tornava uma ameaça. A escolha como candidato a vice-presidente de Mike Pence, deputado, ex-governador de Indiana, católico convertido ao evangelismo protestante, antiabortista, antigays, refletia bem essa "nação profunda". Trump era o protestante presbiteriano, queridinho daquele "Cinturão da Bíblia" que corria do sul ao norte dos EUA, na infindável província estadunidense onde a crise apertava mais.

Ele mesmo contava que recebia muitas Bíblias de presente. Às vezes, agitava uma cópia durante os comícios. E o gesto, para um certo tipo de eleitorado, era um apelo quase primordial aos EUA brancos e anticatólicos. O candidato republicano era o teórico de um "problema islâmico" nos EUA. "Eu não vi suecos derrubando as Torres Gêmeas do World Trade Center", declarou ele em uma entrevista em 2012. Mas era exatamente isso que assustava o Vaticano.

Uma vitória de Trump podia significar incitar o confronto não só com o mundo, mas também, em primeiro lugar, entre "duas Américas". Intolerância religiosa contra coexistência e respeito entre religiões; direito à autodefesa armada contra a tentativa de controlar a venda de armas. Era como se, depois de oito anos de Obama, despontasse novamente, exasperado e laicizado, o fenômeno dos teólogos conservadores do círculo de George W. Bush, que tinham semeado guerras depois dos massacres da Al-Qaeda do 11 de setembro de 2001; e desestabilizado o Iraque. A "América profunda" se absolvia, pronta para abraçar Trump, abalando os prognósticos de uma elite autorreferencial.

No Vaticano, acompanhavam o que acontecia do outro lado do Atlântico durante meses. Limitavam-se a constatar que "o nível da maioria dos candidatos levaria a dizer que os EUA refletem o declínio do Ocidente...". O julgamento foi reforçado quando permaneceram no desafio Clinton e Trump. Os dois candidatos ofereciam uma perspectiva de hostilidade como há muito tempo não se via entre Washington e a Roma papal. Não era só o candidato republicano como pessoa que agitava os sonhos do Vaticano, mas também aquilo que ele representava: o sintoma de uma radicalização do eleitorado republicano e de um contágio que estava tomando posse de todo o Ocidente.

Isso se juntava com o populismo e a xenofobia em ascensão em amplos setores da opinião pública europeia. Trump encarnava o produto mais visível de uma cultura que tinha muitos imitadores em nações do Leste Europeu, como Hungria e Polônia, mas também na Alemanha, França, Itália, Grã-Bretanha, Escandinávia. Mas, acima de tudo, era a metáfora de um cristianismo egoísta e racista, que, particularmente para Francisco, constitui um oxímoro inaceitável. Trump encarnava "o Norte do mundo", no significado mais distante do de Bergoglio...

Não foi difícil identificá-lo como uma espécie de líder "moral" de uma Internacional xenófoba que podia se assentar na Casa Branca: o potencial oposto de uma religião católica destinada a combater o mesmo contágio nas fileiras eclesiásticas. Como Trump, de fato, até mesmo alguns bispos, cardeais, expoentes dos episcopados ocidentais repetiam o seu mantra em voz baixa: o papa argentino não entende o Ocidente, não entende os EUA... O fato de esses maus humores encontrarem uma margem segura no futuro presidente dos EUA era um pesadelo compreensível para a Santa Sé.

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